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O Diabo é uma das figuras mais importantes do corpus de lendas da tradição popular portuguesa. E nem está limitado às lendas. Marca também presença em outros traços etnográficos do povo português como crenças, provérbios e ditados. É inclusive uma das figuras centrais em algumas festividades tradicionais, como é caso da Festa da Cabra e do Canhoto, ou da quarta-feira de cinzas, tanto em Vinhais como em Bragança. Isto sem falar nas mais diversas queimas do “canhoto” em diversas festividades espalhadas pelo país, entre outras representações. Efectivamente, até mesmo em festividades onde não há uma representação explícita do diabo, conseguimos compreender a sua influência. É o caso dos chocalheiros e caretos, os quais têm um simbolismo também diabólico.

A sua recorrência no imaginário popular é tal que outras figuras coabitantes do mesmo demonstram ou uma clara derivação do diabo ou uma associação diabólica. Assim é o caso da dama pé de cabra e das bruxas, respectivamente. No entanto, não se pense que quando falamos do diabo no folclore popular este nos remete para uma entidade perfeitamente correspondente à figura mitológica de Lúcifer, o anjo caído por ter desafiado Deus e que se tornou o diabólico regente do Inferno e a origem de todos os males na terra.

Uma presença familiar

Um imaginário distanciado dos meios populares poderá imediatamente ter como referência o senhor dos domínios infernais representados nas pinturas de Hieronymus Bosch e no épico Inferno de Dante. Ou ainda o anti-herói do Paraíso Perdido de Milton. O diabo das tradições populares está no entanto bastante distante desta entidade inalcançável que habita a dimensão mítica do Inferno. O diabo popular é uma entidade familiar, que se insere no quotidiano dos meios rurais. É uma figura que pode espreitar em cada monte, em cada esquina e em cada encruzilhada, e que facilmente convive com o povo. Funciona como uma espécie de espírito que tem um papel particular a desempenhar na vida das vilas e aldeias, mesmo que este seja por vezes manhoso.

Por outras palavras, apesar de manter certas conotações negativas, este diabo não é necessariamente o grande senhor do mal que quer arrastar almas inocentes para o inferno de forma a submetê-las aos tormentos infernais. Na realidade, o diabo raramente é descrito com tal dramatismo ou negativismo assoberbado.

Nas crenças e lendas do imaginário popular português o diabo é uma figura familiar que se imiscui no dia-a-dia das populações e que convive com o povo, podendo marcar a sua presença com frequência e nos mais diversos contextos.

O trapaceiro com vários nomes

No folclore popular o diabo toma vários nomes nos ditos, lendas e provérbios do povo. Pode ser chamado de manfarrico, tinhoso, chifrudo, belzebu, “inimigo”, canhoto, entre muitos outros nomes. Mas não é apenas nos nomes que o diabo é diverso. Nas suas aparições apresenta também várias facetas e toma várias formas, sendo uma das suas características mais recorrentes a natureza trapaceira, o que nos pode remeter para reminiscências de um Loki da mitologia escandinava ou um Bricriu da celta.

Este diabo trapaceiro e brincalhão prega partidas às pessoas disfarçando-se de bode. Esta é a sua forma predilecta, mas também se disfarça de outros animais, sempre com pêlo preto. Devido a esse motivo é frequente nos meios rurais do interior uma pessoa desconfiar quando vê um bode negro ou um cão negro ou ainda uma galinha preta, pois qualquer um destes pode ser o diabo.

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O bode diabólico

É na sua encarnação como um bode negro que o diabo se apresenta em muitas lendas sobre as suas trapaças. De facto, uma das suas partidas preferidas é mostrar-se como um bode perdido que por algum motivo não anda. É então carregado por um pastor ou transeunte incauto que se depara com o bode. À medida que a pessoa o carrega sente o peso do bode a aumentar. Finalmente acaba por o largar e é surpreendido pelo bode a falar-lhe com um agradecimento gozão. Acabou de transportar o diabo às costas.

