Camisola Poveira

by | 5 Abr, 2024 | Culturais, Douro Litoral, Províncias, Tradições

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Os ciclos da moda bem podiam ser condensados numa singela tabela de tendências da Camisola Poveira durante os últimos cento e cinquenta anos. Foi artigo étnico, um traje de gala do pescador poveiro. Depois vestimenta incompatível com tempos de luto. Logo a seguir uniforme do rancho local. Mais à frente equipamento dos banheiros da Póvoa. A meio do século XX cobriu a pele de princesas. Há cerca de trinta anos um objecto parolo amarrado a um passado que já não voltava. Recentemente um alvo de plágio de uma magnata norte-americana. E agora uma peça inimitável cuja oferta não cobre o exponencial aumento da procura. Um carrossel de intenções, de amores, de desamores, de estatutos perdidos e reconquistados.

A longa vida da Camisola Poveira

Como sempre acontece na tradição popular, onde os registos escritos escasseiam, é tarefa de cegos situar um momento, ou sequer uma época, em que a Camisola Poveira surgiu como agasalho no armário do homem da faina da Póvoa de Varzim. Poderá ter correspondido com o robustecimento da actividade piscatória na zona, ou seja, algures no final do século XVII, mas a verdade é que apenas temos como referência pinturas ou gravuras posteriores – no século XVIII já surgem alguns painéis, objectos ou ex-votos com ilustrações desse tempo e por lá reconhecemos uma vestimenta bem próxima da dita.

O que podemos dizer com algum grau de certeza é que os lanchões, os rasqueiros, e mesmo os pescadores de linha poveiros se vestiam com camisolas quentes para aguentar o muro húmido de maresia que os punha à prova, diariamente, quando do mar iam buscar rendimento. Essas camisolas seriam de lã de ovelha, a que mais tarde se tratou de chamar lã poveira, mas cuja origem vinha de paragens distintas, principalmente dos gados em transumância pela Serra da Estrela.

Ainda assim, a tal camisola de trabalho, envergada nas lanchas, seria diferente. Menos ornamentada, certamente, porque servia um duro propósito. Contudo, há a hipótese de existir uma outra, domingueira, que funcionava como alternativa para os momentos de festa ou de romaria, igualmente de lã, mas, esta sim, de bordados mais cuidados, alusivos a plantas ou a certo tipo de animais (não obrigatoriamente marítimos), um pouco à semelhança das que encontramos, por exemplo, nas camisas típicas de Viana do Castelo.

O terrível desastre de 1892 – já por aqui mencionado a respeito do Resgatar das Almas feito na romagem a Santo André – que levou à perda de mais de uma centena de pescadores da Póvoa e da Afurada, arredou, ainda que não por completo, a Camisola Poveira do quotidiano da Colmeia piscatória. O preto, a cor do luto, tomou conta do vestuário da comunidade. Durante anos a fio assim foi, até que uma nova geração menos traumatizada com a tragédia a recuperasse, o que acabou por acontecer muito por vontade de Santos Graça, uma autoridade no estudo do folclore da sua Póvoa natal, que, ao reparar numa criança vestida com a camisola esquecida, decidiu impô-la como traje tradicional do rancho.

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Camisolas Poveiras em exposição

Exposição de Camisolas Poveiras em conjunto com recentes aquisições, como gorros e boinas

As famílias da Colmeia voltaram aos baús poeirentos deixados pelos pais e avós e retiraram esses velhos pulôveres para os trazer de novo para a vida de rua e de mar. A Póvoa, entretanto, também vinha a mudar progressivamente desde meados do século XIX. Uma crescente colónia de turistas – primeiro de uma elite intelectual nortenha, depois alargada a todo o tipo de classes, vinda de Braga, de Guimarães, do Porto -, sentava-se nas areias antes apenas pisadas pelos pés dos pescadores e pelo casco dos batéis, e ocupava os modernos cafés e bares da marginal, como acontecia no Café Chinês, onde bem perto se apresentava a célebre fotografia do Tio Piroqueiro com pose sóbria e trajado a preceito com a cobiçada camisola. Novos serviços foram criados, como foi caso o banheiro, homem que vigiava os banhos dos estrangeiros, ou dos peixes de coiro, como eram pejorativamente apelidados pela comunidade poveira. O banheiro era, invariavelmente, um pescador, que no Verão acabava por ganhar uns tostões a correr menos riscos, e umas quantas vezes se via o vigilante coberto por uma Camisola Poveira.

Ajudou à festa um magnífico filme de José Leitão de Barros, de nome “Ala Arriba!”, saído em 1942 e premiado no Festival de Veneza no mesmo ano, que não posso recomendar mais e ainda por cima pode ser visto na íntegra aqui. A fita acabou por promover a Camisola Poveira, que aparece bastas vezes como vestuário dos homens da Póvoa, quer em alturas de festa, quer em momentos de camaradagem, quer nas lides da pesca. Muitos dos que o viram procuraram pelo traje. A moda prolongou-se, e pelo meio a Camisola Poveira chegou ao guarda-vestidos de Grace Kelly, com direito a foto tirada em 1968 pela revista de socialite espanhola ¡Hola!, quando já era Princesa do Mónaco e mãe de três pequenos príncipes.

