Romaria dos Bifes e dos Melões

by | 16 Fev, 2023 | Agosto, Festas, Minho, Províncias, Setembro, Tradições

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A Romaria dos Bifes e dos Melões tem um outro nome, bem mais católico, e usado pelo público mais velho: Romaria de Nossa Senhora do Porto d’Ave. Acontece na freguesia de Taíde, concelho de Póvoa de Lanhoso, na transição do mês de Agosto para o mês de Setembro, e é uma das últimas grandes festas do Verão minhoto.

A festa religiosa à Senhora do Porto d’Ave

Se muitas vezes eu desconfio que a origem das romarias portuguesas, sobretudo as nortenhas, seja bem mais antiga do que alguns pensam, possivelmente remontando até a alturas pré-cristãs, no caso da Romaria do Porto d’Ave tenho o pressentimento contrário. Ao contrário de tantas outras festas religiosas, aqui não estamos perante um escondido culto das alturas, como acontece nos santuários edificados nos topos de determinados sacro-montes. Aliás, o que aqui se vê é precisamente o oposto: um santuário construído na cota mais baixa de um pequeno outeiro junto à povoação de Taíde.

Poderíamos, eventualmente, reclamar um culto das águas como o germe da actual procissão, dado o templo se encontrar junto ao rio Ave, mas não vislumbro qualquer rito que remeta para aí.

Irei, portanto, repetir as teses actuais, que colocam a romaria como setecentista, mais ou menos com durabilidade idêntica ao santuário que a recebe, e que no início se centrava na data de 8 de Setembro que, segundo o calendário litúrgico, é o dia dedicado ao nascimento da Virgem Maria. Nos primeiros tempos, a devoção tinha uma imagem da Senhora do Rosário como alvo. Com o tempo, e talvez por a si serem atribuídas uma série de milagres, a mesma imagem viria a ser denominada Senhora do Porto d’Ave.

O calendário da festividade tem particular significado. São, no total, nove dias de festa religiosa, já que a novena católica dura, como o nome indica, nove dias. A romaria propriamente dita ocorre no primeiro Domingo de Setembro, e o começo das celebrações inicia-se oito dias antes, ou seja, num Sábado. Todas as manhãs, do primeiro Sábado ao último Domingo, é rezada uma novena dedicada à Virgem. Se o grande evento é a procissão final de Domingo, onde a Senhora do Porto d’Ave se passeia em andor ornado com flores de várias cores, pelo meio há outros marcos religiosos de grande procura, como por exemplo a Missa à Senhora da Boa Morte, geralmente por altura da segunda novena, ou a Procissão das Velas, na noite de Sexta-Feira.

Novena na igreja do Santuário da Senhora do Porto d'Ave

A novena, no Santuário do Porto d’Ave

Da Senhora do Porto d’Ave à Romaria dos Bifes e dos Melões

E contudo, não querendo tirar mérito a toda a liturgia que encontramos na Romaria da Senhora do Porto d’Ave, eu prefiro tratar a amálgama de gestos sagrados e profanos que se dá em Taíde pelo seu nome popular: a Romaria dos Bifes e dos Melões. Porque o que aqui se vê é bem mais do que procissões, eucaristias e ladainhas. Como qualquer romaria que assenta pé no Minho, os cantares e as concertinas e os cavaquinhos sobrepõem-se aos murmurinhos da oração.

É rara a noite que não conte com farra. Uma delas, então, tem farra da grossa, mas guardarei essas palavras para uns parágrafos mais adiante. Há concertos diários. Há a habitual feira popular com os carrosséis e os carrinhos de choque. Há um festival de ranchos folclóricos. Há exposições. Fogo de artifício. Peças de teatro. Desfiles de moda. Mostras de gado bovino…

E, falando em gado bovino, há o insubstituível Bife à Romaria, uma especialidade que não pode faltar no policromático mês de Agosto minhoto, com a sua cebola a cavalo, acompanhado de batata cozida ou, para os mais modernos, batata frita. É o momento em que os talhantes da região se defrontam para saber quem tem a melhor carne. A rematar o empanturramento, temos sempre em stock um Melão Casca de Cavalho, o típico melão do Norte, para deixar a boca fresca e seguir para os palcos de estômago aviado.

Daqui, deste imperativo gastronómico que casa um bife e um melão (e já agora, porque não, um Vinho Verde carregado de uva tinta), vem a informalidade do nome Romaria dos Bifes e dos Melões. Esta, perdoem-me os mais devotos, é a designação que fica.

A Noite Gerações

A Noite Gerações, agora também nomeada Diver Noite Gerações, fica guardada para a única Sexta-Feira do certame. Começou como uma combinação de copázios entre amigos, por ocasião da Romaria dos Bifes e dos Melões – e quantas tradições não nascem assim?