Esta faceta de gozão é também recorrente em relatos do diabo, disfarçado novamente de bode negro, a abordar pessoas enquanto exibe o “sorrir” característico de bodes e cabras. Nestes casos, normalmente o diabo questiona se algum parente dessas pessoas, como um pai ou uma mãe, também se ri da mesma forma. Uma piada no mínimo insólita, mas vá-se lá perceber o manfarrico.

Nem sempre o diabo se fica a rir, no entanto. Perante tais aparições por vezes a vítima da sua travessura responde com uma frase agressiva como “Arrebenta diabo maligno!”. Mas isto não é o suficiente, é também necessário evocar o nome de Deus, Jesus, Nossa Senhora ou algum santo, ou fazer o sinal da cruz. Perante tal afronta, o diabo fica completamente descontrolado, e acaba por rebentar e desaparecer, ficando apenas um intenso cheiro a enxofre no ar.

O senhor das bruxas

É ainda na forma caprina que o diabo é frequentemente associado às bruxas. É o bode que lhes suspira ao ouvido e as seduz para as artes da bruxaria. Neste contexto é o convidado de honra das reuniões das bruxas (o Sabbat). É nestas assembleias que as bruxas prestam a sua vassalagem ao diabo, através do acto bizarro de beijar o traseiro do bode.

Algumas ilustrações desta encarnação do diabo no imaginário popular podem ser observadas na obra do pintor espanhol Francisco de Goya. Tanto El Aquelarre (1797-98), como El Gran Cabrón (1819-23) mostram uma assembleia de bruxas presidida pelo diabo. Este é representado por um bode negro nas duas peças de arte. Apesar de Goya ser espanhol, neste campo, como em muitos, o nosso imaginário popular partilha aspectos em comum. Ambas as pinturas são uma representação perfeita da imagem paradigmática do diabo no folclore tradicional português.

Um ser de várias facetas

No entanto, a sua forma como bode, a sua personalidade trapaceira ou o seu papel como senhor das bruxas estão longe de serem as únicas facetas que o Diabo demonstra no imaginário popular. Imagine-se que pode até se transformar num remoinho! Mas para além disso também toma a forma estereotipada que lhe é frequentemente atribuída. Ou seja, a de uma figura humanóide avermelhada com cornos/chifres e carregando um tridente.

Com muita frequência no entanto, apresenta contornos mais subtis e misteriosos. É comum encarnar um homem encapuçado com vestes negras ou que faz a sua aparição num contexto pouco iluminado. Nesta forma o diabo revela-se quando se verifica que tem pés de cabra ou chifres na testa. Estas características são detectadas em geral graças a alguma luminosidade fugaz, como faíscas provocadas pelo bater dos cascos do diabo no chão ou pelas suas pegadas.

Tanto nestas formas alternativas como na de bode e outros animais, o Diabo não é apenas um trapaceiro brincalhão. Pode também ser um negociador, assim como alguém virado para apostas. Surpreendentemente, pode até mesmo ter o papel benéfico de conselheiro ou mesmo justiceiro.

Pintura do Aquelarre

El Aquelarre

A busca por almas

Apesar deste diabo não se assemelhar ao Mefistófeles polido da versão do Fausto popularizada por Goethe, também gosta de contratos. Ou seja, neste caso mantém o seu estereótipo enquanto negociador que obtém almas de ingénuos mortais em troca de algum favor. Em diversas lendas propõe-se a providenciar fortuna, sucesso ou simplesmente a possibilidade de fuga de algum apuro em troca da alma. Mas nem sempre consegue o que pretende, muitas vezes o seu contrato é rompido pela acção de algum santo ou alguma intervenção associada ao Deus cristão.

Várias lendas sobre a venda da alma de um(a) protagonista ao diabo são populares e têm os mais diversos contextos. Para exemplificar podemos fazer referência à lenda do ferreiro e do diabo. Nesta lenda o ferreiro vende a alma ao diabo em troca de sucesso e fortuna no seu ofício. Arrepende-se no entanto ao compreender que está condenado. Entretanto uma figura santa, que consoante a variante da lenda pode ser um santo ou a própria Nossa Senhora, visita a loja do ferreiro. Este oferece-lhe água e comida, e oferece-se para reparar as ferraduras do cavalo ou burra que transportam a visita.

