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O rio Ave vive, há cerca de um século, da dicotomia que o parte em dois: a montante, um rio diáfano, bucólico e serrano; a jusante, um rio poluto, industrial e urbano. O primeiro é sinónimo de vastos soutos e carvalhais cantados por melros-d’água, de trutas e de bogas, de lontras e raposas e ginetas. O segundo rima com alcatrão, descargas químicas, trânsito suburbano.

Esta divisão mostra-se tão vincada que poderíamos falar de dois cursos fluviais distintos, e é por isso que abordarei cada um deles em secções diferentes no texto que se segue.

Numa primeira parte, discorre-se sobre a primeira metade do rio Ave, que engloba os concelhos de Vieira do Minho e da Póvoa de Lanhoso. Depois, far-se-á alusão à zona de transição, correspondendo tal área, grosso modo, ao concelho vimaranense. Por fim, a segunda metade do Ave, que alinha quatro municípios já muito influenciados pela dinâmica da cidade do Porto (Vila Nova de Famalicão, Santo Tirso, Trofa e Vila do Conde).

Comecemos.

A Cabreira e o Ave

A nascente do rio Ave está indicada com pompa e circunstância na Serra da Cabreira e reveste-se de algum romantismo. A bonita lenda que une serra e rio, ao mesmo tempo que liga ambos à cidade de Vila do Conde, será discutida numa outra altura. De qualquer forma, lê-la serve para confirmar que, no seu trecho inicial, o rio Ave é tido como um rio idílico, quase místico.

De facto, fazendo o percurso encosta abaixo, da nascente até à vila de Rossas, tudo é feérico. Assim que deixamos o bosque cerrado, passamos pela bela aldeia de Agra, classificada com justo mérito na rede das Aldeias de Portugal, e vemos como o Ave a abençoa, na praia fluvial e na ponte. No trecho entre Agra e Lamedo temos um alinhamento de dezenas de moinhos que podem ser observador através de um trilho que acompanha a margem. Lá perto está a magnífica e muito procurada Cascata da Candosa. O Ave selvagem e intocado segue assim até Rossas, momento em que se prepara para assumir a condição de rio lúdico.

É na Barragem do Ermal, quando se transforma em albufeira, que o Ave ganha outra dimensão – em tamanho e em fama. A demografia é outra. Liberto dos contrafortes da Serra da Cabreira, o Ave passa a ser povoado pelos lugares cercanos. Na barragem, vive no sobressalto de ser constantemente rasgado pelas esteiras de jetskis e derivados. O Verão, neste pedaço, é doce. As crianças fazem do Ave um parque infantil. A água mantém-se translúcida. Para alguns, até potável. Custa a crer que este é o mesmo rio que, nem cinquenta quilómetros depois, testemunha o alvoroço fabril que germina entre os distritos do Porto e de Braga.

Vem depois o concelho de Póvoa de Lanhoso. Pouco muda. Na realidade, segue-se outra albufeira, desta vez provocada pela Barragem de Andorinhas. Uma continuação do Ermal, mas em ponto pequeno, e quase sem recreio – há, ainda assim, um singelo pontão para saltos na ponta oriental. Após a represa, qualquer língua de terra despida de arvoredo é desculpa para um mergulho – os Três Moinhos, a Lagoa da Fábrica, a Rola… Só então tem novo descanso, livre de quebras e socalcos, quando entra no concelho de Guimarães, entre Gondomar e Donim, não muito longe da Citânia de Briteiros.

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Monolito marca a Nascente do rio Ave

Marco assinala a nascente do rio Ave

O rio Ave vimaranense

Dificilmente se conseguia entrada mais simbólica do Ave no concelho de Guimarães. Nas margens, uma área de recreio de nome Parque de Lazer de Gondomar. Ao fundo, a oriente, um cerro desbastado deixa antever uma pedreira. Aqui temos, quase lado a lado, a identidade do Ave vimaranense – o fim de um leito casto, o início de um rio eivado.

Não estamos, vá lá, no grau de contaminação que acontece em Vila Nova de Famalicão. Aqui há praias fluviais onde ainda há quem arrisque a ida a banhos, como é exemplo a Praia de Barco, a Praia Seca, a Praia das Taipas – funcionam como produto substituto às praias da Póvoa de Varzim, e estão todas a norte de Guimarães. Daqui para sul, depois do Ave passar ao largo da cidade vimaranense, qualquer área de lazer ribeirinha desaconselha a entrada no rio. Nem sequer os parques estão equipados para tal.

