Ponte de Vila Ruiva

by | 11 Jul, 2023 | Baixo Alentejo, Engenharia, Lugares, Monumentos, Províncias

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Também conhecida por Ponte Romana da Ribeira de Odivelas, a Ponte de Vila Ruiva encontra-se a norte da povoação homónima, terra alentejana conhecida pelos seus frescos.

Trata-se de um dos mais bem conservados monumentos de engenharia romana, posteriormente requalificado em diversos períodos históricos. Como tal, não faz a coisa por menos: é, no dia em que se escrevem estas linhas, o único Monumento Nacional do concelho de Cuba.

A ponte com dois mil anos

Ao descermos o Outeiro dos Pinheiros, uma pequena elevação onde Vila Ruiva encontrou o seu assento, e nos orientarmos para a ribeira de Odivelas, em direcção a Albergaria dos Fusos, vemos, entre um bando de oliveiras e canaviais e amieiros, uma estreita rampa sustentada em pilares graníticos. Pouco daríamos por ela. E o maior elogio que nos sai, à primeira, é o seu comprimento, para lá dos cem metros.

Mais. É daquelas pontes do sul em que, por vezes, nos meses estivais, parece não ter razão de ser, dada a secura lhe retirar o riacho que supostamente atravessa. No Inverno, com o caudal da ribeira visível a olho nu, lá lhe percebemos a razão.

A estupefacção começa quando lhe lemos a história. A Ponte de Vila Ruiva ali repousa há dois milénios, talvez até um pouco mais, conforme ajuda a perceber um túmulo de um tal ANNIUS construído no seu eixo. Testemunhar que os carros de hoje ainda lá passam, mesmo que apenas em sentido único (de norte para sul, já que a sua largura não permite mais do que isso), impele-nos a fazer o inacreditável exercício de imaginar um cisium romano a fazer este exacto caminho, porque por aqui passava qualquer gente que pretendia ir “de Ebora a Pax Júlia”, como escreveu João Baptista de Castro, ou seja, da actual cidade de Évora à actual cidade de Beja.

Claro que agora a travessia é outra. De Beja a Évora pega-se o IP2. Mas o caminho velho ficou para quem quiser guiar nas vias secundárias cubensesj. E aguentou-se. Visigodos e Mouros acrescentaram ao granito vários blocos de tijolo. E no fim da Baixa Idade Média misturaram-se camadas de xisto ao composto.

Lenda da Ponte de Vila Ruiva

Há uma crença local que entende que a Ponte de Vila Ruiva foi levantada pelo rei Ismar, aquele que, de acordo com a tradição oral, foi o mais importante dos cinco reis mouros derrotados na suposta Batalha de Ourique, e portanto um dos que figura nas quinas da bandeira portuguesa, de acordo com certas interpretações desse episódio lendário que ainda descortinamos o que tem de histórico.

Mas há uma outra lenda que se conta acerca dela. Essa fala de termos o Diabo como guarda da sua travessia. Segundo se diz, o mafarrico convidava quem a quisesse cruzar a jogar às cartas consigo: quem ganhasse, seguia viagem, quem perdesse, entregava a sua alma ao Inferno. O problema é que o Diabo, sendo quem é, arranjava maneira de ludibriar os desgraçados que aceitavam jogar consigo, e vencia sempre. E assim se começou a atribuir alguns dos barulhos inexplicáveis que pela noite lá se ouvem às almas ali perdidas numa bisca sem trunfos.

Salvaguardando que na Cuba do Alentejo, isto é, bem perto de Vila Ruiva, se falou durante muito tempo de um Diabo que se escondia num poço convidando alguns passantes para um jogo de cartas, o que é impossível não relacionar com a crença agora relatada, esta segunda lenda atira-nos também para o Norte português, de fundo mais celta. Com efeito, é comum ouvirmos conversas sobre pontes guardadas pelo Diabo nas províncias do Minho e de Trás-os-Montes. Exemplos desses já aqui foram apontados, na Ponte da Misarela, na Ponte de Mem Gutierres, e até na Calçada de Alpajares. Não tanto habitual é encontrar crenças semelhantes no Baixo Alentejo. Mais uma maneira que a Ponte de Vila Ruiva tem de nos surpreender.

Cuba do Alentejo – o que fazer, onde comer, onde dormir

Cuba, a vila alentejana e não a ilha caribenha, foi povoada desde épocas pré-romanas, embora tenha sido com Roma que ganhou relevância. Com efeito, é a nordeste da vila, num pequeno outeiro a que chamam de Moinhos do Tanquenho dado o par de moinhos de vento que por lá moram, que muito provavelmente um castelo romano foi alçado. Hoje temos dali um excelente palanque para a actual povoação - observa-se o baixo casario e, às suas cavalitas, as altitudes do silo de cereais e da torre das piscinas.

O burgo da Cuba é feito a esquadria, sobretudo o seu flanco sul, aquele que mais influência teve com a chegada da Estação de Caminhos de Ferro. A esse propósito, Pedro Ferro, na obra "Alto e Baixo Alentejo", chamou Cuba de "terra de cargas e descargas". Com efeito, aqui vinham quase todo os alentejanos residentes nessa mancha entre Évora e Beja à caça de mercadoria. Esta veia comercial cubense moldou as gentes e a terra. Viu uma modernização nos seus edifícios que poucas características guardam da arquitectura popular alentejana. Não obstante, na Cuba ainda temos a tradição sulista a funcionar em paralelo - nas adegas musicadas do Cante (que nunca cessem os cantadores cubenses que, com gravidade na boca e mini na mão, arrastam as sílabas numa dolência maior que em todo o resto do Alentejo), no activo lendário (veja-se a Lenda do Poço da Besta), na beleza interior da Igreja Matriz de São Vicente (o frontal de azulejos é gabado para lá da concelhia).