Contudo, de uma pequena brincadeira de esquina, a coisa avolumou-se para dimensões nacionais. Só na Noite Gerações, Taíde vê a sua população aumentar em dez vezes. São, neste momento, cerca de vinte mil pessoas que se juntam na praça acima da igreja, junto ao escadório, no comummente apelidado Terreiro das Músicas. E só não são mais porque o espaço está limitado ao perímetro do santuário, não conseguindo acompanhar o exponencial aumento de visitantes.

Por muito que a organização diga que a Noite Gerações vem para abolir muros geracionais e que toda a gente, do miúdo ao graúdo, está convidada – um pouco a lembrar o Dia dos Idades, em Figueira de Castelo Rodrigo -, a realidade que nos passa diante dos olhos é bem diferente. Nesta Sexta-Feira, que na maioria dos casos chega já no mês de Setembro, são os putos a mandar. Muitos instalam-se em tendas junto à Praia da Rola e aguardam pela altura dos concertos que chegam em duas fases do dia, uma pela tarde (o sunset) e outra pela noite. Entre uma e outra, em contraponto, regista-se um dos mais solenes episódios da romaria, a já mencionada Procissão das Velas, ao anoitecer – nesta altura, as colunas de som são desligadas e o extravaso da garotagem baixa de tom, num bonito gesto de respeito dos mais novos (que vêm pela festa) para os mais velhos (que vêm pela Senhora).

Do almanaque da romaria dedicada à Senhora do Porto d’Ave, a Noite Gerações passa como o enfant terrible. Uma tropel sem igual, com vários palcos a dar protagonismo a grandes nomes da pop nacional e depois aos DJs que actuam noite fora. Para a maioria dos que aqui se metem, quem volta ao saco-cama antes do nascer do sol está em grave incumprimento.

Público jovem na Noite Gerações

A enchente da Noite Gerações

Público no Terreiro das Músicas, no Santuário da Senhora do Porto d'Ave

Terreiro das Músicas lotado na Noite Gerações

Póvoa de Lanhoso – o que fazer, onde comer, onde dormir

Portugal nasceu aqui, num baluarte anterior à própria pátria, hoje conhecido como Castelo de Lanhoso - foi especialmente querido à história de D. Teresa, mãe de Afonso Henriques, que alguns consideram a verdadeira primeira monarca portuguesa. Além da renovada fortificação, há, logo ao lado, duas outras construções obrigatórias - o Castro de Lanhoso, que esteve na origem de tudo isto, e o Santuário de Nossa Senhora do Pilar, que começa no sopé do Monte do Pilar e chega até ao seu topo.

E no entanto, apesar dos três exemplos de património histórico descritos acima já serem suficientes para justificar uma visita, Póvoa de Lanhoso tem muito, mas mesmo muito, para ver. A destacar, temos a Filigrana que é trabalhada em Travassos e em Sobradelo da Goma, em primeiro lugar. Em segundo, o Centro Interpretativo Maria da Fonte, um espaço de pesquisa e divulgação de uma das mais célebres figuras da cultura popular, cantada e pintada e esculpida de norte e sul do país enquanto protótipo da mulher nortenha, e que de uma pequena revolta junto à Igreja de Fonte Arcada fez contagem decrescente para uma nova guerra civil. E em terceiro, caso haja possibilidade de ir a meio de Março, as Festas de São José, que se prolongam por uma semana mas que têm no dia 19 de Março o momento da sua majestosa procissão.

Quanto a lugares estivais, o pontão da Barragem de Andorinhas - num trecho predestinado do rio Ave, logo a jusante da lendária Ponte de Mem Gutierres -, e a Praia Fluvial de Verim, no extremo norte do município, são escolhas evidentes. Não muito longe desta última, o Pelourinho de Moure é uma curiosa obra que contraria o manuelino de onde brotou. E numa outra apertada praia, a Praia Fluvial da Rola, há o Santuário da Senhora de Porto d'Ave, responsável pela concorrida Romaria dos Bifes e dos Melões. De referência internacional é o DiverLanhoso, um dos maiores parques de aventura no continente europeu, com diversificada oferta de actividades, mormente para a criançada.

Nas comidas, os dois andares do Velho Minho guardam boa garrafeira e cozinha regional bem preparada - é bom o cabrito, finalizado com um pudim Abade de Priscos. Para dormir, o resguardo da Casa do Monte da Veiga, junto a Calvos (onde respira um dos mais belos carvalhos nacionais), dá noites sossegadas a quem as quiser, mas também a Villa Moura, em Fonte Arcada, entrega boa qualidade de serviço, piscina, e vista desimpedida sobre a serrania que cerca a sede de concelho.

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Mapa

Coordenadas de GPS: lat=41.55796 ; lon=-8.2223