Todavia, nem tudo é mau. A ecovia que irá acompanhar o curso do Ave ajudará a devolvê-lo aos munícipes. Na mesma linha, a Câmara e a sociedade civil de Guimarães têm desenvolvido crescentes acções de despoluição do seu mais importante rio. E, de caminho, celebre-se o regresso de uma profissão que se julgava enterrada em meados do século XX – a dos Guarda Rios, patrulhas que têm a obrigação de vigiar e disciplinar quaisquer comportamentos de risco, tal como de educar as populações locais na relação que têm com os seus principais recursos hídricos.

Ave corre entre calhaus na Serra da Cabreira

A limpidez do Ave na Serra da Cabreira

Praia Seca, vista aérea

Área de lazer da Praia Seca, em Guimarães

Segue o Ave entre a Trofa e Famalicão

Aspecto do rio Ave entre a Trofa e Vila Nova de Famalicão

As feridas do Ave

Se, em Guimarães, o rio Ave ainda mantém alguma saúde, tal acaba logo que entra no concelho de Vila Nova de Famalicão, mantendo o registo em Santo Tirso e na Trofa. Nem é preciso ir buscar relatórios de reguladores. Basta estar dotado de visão e mirar a sua superfície. A cor é outra, bem distante da que tem na Cabreira. E o problema, claro, não é apenas o que aqui se vê, mas o que também pode ser atestado em todos os seus afluentes, em especial o rio Selho, o rio Vizela, e, mais tarde, o rio Este, tão ou mais problemáticos que o Ave para onde correm.

Historicamente, é fácil explicar as razões que levaram ao desastre de hoje – e que é justo dizer, mais uma vez, que já foi pior.

Em primeiro lugar, a concentração industrial desta zona ao largo do Porto nos finais do século XIX, concentração essa que se foi acentuando ao longo do século XX, beneficiando da construção da Linha do Minho. As industrias mais poluentes eram sobretudo do sector têxtil, bastaria olhar para as sobras dos processos de tinturaria que eram atirados à água para o perceber. Mas não só. Também havia descuido de particulares, de hospitais, de oficinas automóveis, de industrias metalúrgicas.

Em segundo lugar, a escassa regulação que existia. Sabemos que as preocupações ecológicas são uma preocupação recente, e nas primeiras décadas do passado século a prioridade de qualquer governo ou câmara municipal passava por dar emprego e salário às pessoas, tarefa que as fábricas garantiam, até mais do que a agricultura. Pôr isso em causa por questões eco-friendly não era questão que se considerasse.

E em terceiro lugar, a própria geografia administrativa do Baixo Ave, que coloca o rio como fronteira entre vários concelhos: Famalicão, Santo Tirso, e Trofa. O resultado não se fez esperar: as cidades foram construídas de costas para o rio, porque a responsabilidade deste era dividida em dois – a do município da margem esquerda, e a do município da margem direita. Note-se que há melhoramentos a registar, como as recentes acções de concertação entre os municípios envolvidos com o objectivo de optimizar o supervisionamento das descargas poluentes e de investir em operações de tratamento da água. E mais. O concelho da Trofa, por exemplo, montou na margem esquerda um belíssimo passeio ribeirinho: o Parque das Azenhas. Santo Tirso, por sua vez, criou uma praia urbana que funciona como lugar de reunião da comunidade, embora sem direito a banho.

E enfim, passadas as chagas, chega Vila do Conde. Sem qualquer dúvida, o concelho que mais associamos ao rio Ave, mais não seja por matéria futebolística. A harmonia com que o rio atravessa os férteis campos vila-condenses, bem como a suavidade com que se entrega ao Atlântico, disfarçam o tormento por que passou nos últimos quilómetros. Até as águas fluviais junto à foz, porque misturadas com as oceânicas, surgem mais límpidas. No fim do Ave, aparece a Capela da Senhora da Guia, de estética mais sulista que nortenha, a pontuar nova finisterra portuguesa. A bonança depois da tempestade.

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