Póvoa de Varzim – o que fazer, onde comer, onde dormir

by | 6 Mai, 2024 | Douro Litoral, Províncias, Roteiros

Monumentos

Natureza

Povoações

Festas

Tradições

Lendas

Insólito

Roteiros

Não foi por acaso que José Hermano Saraiva, no saudoso Horizontes de Memória, começou por falar da Póvoa junto à estátua de Rui Anahory, obra de 1995 que condensa a vida poveira com o trabalho no mar (a pesca) e o trabalho na terra (a agricultura). Desse binómio já falarei. Mas para já quero fazer notar que o historiador português salienta um detalhe na escultura – a de um corpo atlético decepado que segura o que assumimos ser a proa de um barco. Hermano Saraiva defende que a inexistência da cabeça na escultura simboliza o mistério das gentes poveiras, que ainda hoje não sabemos bem de onde surgiram. Não sei se a intenção de Rui Anahory era realmente essa, e as várias pesquisas que fiz a esse respeito não me levaram a qualquer conclusão. Mas Hermano Saraiva tem razão quanto à enigmática origem do poveiro.

Com efeito, há quem veja nos homens da Póvoa de Varzim um elemento celta, como a Agustina escreveu sobre os pescadores das Caxinas (actualmente um bairro integrado no rival concelho de Vila do Conde, mas culturalmente mais afeito à Póvoa), descendentes directos dos castros que se encontravam nas colinas cercantes – pode o visitante conhecer um deles, com direito a núcleo interpretativo, na Cividade de Terroso, estando um outro quase totalmente coberto no mais alto terraço do concelho, o Monte de São Félix, este igualmente conhecido pelo Monumento ao Emigrante e pelos moinhos de vento transformados em alojamentos. Outros investigadores colocam-nos como filhos dos fenícios que povoaram o sudeste ibérico e que chegaram ao porto da Póvoa enquanto mercadores, mais ou menos o mesmo que aconteceu com os romanos que posteriormente propagaram a sua civilização neste território. E não é de todo de colocar de lado a hipótese nórdica, vikings que pilharam e, por vezes, colonizaram alguns pontos estratégicos da costa da Galiza e do Norte português, como aliás sugerem as Siglas Poveiras, um sistema de símbolos muito similar ao grafismo rúnico. Há uma quarta suposição, claro, que é a que afirma que o poveiro funde todas as teses acima faladas.

Sejam eles mais celtas, mais mediterrânicos, mais nórdicos, ou um melting pot de todos eles e de mais uns quantos que desconhecemos, o que sabemos é que de alguma forma um povo muito próprio e ciente de si se deslocou até estas margens atlânticas a poucos quilómetros do Porto. E sabemos que, na Idade Média e imediatamente a seguir, a pólis se viu empurrada por forais dos reis que mais forais deram (D. Dinis e D. Manuel I) e pelo megalómano empreendimento das Descobertas (aqui se treinaram capitães e marinheiros e se abriu espaço à construção naval). E sabemos que esta gente cresceu de uma economia marítima, como é prova o dito Castelo da Póvoa (ou Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição) que se levantou para protecção da barra. E sabemos que a Colmeia tanto foi ao mar buscar rendimento que em pouco tempo a Póvoa se tornou o grande centro de venda de peixe de toda a região Norte. E sabemos, enfim, que esta mesma plebe existiu indiferente às súbitas mudanças que transformaram a Póvoa num destino turístico a partir do século XIX, mas sobretudo no século XX, quando uma classe média e média alta, vinda do Porto e de Braga e de Guimarães, começou a povoar a praia no estio, dando origem a uma vila cosmopolita, cultural, erudita, por onde passaram quase todos os grandes nomes da literatura portuguesa (com o Eça à cabeça, que cá nasceu), e que resultou na criação de espaços de sociedade como a Avenida dos Banhos, o Casino, o Diana Bar, o Guarda-Sol, o Cine-Teatro Garrett, o Theatro, e outros entretanto encerrados, como o Café Alegria, o Café Aliança, o Café Chinês. A reboque dessa terra letrada e poética chegou, no ano 2000, o grande evento literário de nome Correntes d’Escritas, uma festa à arte da palavra que se realiza todos os anos, no mês de Fevereiro.

