Monte de São Félix

by | 15 Abr, 2024 | Douro Litoral, Lugares, Natureza, Províncias, Serras e Vales

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Conhecendo toda a planície costeira da Póvoa, de chão raso e a olhar de igual para o mar, é estranho imaginar um monte sagrado no coração desta gente. Mas ele existe, no cocuruto da Serra de Rates, colina maior a que os pescadores trataram como Monte de São Félix, à qual se dedicam três romarias – uma em Maio, uma em Agosto, uma em Setembro.

O cerro sacro da Póvoa de Varzim

É sintomático que o Monte de São Félix guarde o respeito das duas mais relevantes comunidades da costa poveira – a da pesca, a sul, incluindo Caxinas, que já pertence a Vila do Conde; e a da lavoura, a norte do Cabo de Santo André, que se prolonga até Esposende.

Por um lado, o Monte de São Félix sempre foi visto como um marco geodésico dos homens do mar, espécie de monte-farol, iluminado durante a noite, que, entre outras referências, os orientava, e, por isso, gozou de uma antiga religiosidade junto da Colmeia piscatória. Por outro, o mesmo outeiro tornou-se sagrado para os agricultores da Aguçadoura, da Estela, de Navais, de Rates.

As duas romarias principais que lá se fazem são reveladoras de ambos os públicos. Em Maio, temos a concorrida romaria à Nossa Senhora da Saúde, com partida da Igreja Matriz da Póvoa e desfecho no santuário no sopé do Monte de São Félix – é, historicamente, uma peregrinação de pescadores, ultimamente alargada a todo o concelho. Em Setembro, manifesta-se a romaria de São Félix, que percorre a escadaria da encosta poente, do Santuário de Nossa Senhora da Saúde para a Capela de São Félix, no habitual paralelismo com a Via Sacra de Cristo – é, tipicamente, uma romagem de agricultores, que aliás coincide com as primeiras colheitas. Curioso fenómeno, em que a segunda romagem começa do sítio onde a primeira terminou. Podemos dizer que as duas procissões se complementam, tal como pescadores e agricultores se completam enquanto sectores basilares da economia poveira.

Para os mareantes da Póvoa, este São Félix é personagem lendária, um homem minhoto que, recolhido ao outeiro homónimo, observou uma luz ao longe que o levou até ao corpo de São Pedro de Rates – aquele que, de acordo com a tradição oral, foi nomeado por Santiago como primeiro bispo de Braga. Nesse lugar construiu uma igreja, a Igreja de São Pedro de Rates, há mais de cem anos considerada Monumento Nacional. De acordo com a crença local, este São Félix era pescador, sendo por isso objecto de enorme culto junto da Colmeia da Póvoa.

Para os lavradores, sendo possível a convergência com a crença da comunidade piscatória ao São Félix de Rates, podemos incluir outras alternativas, como uma eventual veneração a um outro São Félix, o São Félix de Girona, que por cá também recebeu boas doses de afeição em certos cabeços portugueses, como é o caso de Chelas, em Lisboa, nos primeiros anos da nacionalidade, ou mesmo São Félix de Cantalice que, apesar de pouco adoptado em território português, foi agricultor, e como tal é por vezes acolhido pelas gentes do campo.

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Moinho velho e moinho requalificado, no Monte de São Félix, Póvoa de Varzim

Um moinho velho e outro requalificado para hospedaria

Escadaria e jardins da Via Sacra, no Monte de São Félix

Mais um monte português onde se instalou a Via Sacra de Cristo

Oceano e Póvoa, as vistas para poente do Monte de São Félix

Vista do Monte de São Félix – ao fundo, os prédios da Póvoa de Varzim

No monte

O Monte de São Félix, admita-se, não é um colosso. Tem apenas um niquinho mais que 200 metros de altitude. Não fosse estarmos, daqui até ao oceano, numa zona de vasta planura, toda ela praticamente ao nível do mar, e passaria despercebido. Mas, como se diz, em terra de cegos, quem tem olho é rei. Assim está a presente colina, um desacompanhado degrau no concelho poveiro que, à falta de outros, se vê como rei das alturas. 

Para lá da fé, certo é que no topo do Monte de São Félix há vários pontos de visita: uns evidentes, como a capela; outros desaparecidos ou quase, como o castro que aqui se fixou e que, muito provavelmente, serviu como posto de vigia da Cividade de Terroso; e ainda alguns casos de um certo exotismo, como acontece com a discoteca de dono insuspeito.

Começando pelo mais óbvio, o miradouro a 360 graus, que para leste revela as costumeiras serranias do norte galaico, e para ocidente exibe o grande azul do Atlântico, antecedido pela mancha suburbana portuense e crescentemente avolumada ao longo do século XX. Olhando para sudoeste, uma série de construções em altura denunciam a Póvoa de Varzim. Para noroeste, os campos plantados e as estufas.

Monumento ao Emigrante, o principal miradouro do Monte de São Félix

Uma oferta de um emigrante para todos os emigrantes

Passando para a zona central do cerro, no miolo vemos então a Capela de São Félix, de construção relativamente recente, pela década de 1930, tendo ocupado o espaço de uma outra, mais antiga. Na verdade, o templo actual já goza de tamanho suficiente para questionarmos se não poderia passar a igreja. Se encontrarem a porta aberta, façam o favor de entrar, as bonitas talhas justificam-no.

Salta também à vista a quantidade de moinhos, hoje arredados da sua função principal, a moagem de cereais (sobretudo do milho) pela força do vento – o intenso e frio sopro do norte a que comummente chamamos Nortada. Uns estão abandonados, outros encontraram melhor sorte, recuperados para cumprir propósito turístico.

Já na ponta poente, virado para o oceano, um conjunto de estátuas em bronze reproduz uma família de malas feitas a caminho de algum lado. Ao perto, percebemos que a escultura representa a diáspora portuguesa: uma família de seis pronta a embarcar para o desconhecido. É o Monumento ao Emigrante, oferta de Manuel Giesteira, um filho desta terra que foi levado pelos pais para o Brasil nas vagas emigratórias do século passado, mas que nunca se olvidou do seu berço. A história dos Giesteiras é igual à de tantas outras. Um Portugal que era pobre. Um Brasil que, falava-se, era rico. E daqui puseram-se a caminho, porque a incerteza do que aí vinha era melhor do que a certeza de ter pouco. Presentemente, crê-se que quem tocar no pé do menino mais velho, aquele que corresponde ao patrocinador desta obra, terá sucesso e dinheiro, aquilo que Manuel Giesteira conseguiu na Terra de Vera Cruz.

E para terminar, observamos num patamar abaixo uma discoteca de nome Ar de Rock. Nada de particular a dizer até sabermos que o dono é o vimaranense Padre Guilherme, pároco de Laúndos, responsável pela Capela de São Félix, militar e DJ, que ficou célebre depois de ter actuado para dezenas de milhares de pessoas na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa, no ano de 2023. Coincidência ou não, o tal São Félix de Cantalice mencionado acima ficou conhecido por cantar para os outros. Enfim, um padre DJ… Consegue-se lá maior mix entre sagrado e profano. Só no Norte.

Promoções para dormidas na Póvoa de Varzim

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=41.43471​ ; lon=-8.71477

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