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Conhecido enquanto Cante Alentejano, ou pelo mais sintético Cante, está para o Alentejo como o fado para Lisboa, ou a chula para o Douro Litoral, ou o corridinho para o Algarve. O Cante, quando bem cantado, é um encanto. Mas não é fácil fazê-lo bem.

À capela

É tão próprio destas províncias sulistas portuguesas (mais ainda do Baixo Alentejo do que do Alto Alentejo), que rapidamente damos conta quando é algum outro português, um que não alentejano, a cantá-lo. Isto porque, além de ser necessário ter aquele sotaque brando, que vinca o gerúndio e prolonga as expressões vagarosamente, é ainda mais fundamental viver naquele paraíso seco, naquela imensidão plana, decorada com os sobreiros dos montados e com as anchas oliveiras mais velhas que a história. 

Só assim se pode perceber a voz do Cante, porque no Cante a voz é o instrumento absoluto. Larguem-se guitarras e baixos e baterias das canções rock. Larguem-se produções milimétricas e batidas electrónicas das canções pop. Larguem-se até cavaquinhos e acordeões e bombos e gaitas das canções folk. O Cante Alentejano são cordas vocais e nada mais. É um reduzir da música aos seus ossos, e isso é o mais genuíno a que qualquer alma melómana quer chegar.

Faça-se a experiência de ouvir esta onda de som polifónica no sítio certo. Não em festivais de folclore. Não em concertos sóbrios no CCB ou na Casa da Música. Não numa armadilha turística na Baixa da capital. Para se ouvir bom Cante, é preciso ir à procura dele e não esperar que um evento comercial o traga até nós.

Uma hipótese é aproveitar o fim da época natalícia e ver como as Janeiras do Alentejo, cantadas com esta gravidade, têm uma transcendência que não vemos em nenhum outro ponto do país. Outra, menos dependente de coincidências de calendário, implica o aprochego a uma adega caiada, perdida em Mourão ou na Cuba ou em Serpa. Sentem-se, e esperem. Peçam vinho tinto em copinho baixo – alentejano, claro está, com peso no álcool, para carregar o sentimento. Quando a hora bate no final de tarde, se tudo correr bem, eles entregam aquelas vozes doridas a quem os vê.

Características do Cante

Há uma pequena injustiça a ser desmontada aqui. A presença de grupos corais femininos, ao contrário do que alguns acreditam, não é uma modernice. A mulher, tal como o homem, está lá desde a sua hora zero, e se as mulheres foram afastadas desta expressão máxima alentejana, isso aconteceu pela transferência do Cante dos campos agrícolas para as tabernas, estas sim com nítida maioria masculina.

Haverá muitas características que distinguem o Cante de outros cantos polifónicos, alguns ao nível do ritual – desde os trajes de trabalho, ao agarrar de braços entre os que o cantam, às letras que variam entre temas universais como o amor e outros mais terrenos como a lavoura. Mas é num segundo campo, o técnico, no sentido musical da coisa, que vamos separar águas. Há duas singularidades sonoras que lhe atribuímos. A primeira é a estrutura que tem, habitualmente composta por um ponto (o primeiro solista), o alto (um segundo solista que se sobrepõe ao ponto), e por fim o coro ou as segundas vozes (que entra para completar os versos iniciados pelos dois primeiros). A segunda é aquele oscilar quase religioso da voz, onde em cada sílaba são encaixadas uma mão cheia de notas, fazendo de cada palavra uma canção por si só.

Reforce-se também que o Cante se divide em uns quantos subprodutos. Ouça-se o da Cuba, por exemplo, ou o de qualquer outro concelho das terras do barro e percebemos que, nesses casos, o tormento na voz e o prolongamento aflitivo das sílabas excede o que é normal noutros lugares alentejanos. Mais para norte, para cima da Falha da Vidigueira, o cantar é ligeiramente mais animado, nunca comprometendo a generalizada melancolia telúrica que o define.

De onde veio tudo isto, não se sabe. O Cante poderá ter bisavós árabes, ou já portugueses. Ou poderá ser apenas um neto perdido dos salmos judaicos que deram mais tarde origem ao mais católico Canto Gregoriano. Pouco relevante. Importa que hoje está vivo como se calhar nunca esteve. A UNESCO deu-lhe o seu selo em 2014. Que com isto as novas gerações alentejanas não parem de o cantar.