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Do Baixo Alentejo para o Algarve, um amontoado de colinas surge no caminho. São as Serras, como por lá se designam. O conjunto que maior terra cobre leva o nome de Serra do Caldeirão, modesto em altitude mas de manto vastíssimo.

A terra e o clima

A Serra do Caldeirão engloba uma área imensa, da Ribeira de Odelouca, a norte da cidade de Silves, até ao fronteiriço Algarve nordestino, colado ao Guadiana. Para norte, a limitar, fica o sopé alentejano, dominado por terrenos barrentos, e a sul o chamado Barrocal, zona de transição da montanha para a praia.

Acumula vários pontos acima dos 500 metros, mas nunca vai muito para lá disso. Goza, por assim dizer, de uma certa homogeneidade acidentada, passe o paradoxo, já que a sua dimensão contrapõe a sua parca altitude. Se a virmos de um dos seus pontos máximos – Pelados é o cume mais alto, com 589 metros, mas há outros como o famoso Mú, ou Alcaria do Cume – conseguimos visualizar essa imensidão perturbada por pequenos cerros arredondados pelo vento e pela água.

É, na sua maioria, xistosa e estéril. Um chão da cor do barro, indesejado, e daí a pobre demografia que detém – a vida por cá foi ruinosa para uns, agreste para outros. Daí que sempre tenhamos separado as povoações das serra algarvia às povoações da costa algarvia. São, de facto, dois povos distintos, atribuindo-se o nome de serrenhos aos primeiros, e algarvios aos segundos.

Contudo, é graças às cordilheiras do sul, não só a do Caldeirão mas também a de Monchique e a de Espinhaço de Cão, que o litoral meridional do Algarve é tão apetecido por quem procura turismo balnear – portugueses ou estrangeiros. Funcionam como biombos aos ventos frios nortenhos, mantendo a província mais a sul de Portugal continental com temperaturas que a aproximam mais de um norte de África do que do resto do país.

Se no Algarve há temperaturas altas no Verão e moderadas no Inverno, bem se pode agradecer ao Caldeirão e aos seus vizinhos ocidentais. Mesmo as chuvas, que nas Serras são modestas, tornam-se uma raridade à medida que caminhamos para sul e para leste. Junto à fronteira com Espanha, por exemplo, a seca impõe-se.

A fauna e a flora do Caldeirão

Em matéria de fauna, a Serra do Caldeirão já foi mais rica do que é agora. O lobo ibérico foi-se, e o lince escasseia. A abetarda também raramente a vemos. Contudo, há espécies que daqui não arredaram pé: andorinhas, cotovias, toutinegras-carrasqueiras, pica-paus, águias-de-bonelli, açores, melros-azuis, corvos, papa-figos, guarda-rios, mochos, rouxinóis, nos domínios da avifauna. Nos mamíferos a diversidade é menor, mas o coelho, a gineta, a raposa-vermelha, ou o javali são facilmente observados se houver paciência. De forma tímida, por vezes os veados dão de si.

No que toca à flora, entramos nas típicas espécies sulistas. Sobreiros e azinheiras e medronheiros e oliveiras, como não podia deixar de ser, abundam. Pinheiros e eucaliptos chegaram depois, com a política de florestação para fornecimento de madeira e papel. As amendoeiras, as figueiras-da-índia e as larajeiras entregam ao país o que de melhor o Algarve tem. Os estevais são frequentes, bem como os campos de urze, de rosmaninho, de tojo.

Recomenda-se uma vagarosa caminhada pela bela Via Algarviana para apreciar tudo isto – uma longa rota de 300 quilómetros que, passando por toda a província, tem mais de metade do seu percurso a atravessar a Serra do Caldeirão.

De qualquer forma, não podemos deixar de falar nas florestas que, pelo fogo, ou por directa intervenção do homem, acabaram dizimadas – hoje boa parte do Caldeirão está desflorestada porque houve uma vontade de se aumentar a área dedicada à agricultura e à pecuária.

Os Serrenhos

Sabemos como, para o comum dos mortais, pensar no Algarve é sinónimo de areia e mar. Dificilmente a imagem de uma grande serra nos aparece na mente quando a palavra é expressa. No entanto, a Serra, ou seja, o conjunto de cordilheiras algarvias, ocupa um parcela da província consideravelmente maior do que o que classificamos como território balnear – a mediar um e outro temos, como já falámos, o Barrocal.

Paralelamente, o mesmo se passa nos habitantes do extremo sul português. Os Serrenhos – nome atribuído ao homem da serra algarvia – não se consideram propriamente pessoas do Algarve, nem mesmo pelos próprios, que não viam com bons olhos ser confundidos com as gentes do mar. Isto acontece por várias razões, mas podemos começar por dizer que, até há bem pouco tempo, era fácil encontrar um Serrenho que contava pelos dedos das mãos as vezes em que tinha pousado pé na praia. Da mesma forma, raramente um algarvio residente no litoral se deslocava às rústicas elevações que estavam nas suas costas, a menos que fosse pela necessidade de as atravessarem caso necessitassem de ir para norte.

São os Serrenhos que se dedicam ao cultivo de cereais como o trigo ou o centeio; à produção de amêndoas e à sua transformação em aguardente ou em licor; à criação tradicional de porco preto, num saber milenar ainda não eliminado, que tem como resultado maravilhosos enchidos como paiolas, presuntos, chouriços; à extracção da cortiça vinda dos montados de sobro; à passagem da tradição oral entre gerações, sabendo de cor muitas das lendas que ainda se contam sobre Moiras Encantadas e Janas, ou sobre o Homem do Chapéu de Ferro e a Velha da Égua Branca; à construção dos pontuais palheiros, bem como dos abandonados moinhos e fornos que vamos encontrando em isoladas aldeias; à prática da caça e ao acompanhamento dos gados; à promoção das várias festas e certames populares, com destaque para a Feira da Serra, em São Brás de Alportel; aos manjares típicos como as papas de milho ou o galo guisado – e já que estamos nisto, como não recomendar o extraordinário restaurante Tia Bia, em Barranco do Velho.

Os Serrenhos são, portanto, filhos da Serra, antes que filhos do mar. Sempre que o nosso destino apontar para terras algarvias, lembremo-nos de parar nos cerros desta gente. Não são só eles que agradecem. Nós também.