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Em Portugal, um Guarda-Rios pode ser uma profissão, um vinho, ou uma ave. Sem desfazer as virtudes da vigilância do primeiro, nem as noites bacantes originadas pelo segundo, as próximas linhas serão mesmo sobre o terceiro – um pequeno pássaro ribeirinho, com casa em todo o país continental, que deixa muita gente obcecada por o encontrar.

Guerreiro de água doce

Se muitas aves são distinguidas com substantivos alusivos aos seus atributos físicos, como a poupa ou a negrola, outros há cujo nome remete para o seu habitat ou para o seu comportamento, como é o caso do Guarda-Rios.

De facto, onde vemos água, sobretudo doce ou salobra, existe sempre a possibilidade de darmos com um exemplar. Olhemos para algumas das denominações populares que o Guarda-Rios tem: juiz-do-rio, passa-rios, pisco-ribeiro, espreita-marés, rei-do-mar, até mesmo kingfisher e martin-pêcheur  – o nome que britânicos e franceses lhe dão, respectivamente. Em todas elas retiramos um denominador comum, a água, que directa ou indirectamente lhe está associada. É perto da água que ele namora, que ele nidifica, que ele luta, que ele caça.

Se nos deslocarmos a lugares com correntes fluviais de pouca turbulência, como sejam albufeiras, pântanos, os baixos vales de ribeiras e rios, estuários, barragens, lagoas e lagos, até certo tipo de culturas hídricas como arrozais ou salinas, estaremos, com quase toda a certeza, junto de um Guarda-Rios. Entre estar perto de um e conseguir observá-lo vai, todavia, distância grande. Raramente ele se mostra quando guarda um rio.

Desta forma, tendo em conta a predilecção por águas serenas, é mais fácil ser visto no sul do país, onde há menos montanha, mormente nas zonas mais próximas do litoral, não descurando o interior. As planícies do Baixo Alentejo, em particular toda a região sob a alçada do Alqueva, tornam-se um dos seus habitats favoritos. Mas não só. Também no Parque Natural do Guadiana ou na albufeira de Montargil. Fora da paisagem alentejana é frequente nos estuários dos principais cursos fluviais portugueses – no Lima, no Ave, no Vouga, no Mondego, no Tejo, no Sado e no Mira. As grandes barragens de certas zonas serranas, desde que não a demasiada altitude, são igualmente propícias ao seu comportamento.

A espera do Guarda-Rios antes do ataque à presa

A paciente espera antes do ataque à água

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Um seta de mil cores disparada ao rio

E no entanto, em meu entender, de todos os nomes que lhe são atribuídos, nenhum é tão rigoroso como um outro – clarão-azul (ou ainda, raio-azul).

O Guarda-Rios, mais do que qualquer outra coisa, é uma manifestação da cor. A parte posterior do seu corpo, apesar de pequena, leva consigo um azul que se confunde com verde, e um verde que se confunde com azul, ambos resplandecentes, como se aquela irrequieta ave estivesse sempre acabada de ser engraxada. Na frente, é a vivacidade do laranja que se destaca.

Quando resolve saltar de um junco ou de um ramo de amieiro ou de salgueiro, é costume fazer um voo rasante à superfície da ribeira para depois enfiar o seu sobredimensionado bico bem dentro de água à procura de peixinhos que lhe sirvam a dieta. Nessa altura, com o sol a bater-lhe no dorso e no peito, olhar para ele é um espectáculo visual. Uma veloz seta azul-turquesa disparada a dezenas de quilómetros por hora mergulha e logo sai, em ricochete, com presa amparada de través entre as mandíbulas. Retorna ao ramo seco sobranceiro ao lago, onde aguardou pelo minuto certo para disparar o ataque, e engole a breve refeição de um trago, cuspindo um amasso de espinhas depois da digestão.

Não surpreende que tanta gente, depois de o mirar inadvertidamente por uma só vez que seja, viva o resto dos seus dias obcecada com a ideia de repetir o momento. Fotógrafos improvisam pequenas armações e aguardam, com paciência de santo, que ele ali poise em pose de caça, só para que aquele relâmpago multicolor lhes chegue à lente. Alguns adeptos do birdwatching levantam os seus binóculos na ânsia de captarem esse rasto de luz azul e verde e laranja, sendo o resultado, na maioria das vezes, nulo.

O Guarda-Rios assume-se, portanto, em Portugal como em toda a Europa, uma ave de contraste. Num continente em que a avifauna assume tons outonais e baços, revela-se impossível não elevar o Guarda-Rios à condição de pássaro singular. Nem parece ser de cá. Os vibrantes pigmentos lembram latitudes longínquas, sul americanas, em exemplos como o beija-flor, o gaturamo ou a saíra. Mesmo o seu comportamento é pouco habitual nos nossos ecossistemas – dotado de um distinto mau-feitio, é comum vê-lo em competição por território, em lutas aéreas que podem até ser de macho contra fêmea, hábito que só esmorece quando a época reprodutora começa, por volta de Abril ou Maio.

Guarda-Rios em momento de caça

A nova refeição do Guarda-Rios

Voo do Guarda-Rios

Uma flecha alada apontada à água

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