Siga-nos nas Redes Sociais

Coreto e fachadas dos prédios na Praça do Alada

Praça do Almada, o centro da Póvoa

Arcadas e azulejaria na Câmara Municipal da Póvoa

A bonita fachada de arcadas e azulejaria da Câmara Municipal

Certo é que as tradições da Póvoa de Varzim são, desde há muito, uma perdição para etnógrafos. A camaradagem e a honradez que se vivia na Colmeia, personificada no Cego do Maio, homem bravo reconhecido como o salvador de muitos colegas de profissão. A ameaça do mar como causa aglutinadora – dali, do oceano, vem vida e vem morte, como bem explicou José Milhazes, um homem da Póvoa, que relembrou os “gritos dilacerantes na casa de vizinhos” sempre que alguém caía no profundo para não voltar. A endogamia da comunidade piscatória, que durante séculos esteve fechada em si mesma, onde qualquer casamento ou namoro com gente de fora dos bairros da faina era tido como ofensa. As superstições e mitificações de um povo entregue às incertezas do Atlântico, que, segundo Santos Graça no seminal “O Poveiro“, narra “as coisas mais inverosímeis com a convicção de um crente”.

Assim se compreende a famosa resposta que pescadores da Póvoa deram a D. Luís I quando confrontados com a pergunta quanto à sua nacionalidade, se eram portugueses ou espanhóis – “nós não somos portugueses nem espanhóis, somos poveirinhos, pela Graça de Deus”, retorquiram. Estava fundado o reino da Póvoa, cuja fidalguia pertencia aos lanchões.

Uma excelente maneira de testemunhar a singularidade poveira é com uma perambulação pelo Museu Municipal, situado num solar de dois pisos, com salas dedicadas à pesca, à cultura castreja, ao quotidiano, ao artesanato. Porque também há isso – o artesanato, não só o das Camisolas Poveiras, viradas artigo de moda internacional e à venda em algumas lojas (atenção às cópias baratas), mas também o dos Tapetes de Beiriz, cuja produção é remetida para a nova fábrica situada em Beiriz, e até o dos popularuchos Tapetes de Trapo, hoje meio caídos em desuso.

Mas voltemos à estátua de Rui Anahory e aos dois labores lá esculpidos, o da pesca e o da agricultura. É, de facto, por aqui que conseguimos separar o município em dois. E a fronteira encontra-se ali pelo Cabo de Santo André, lugar onde a Colmeia piscatória ruma em Novembro para pedir ao santo que interceda pelo Resgatar das Almas, familiares seus que, depois de mortos, aguardam a entrada nos campos celestes. Do Cabo de Santo André para sul, temos a Póvoa da pesca e do turismo, ou seja, a Póvoa virada para o mar. Do Cabo de Santo André para norte damos com o outro lado, um concelho de costas viradas para o Atlântico, a trabalhar a terra com olhos postos no Porto, a quem vai fornecendo produtos hortícolas.

Ruela no bairro da Colmeia piscatória

Bairro Sul, onde a Colmeia piscatória se fechava em si mesma

Moinho e passadiço na Praia da Aguçadoura

Um passadiço corta as dunas da Praia da Aguçadoura

A pressão imobiliária vê-se de perto

Testemunhos da pressão imobiliária, na praia da Póvoa

Farol embutido na Igreja da Senhora da Lapa

Um farol embutido numa igreja, na Senhora da Lapa

Arcos no interior da Igreja de São Pedro de Rates

Os dois arcos da Igreja de São Pedro de Rates que deveriam ter figurado na portada