Como curiosidade, e puxando um pouco pela controvérsia, o Centro Cristóvão Colon está de portas abertas para quem se queira deixar convencer com a teoria da origem do descobridor ser não só portuguesa, mas muito em concreto cubense. Menos polémico é o Museu Literário Casa Fialho de Almeida, uma sentida homenagem da Cuba a um dos homens que mais beleza e veneno pôs nas palavras com que se criticava os dirigentes do país entre o final do século XIX e início do século XX.

Depois há o resto, exterior à sede de concelho, que não é pouco. Porém, quase tudo o que há para ver dentro das fronteiras do município de Cuba está no núcleo norte, mais ou menos entre as duas aldeias históricas de Vila Ruiva e Vila Alva. Na primeira destacam-se os vários frescos, na segunda as maravilhosas adegas onde se prova o barrento e romano Vinho de Talha. Lá param também dois monumentos fundamentais para a compreensão da história deste par de terriolas geminadas - a romana Ponte de Vila Ruiva, que é monumento nacional, e a Ermida da Senhora da Represa, onde há procissão por altura da Páscoa.

Mais para cima, próxima de Albergaria dos Fusos, fica a praia fluvial, novinha em folha, pronta a refrescar as tardes soalheiras. No flanco sul, apenas Faro do Alentejo serve de referência geográfica, sendo uma aldeia de poucas casas e cujo protagonismo apenas é reclamado aquando da sua Feira da Caça, da Pesca, e do Mundo Rural, que por acaso até acontece na mesma altura em que as talhas se abrem para a prova de vinho novo.

Falando em aberturas de talhas, e voltando à face setentrional do concelho, a não perder são os eventos lançados pela Herdade do Rocim e por Vila Alva, respectivamente designados Amphora Wine Day e Provando o Tareco, ambos realizados por ocasião do dia de São Martinho. No primeiro provamos os tintos de ânfora da quinta cubense, no segundo tragamos os tintos de ânfora das centenárias vinhas do município. Com jeitinho, dá para ir aos dois.

Onde comer

O correcto é dividir tudo o que se enquadrar na categoria de comes e bebes cubenses em dois grupos: os restaurantes e as adegas. Nos restaurantes o que mais importa é a comida, embora também se beba. Nas adegas o que interessa é a bebida, embora também se coma.

Antes de irmos a cada um deles, uma nota aos visitantes: estamos no Alentejo, e não num Alentejo qualquer, no interior alentejano. Em muitos estaminés não há menu. É entrar, sentar, e comer o que os donos recomendam. O processo não pode ser mais simples. Fico banzado com a quantidade de pessoas que não entende que nem tudo tem de estar escrito numa tábua. Se o chefe de cozinha ou o empregado não vos der escolha, aproveitem isso mesmo, o não ter de escolher.

Começando então pelos restaurantes, o Julião, na Cuba, mistura os pratos mais conhecidos do Alentejo, que andam quase sempre em torno do porco, com surpresas vindas do mar, como o lingueirão. Ainda na Cuba, e de estética mais moderna, temos o Essa Taberna, de abertura recente e cuja aposta recai na petiscaria. No extremo norte da concelhia aconselha-se a , um pequeno café que serve pratos regionais e onde as sopas - a de grão e a de cação - são a razão principal para se entrar.

Já as adegas - que, sejamos honestos, é o que realmente distingue o município -, o ideal é escolher Cuba ou Vila Alva, porque é lá que elas se concentram. A Casa de Monte Pedral, na Cuba, faz um cinquenta-cinquenta: ora é adega, ora é restaurante, e tem no feijão com cardo (ou carrasquinhas, como se preferir chamar) a figura de proa. E também na Cuba há uma bela casa típica alentejana que alberga a Adega da Lua onde o vinho é rei. Passando para Vila Alva, começo por recomendar que o leitor fique atento ao calendário e ao horário de abertura de cada adega, se for preciso ligue antes para confirmar se há gente para o servir, reforçando que a melhor maneira de as apanharmos todas de porta escancarada é nas festas das provas de vinho novo, em Novembro - nesse sentido, é famosa a Adega do Mestre Daniel por se ter tornado sede do projecto XXVI Talhas, bem como a Adega do Guel e a Adega de Panóias.

Onde dormir

Em primeiro lugar da lista de recomendações está a doce Casa do Alto da Eira, na aldeia de Albergaria dos Fusos, bem perto da recente praia fluvial. É uma tradicional casa alentejana que mistura xisto e tijolo com uma bela piscina harmonizada com a envolvente.

Entre Vila Ruiva e a sua famosa ponte encontramos o Turismo Rural Pedremoura, uma casa de campo cercada de vinhas e de sobreiros que vê nas bicicletas que empresta a melhor forma de pôr os hóspedes a tomar o pulso à terra alentejana.

A pequena mas arranjada Vila Girassol, em Vila Alva, garante bom leito a quem queira fazer um rally de adegas e dos seus vinhos de ânfora. Fica dentro dos limites da aldeia e serve de seguro aos exageros do tinto ou do branco.

Se a intenção for estar sediado na própria Cuba, então o melhor que há a fazer é fechar uma reserva no Cuba Real, um solar oitocentista reaproveitado para o turismo, munido com a maioria dos serviços mais requisitados pelo público.

Para conhecer mais promoções para dormidas na Cuba, ver em baixo.

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=38.25976​ ; lon=-7.94604