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Dia de São Martinho

by | 29 Out, 2016 | Festas, Novembro, Tradições

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No dia 11 de Novembro, tomou-se o hábito de comermos castanhas acompanhadas por água-pé ou jeropiga. Na rua, chamaram à ocasião o Dia de São Martinho ou, muito simplesmente, o Dia do Magusto. Tudo se explica, e estamos cá para isso.

O Dia de São Martinho é uma festa de castanhas e jeropigas e água-pé. E lume, sempre o lume, um magusto de todos.

A tradição no dia de São Martinho

O ditado é imperativo: no dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho. Parece haver, assim, uma ligação estreita entre esta data e os ciclos da terra, numa altura de fecho das colheitas – e do término da vindima. Desta forma, acaba-se o ano agrícola aproveitando as provisões que a natureza nos entregou.

Bebe-se vinho novo do ano transacto, bem como a mais inebriante jeropiga. Também a água-pé, tida como o vinho dos pobres, vem à calha. Esta é de fácil preparação, basta juntar água aos resíduos bagaceiros do vinho que vai sendo feito. Independentemente da escolha da bebida, a comida é que não varia grande coisa: castanhas, sempre as castanhas, e de preferência a muito saborosa qualidade Longal. No limite, há quem arrisque sardinhas, e arrisca bem porque é quando estão au point, depois de um Verão inteiro a acumular gorduras.

Mas não é só disso que vive este calendário de dupla capicua (dia 11, do mês 11). A fogueira é também frequente, muitas vezes montada a nível comunitário – é o magusto, um fogo de todos, onde se assam as castanhas e se aquecem as almas. Alguma etnografia atribui este ritual a um gesto típico do Dia de Todos os Santos, o Samhain pagão, que encerrava a fase diurna do hemisfério norte, dando-se início à fase escura.

De facto, a colheita da castanha dá-se pelo mês de Outubro. E nesses termos os magustos começavam por aí, prolongando-se até esse estranho fenómeno meteorológico que é o Verão de São Martinho.

Todos os dias que vão do final de Outubro até a meio do mês de Novembro parecem corresponder a um período de transição. Uma mudança para o lado lunar, quando a noite começa definitivamente a retirar horas ao dia, e cujo culto à morte da natureza hoje se pode verificar (basta ver a quem dedicamos o Dia de Todos os Santos, ou mesmo os estranhos rituais do mais comercial Halloween). Seria assim esta época do ano uma celebração do fim dos trabalhos de campo, a festa prévia ao recolher a casa, antes do Inverno chegar.

A Lenda de São Martinho e o seu Significado

A Lenda de São Martinho é bastante simples. A sua explicação, contudo, poderá ter diferentes interpretações.

Conta-se que Martinho, um homem que cresceu pagão e se converteu ao cristianismo, passeava no seu cavalo, num dia particularmente cinzento e chuvoso. A meio do caminho, encontrou um pedinte, praticamente sem roupa, a sofrer com o frio. Solidário, pegou na espada que carregava à cintura e cortou parte da sua capa para entregar ao mendigo e seguiu viagem. Mais tarde, por coincidência, tornou a dar com novo homem pobre a tremer com o tempo que se fazia sentir. Voltou a pegar na sua capa e, rasgando o que lhe sobrava, entregou-a. Ficou assim São Martinho com a parte superior do corpo desnuda, mas ainda assim voltou a dar passo ao seu cavalo. Mas a recompensa não tardou, e do nada, de um quase dia de Inverno, veio para ficar um quente e atípico dia de Verão. Nessa noite, Jesus apareceu nos sonhos de Martinho, vestindo o manto que antes envergava, dizendo que ele o tinha protegido num dia gélido, sem nada lhe pedir em troca.

Sabemos que a primeira parte da história contada é verdade. São Martinho, apesar de oriundo de uma família pagã, dedicou boa parte da sua vida a apregoar o cristianismo. Nem sempre usando métodos pacifistas – na Gália, muitos foram os templos dedicados aos antigos Deuses que vieram abaixo por sua vontade. Já todo o enredo à volta dos mendigos levará a outras interpretações.

Por um lado, há qualquer coisa de iniciático neste abdicar da capa. A recusa à matéria é algo que percorre muitos ritos de emancipação espiritual. Os Templários, por exemplo, faziam disso o seu modelo de vida – e já aqui demos o exemplo da muito templária celebração da povoação de Cem Soldos, a Matança dos Judeus. O facto de, depois de São Martinho se desfazer da capa, aparecer no céu um sol radiante, parece dar a entender que este desapego ao que é material encontra o próprio a ver a luz, representada pelo sol.

Por outro, poderemos ver em São Martinho uma correspondência com o Deus Marte. Bate certo quando é de conhecimento público que São Martinho começou, mesmo que contrariado, por ser um soldado romano, posição essa que é evidenciada na lenda pela presença da espada, e que Marte, Deus Romano, é o Deus da Guerra, venerado pelo exército romano. Vem a calhar porque Marte era também Deus da Agricultura, protector dos campos, conectando-o a este fim de ciclo natural. Há, aliás, uma outra lenda que nos diz que o corpo de São Martinho, quando morreu, teve flores a crescer no chão à sua passagem, isto apesar de estarmos em Novembro – outro elo que liga Marte e Martinho, seguindo os seus atributos de Deidades ou Santidades agrícolas.

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São Martinho a oferecer a sua capa a um pobre

Representação da Lenda de São Martinho

Os magustos em Portugal

Por todo o país, do Algarve ao Minho, embora com maior incidência no centro-norte e norte (onde há mais castanheiros), celebra-se o dia de São Martinho. Poderá ter outros nomes, já aqui enunciados: o Verão de São Martinho, o Magusto, a Festa das Castanhas, e por aí fora. No final, a razão para o fazermos é sempre a mesma.

Em Monchique e em Pocinho, por exemplo, rapazes com chocalhos de gado local passeavam-se pela aldeia – mais uma vez a ideia de transgressão, de passagem de nível.

Em Vila do Conde, juntam-se às castanhas a broa, tão típica do norte português.

Nas serras do xisto a coisa também se faz: Pedrógão Grande e Cerdeira, em datas distintas, são aldeolas que não se escapam às tradições da época. Lousã, a vila, junta mel serrano à festa da castanha. Castelejo, já na Serra do Açor, é recorrente a abertura de portas à freguesia, as salas e cozinhas de cada casa ficam de todos os que quiserem entrar.

Junto a Lisboa, Sintra não se desmarca, e vive-o com o inconfundível Vinho de Colares. Na Golegã, mais a oriente, calha em cima da Feira do Cavalo.

Mas a sul temos Olhão e Portimão, sempre com festas quando o calendário aqui chega.

E há muito mais. No que toca aos magustos de São Martinho, a distância nunca será desculpa para não se ir aquecer nos anacrónicos dias de sol que se fazem sentir no início de Novembro.

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