Esta faceta do município poveiro, focada na agricultura, tende a ser ignorada. Afinal, a pressão imobiliária está toda cá para baixo, para onde se concentram os banhistas que nos meses de Verão põem a cidade com cinco ou seis vezes mais gente. As praias setentrionais para lá de Aver-o-Mar, entre a Aguçadoura e a Estela, são mais desabrigadas, e por isso mais desertas – isso não impede que se consiga por lá passear, no belo areal da Aguçadoura e nos passadiços que do campo de futebol seguem até à fronteira com a concelhia de Esposende. Mas por detrás do cordão dunar das menos povoadas freguesias da costa poveira, uma mancha de estufas faz um trabalho para muitos invisível – o de guarnecer o Mercado Abastecedor do Porto. Era aqui que se praticava um estilo de agricultura único – os Campos Masseiras -, agora reduzido a um par de terrenos, um dos quais conheci através do proprietário que o trabalhava e que me concedeu o prazer de uma entrevista.

Daí até ao interior, porque o concelho da Póvoa dispõe de um braço que vai para lá da Serra de Rates, continua a lavoura – os campos são férteis, há que aproveitá-los. Rates, vila que adormece tanto peregrino do Caminho de Santiago, tem um belíssimo templo, a Igreja de São Pedro de Rates, com portais de intepretação dúbia, como se quer no estilo românico, e conta com uma fonte milagrosa também dedicada a São Pedro.

De todas as terras que integram o perímetro metropolitano do Porto, talvez seja a Póvoa a mais distinta, tal a sua idiossincrasia. Não encontra par, muito menos na contígua Vila do Conde, que, sendo terra de nobreza e alta burguesia, sempre olhou para a Póvoa como parente pobre. A Póvoa respondeu como costume, sem fazer caso, a continuar uma labuta milenar de extracção de riqueza do mar. Nem a pressão imobiliária que pôs uma parede de prédios à flor do Atlântico chegou para limpar um passado que tem tanto de tragédia como de bravura. Das três estâncias de veraneio portuenses – a da Foz, a de Espinho, e a da Póvoa -, é aqui, na costa poveira, que sobreviveu a alma antiga, mesmo conhecendo tudo o que mudou no século XX.

Onde comer

Estranho seria se na Póvoa não falássemos de peixe. Há pelo menos duas pequenas tabernas que não podem fugir da rota no que respeita às lides do pescado: a Casa Jaime, que serve refeições mas está melhor aproveitada para a petiscaria, com raia, patanisca, faneca, e outras frituras de mar; e o Chapeuzinho, que repete os acepipes da anterior mas acrescenta uma saborosa caldeirada.

Já o bacalhau, por exemplo, é muito bem tratado no Bodegão, um dos restaurantes mais conhecidos da cidade. Um outra casa do grupo Bodegão – na verdade, aquela que o começou – é o Nosso Café, menos pomposo mas de comida apreciável, onde as carnes se sobrepõem, nomeadamente a Francesinha. E falando de Francesinhas, como falhar a versão à moda da Póvoa, feita mais para se comer à mão do que com garfo e faca? Este escriba gosta de ir tomá-la aos balcões do Zé d’Amura, uma simpática cervejaria para almoços de conveniência.

Para pratos mais requintados, o Theatro, que concentra em si o serviço de restauração com bar e livraria e galeria, tem possivelmente a mais sofisticada mesa da Póvoa. Comparando, só mesmo o éLeBê (originalmente um negócio portuense que se estendeu até cá) que se encontra dentro do Castelo da Póvoa e que, como extra, tem a belíssima esplanada com vista para a marginal.

Mas uma viagem à Póvoa também tem de incluir as tradicionais Rabanadas, ditas à Poveira – é este doce bem diferente das outras rabanadas cozinhadas em pão de forma. Boa parte dos restaurantes e dos cafés poveiros serve-as, outros vendem-nas para fora. No meio de tanta oferta, guardo a minha preferência para as da Dajuri (de fora, pouco se daria por ela), bem fritas, a lembrar a bola de berlim. Menos comum é encontrarmos a velha Pescada à Poveira, que provavelmente caiu em procura com a rarefacção da comunidade piscatória.

Infelizmente, fora dos limites da cidade, a oferta diminui em quantidade e em qualidade. Conheço muito boa restauração a norte, mas já parte do concelho de Esposende, e, como tal, fora da presente selecção.