Em troca a figura santa abençoa o banco no qual foi assistida pelo ferreiro, de forma a não permitir que quem lá se sente se possa levantar a não ser que o ferreiro bata três vezes no chão com um bordão ou cajado. Ora quando o diabo visita o ferreiro este pede-lhe para aguardar no dito banco, do qual o diabo se vê impedido de se levantar. Consoante a versão, ou este abdica da alma do ferreiro nesse momento, ou apenas finge fazê-lo, e regressa para se vingar, trazendo uma hoste de demónios. Neste último caso o ferreiro consegue em geral fechar a hoste de diabretes na sua forja e eliminá-los.

Mestre de apostas

Uma característica interessante do diabo da tradição popular é a sua apetência por apostas. Fazendo jus ao dito popular do povo que afirma que o diabo está sempre à escuta, qualquer aposta envolvendo o tinhoso tem a tendência a vir a ser cobrada. A formulação varia mas tem em comum alguma gabarolice de uma pessoa do povo feita da boca para fora. Normalmente diz que “Eu até o diabo vencia” seguido de algum jogo, desporto ou actividade, que pode ir do cantar, a um jogo de sueca ou até uma corrida, entre outras. Pior, por vezes tal gabarolice imprudente vem acompanhada de horas “Eu até com o diabo fazia x à meia noite”.

Para surpresa da pobre alma que se atreveu a tal aposta, o diabo acaba por realmente aparecer em alguma circunstância. Normalmente respeita as horas, caso as existam, da aposta proferida pela vítima. Aparece no entanto em algum local mais isolado onde apenas se encontra com o desafiante, seja uma encruzilhada ou a meio de um caminho entre aldeias na calada da noite. A sua aparição em geral nestes casos é a versão de homem obscuro envolto em vestes escuras. Pode no entanto ser qualquer uma das outras também.

Perante a aparição do diabo, o temor toma conta do gabarolas, que agora já não canta tanto de galo e teme pela sua alma. Na maior parte dos casos, no entanto, consegue encontrar uma forma de trapacear o diabo, que passa por exemplo por invocar ou cantar passagens bíblicas ou canções de igreja, fazer o sinal da cruz ou qualquer outra referência semelhante. Perante palavras relacionadas com Deus ou Jesus e o sinal da cruz, o diabo fica desalvorado e acaba por rebentar, deixando no ar um cheiro a…, adivinharam, enxofre. E o gabarolas aprende que com o diabo não se aposta.

Um justo conselheiro

Curiosamente, apesar de ser em geral uma figura trapaceira ou que emana algum negativismo, o diabo também é retratado por vezes de forma benéfica. Em algumas lendas aparece disfarçado a aconselhar alguém a não cometer determinada acção, e a avisar das consequências. Mas desta vez não são trapaças, são mesmo bons conselhos. Exemplos comuns são o aviso para um homem não se meter com determinada mulher, não procurar fortuna através de algum esquema duvidoso, não atraiçoar, ou não ir a algum local específico, entre muitos outros exemplos. Muitas vezes é ignorado e lá aparece então a dizer “eu bem te avisei!”.

De forma semelhante, o diabo muitas vezes age de forma justa, principalmente para quem também com ele foi justo e digno. Em muitas histórias coloca-se lado a lado com um santo ou padre, e sendo tratado de igual forma a estes por alguma pessoa mais tarde retribui à mesma de forma equivalente, com o dinheiro ou outra oferenda de que foi alvo, quando tal pessoa necessitar. Chega mesmo a defender a pessoa perante a justiça (como um “advogado do diabo”, embora não seja esta a origem da expressão), caso a mesma o tenha defendido em alguma circunstância prévia.