Vinho pronto a verter, na Casa Jaime, Póvoa de Varzim

Casa Jaime, taberna do tempo da outra senhora onde o vinho vem em malga

Caldo Verde no Chapéuzinho

A simplicidade à mesa, no Chapéuzinho

Peixe à antiga, no Bodegão

Dourada no ponto, no Bodegão

Mesas e quadros no Nosso Café, Póvoa de Varzim

O já histórico Nosso Café

A Francesinha à Poveira no Zé d'Amura

Francesinha à Poveira servida no Zé d’Amura

Livraria ao fundo, restaurante em baixo - assim é o Theatro da Póvoa

Livros, gastronomia, arte – não há como o Theatro falhar

Os vinhos como chamamento, no éLeBê

éLeBê – uma casa do Porto, agora também na Póvoa

Rabanada à Poveira com doce de ovo

A Rabanada da Dajuri, aqui coberta com doce de ovo

Onde dormir

A larguíssima maioria da hotelaria e dos alojamentos da Póvoa encontra-se, sem surpresas, junto à costa – e principalmente entre a Igreja de Nossa Senhora da Lapa e o Cabo de Santo André. É na Avenida dos Banhos e nas ruas traseiras paralelas à marginal que se concentram os prédios que, a partir do meio do século XX, começaram, pela manhã, a fazer sombra ao areal. Os proprietários dos apartamentos a cinco ou dez minutos a pé da praia costumam lá passar uma ou duas quinzenas por ano e alugar os restantes dias aos visitantes de Junho, Julho, e Agosto. Nesse sentido, escolha não falta, e ainda assim, na época alta, facilmente se vê tudo ocupado.

Como tal, para enumerar algumas das alternativas mais reputadas, temos o Graça Apartment de estilo moderno e muito bem situado na Mouzinho de Albuquerque, o Blue Sea Apartment a cair na espuma do oceano, o Lapa 84 junto do Bairro Sul (o típico bairro da Colmeia piscatória), e o Beach Front à beirinha do porto e do Casino. Mais para os lados de Aver-o-Mar, há as Casas do Pescador, que oferecem um pouco mais do que o simples apartamento.

Em alternativa, na hotelaria, não podemos passar por cima de uma das imagens de marca da Póvoa, até porque faz parelha com o Casino – o Grand Hotel, um edifício rosa, pioneiro entre outros no estilo Português Suave, que lembra muitos dos edifícios lisboetas das Avenidas Novas.

A norte do Cabo de Santo André também se faz praia, embora com uma nortada de maior protagonismo, não há que esconder. Na Aguçadoura, é justo dizê-lo, o casario não é propriamente bonito, mas tem a vantagem de estar quase todo a meia dúzia de passos da areia. Veja-se a casa Rua da Praia, por exemplo, toda renovada no interior, ou a casa Largo do Cruzeiro, com longa varanda sobranceira à praia. Mais para norte o vento começa a chicotear à séria e os alojamentos, em consequência, diminuem drasticamente.

Quarto no Graça Apartment

Graça Apartment, junto à Avenida Mouzinho de Albuquerque

Sala de estar no Blue Sea Apartment

Uma sala atlântica, no Blue Sea Apartment

Sala de estar no Lapa 84, na Póvoa de Lanhoso

Lapa 84, Sea Front House

Decoração do Beach Front, na Póvoa de Varzim

Bom gosto no Beach Front

Jacuzzi nas Casas do Pescador, Póvoa de Varzim

Um extra sempre a calhar, nas Casas do Pescador

Casino e Grand Hotel da Póvoa

O Grand Hotel da Póvoa faz parelha com o Casino

Fachada da casa Rua da Praia

A casa Rua da Praia fica a meia dúzia de passos da Praia da Aguçadoura

Varanda da casa Largo do Cruzeiro

Varanda da casa Largo do Cruzeiro, Praia da Aguçadoura

Promoções para dormidas na Póvoa de Varzim

Mapa dos lugares a visitar na Póvoa de Varzim

Siga-nos nas Redes Sociais