O engenheiro que molda a paisagem

As lendas e ditos sobre o diabo são também algo influente sobre as características da paisagem dos meios rurais onde o imaginário popular ainda perdura. Elevações e montes que se destacam à vista, ou as formas sinuosas dos cursos de alguns rios, covas e grutas, têm muitas vezes uma origem atribuída a alguma acção do diabo, ou até são resquícios do próprio! Ou seja alguns montes, principalmente se forem dois lado a lado são interpretados como os cornos do diabo que ficou preso ao levantar-se do inferno, como no exemplo dos Cornos das Alturas, em Trás-Os-Montes, algumas curvas de rios são vistas como “cotoveladas” do diabo, ou algumas covas e grutas como locais de entrada para o inferno.

Na toponímia, o número de locais com nomes associados a alguma passagem para o inferno são bastante comuns, dando testemunho ao fenómeno de lendas associadas a algum local obscuro onde “se vê frequentemente o diabo a entrar e a sair” como é o caso no Castelo do Mau Vizinho, também em Trás-Os-Montes. Estas lendas fazem perdurar na atmosfera do mundo rural a ideia de que o diabo está presente não apenas na imaginação mas que está ao redor e à espreita em cada canto, com as suas marcas visíveis na paisagem.

Isto leva-nos a mais uma faceta do diabo, e uma das mais curiosas: a de engenheiro de pontes. Há dezenas de exemplos de pontes principalmente a Norte do país cuja origem é atribuída ao diabo, sendo algumas icónicas como é o caso da Ponte da Misarela. Normalmente as lendas contam que o diabo construiu as pontes de forma a apoiar alguém que necessitava de passagem urgente, em troca da sua alma claro está. Quando o arrependimento bate à porta da pessoa, recorre muitas vezes a algum membro do clero ou um santo para salvar a alma, que se dirige ao local para atrair o diabo e aí esconjura a ponte declamando ditos cristãos ou fazendo uso de água benta. O diabo afastado (deixando apenas o cheiro a enxofre claro está), fica a ponte como marca da sua obra. Muitas destas pontes têm uma origem romana ou medieval, e são uma demonstração de como o povo, que em tempos idos não tinha o acesso à escolaridade e informação para saber melhor, atribuía aos elementos em seu redor origens baseadas na sua mitologia popular.

Origens do diabo do imaginário popular

Claro está, falar das origens do diabo parece redundante, pois o que vem à mente imediatamente é a sua origem na tradição cristã como o grande antagonista de Deus. No entanto as coisas são possivelmente mais complexas no que toca ao diabo do folclore tradicional. É sabido que o cristianismo necessitou de algumas estratégias de sincronização e de abordagem às religiões pré-cristãs que dominavam na Europa em tempos prévios ao seu advento. Em alguns casos, a determinadas divindades e figuras pagãs foram atribuídas características negativas de forma a…, bom e o termo é mesmo o mais adequado, “diabolizá-las”.

Não é apenas coincidência que o diabo seja muitas vezes representado como um bode ou como uma figura com chifres e pés de cabra, isto remete-nos para figuras do paganismo greco-romano como faunos, sátiros ou o deus Pã. O próprio deus Baco/Dionísio, deus do vinho, é frequentemente representado de forma semelhante. Deuses cornudos são efectivamente comuns nas religiões pagãs, sendo também o caso de Cernunnos, na religião celta, este com uma variante de hastes de veado ao invés de cornos de bode. A figura do diabo com tais características é então uma forma de denegrir estas antigas divindades pagãs, associando-as ao mal.

O diabo da tradição popular, no entanto, trai uma parte das suas origens nas religiões pagãs com algumas das suas características, que demonstram reminiscências de tal paganismo. O facto de ser uma espécie de entidade que parece estar sempre em convivência com o homem, ao redor deste, metamorfoseando-se em animais, parece evocar antigas crenças pagãs como algumas atribuídas aos celtas, as quais viam as divindades como uma espécie de espíritos que habitam os lugares, e que podem fornecer conselho e justiça, assim como podem levar ao engano.

Claro está, hoje em dia, a figura do diabo está inequivocamente associada ao senhor dos infernos, ao mal e ao engano. No entanto, no imaginário tradicional, o diabo tem muito mais que se diga.

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