Os anos de tormento começaram pela década de 1980. Podemos especular sobre quais foram as razões para tal acontecer. A urbanidade que foi tomando conta da Póvoa e que começou a pôr de lado qualquer sobra de um passado pouco glamouroso. A Colmeia piscatória que se via cada vez mais diluída no meio da massiva entrada de banhistas, especialmente nos meses estivais. Ou, muito simplesmente, as fases meio inexplicáveis do mercado da moda, que ora dão para um lado, ora para o outro, sem que quem esteja de fora perceba por que razão um objecto que era trendy num dia passa a não o ser noutro. Seja lá qual ou quais razões justificaram a relegação da Camisola Poveira a parolice, a verdade é que essa percepção vingou. E só deu outra cambalhota há bem pouco tempo, quando uma milionária norte-americana vinda destas coisas da passerelle pôs olhos nela.

O plágio de Tory Burch

Em 2021, a equipa de Tory Burch, estilista norte-americana, colocou uma sweat à venda online, com a informação de que era inspirada na baja mexicana. Um emigrante sucessor de poveiros encontrou-a, provavelmente por acaso, e percebeu que ali não estava México nenhum, mas sim a Póvoa da sua ascendência. O jornal Público noticiou o episódio. As redes sociais encheram-se de indignação. A autarquia, que naquele momento já preparava uma certificação da Camisola Poveira para evitar precisamente a contrafacção e o plágio, foi informada e não pôde crer.

A camisola em questão não oferecia dúvidas quanto à sua inspiração. A inspiração foi tanta que, na realidade, mais depressa se entendeu como uma cópia descarada. Os bordados na zona frontal do adereço não enganavam: remos, bóia, e, ainda mais denunciador, as armas da coroa portuguesa, tudo bordado a vermelho e preto. O corte era ligeiramente diferente – menos abrupto do que a Camisola Poveira original. No fundo, Tory Burch e companhia pegaram na camisola dos pescadores da Póvoa e arredondaram-na para uma mais limpinha de esquinas. Mas o pior estava no preço: chegava praticamente aos 700 euros, quase dez vezes o valor praticado em Portugal, que rondava os 80 euros.

A cópia foi de tal forma óbvia que a estilista se apressou a pedir desculpas. Contudo, a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, em coordenação com o Ministério da Cultura, não largou o osso. E bem. Pretendia ser ressarcida e recompensar as costureiras locais, que por mais de um século de trabalho tinham chegado àquele resultado. A discussão durou meses – findou quando Tory Burch pagou um valor consentido pelo município da Póvoa de Varzim.

Porém, a verdadeira indemnização de Burch não foi o valor transferido como compensação do plágio mas sim o mediatismo que a Camisola Poveira recebeu durante e depois da polémica. A procura disparou, cá e lá fora. Ao ponto de não haver mão de obra suficiente para o número de pedidos. Uma peça que caíra no esquecimento, resgatada para o público somente em eventos de saudosismo promovidos pelo poder local, passava novamente a artigo mundano, de uso diário, sem ser necessária justificação para o seu uso. Com o plágio, o maior ícone da Póvoa de Varzim passou a ter o reconhecimento nacional e internacional que havia perdido há quarenta anos.

A mudança na percepção do produto – que afinal podia valer 700 euros e não apenas 80 – obrigou a Câmara a juntar esforços para certificar definitivamente a camisola, o que veio a acontecer a dois tempos, primeiro em 2022 como produto com Indicação Geográfica Protegida, seguindo-se em 2024 o selo do Instituto do Emprego e da Formação Profissional, tornando-se o primeiro e único elemento do património cultural poveiro com tal distinção. Depois veio a necessidade de formar gente que a cosesse, processo que está agora a decorrer, já com alguns frutos.

Se devemos um agradecimento a Tory Burch pelo renascimento da Camisola Poveira, é discutível. A cópia criada, vendida como peça própria, era demasiado flagrante. A referência ao México revela uma falta de cultura difícil de desculpar para quem faz disto negócio. Mas há décadas que o símbolo mor da Póvoa não andava na boca de tanta gente, não ocupava tanta página de jornal, não saía embrulhada e pronta a usar para tantos pontos do mundo. Isso é indesmentível. Como também é indesmentível que nada disto teria acontecido se não fosse a chico-espertice de Tory Burch. A mulher, como Deus, acabou a escrever direito por linhas tortas.

Linhas e corte da Camisola Poveira

É bem possível que a hipótese levantada por alguns estudiosos, que coloca a Camisola Poveira como um resquício do vestuário dos mareantes dos Descobrimentos, seja verdadeira. Sabemos que houve recrutamento para o empreendimento do Portugal além-mar por estas paragens, por razões óbvias – afinal, quem teria melhor experiência de navegação do que um pescador, filho de pescador, neto de pescador?

As linhas endurecidas e a simplicidade do tricot sugerem essa antiguidade. De facto, toda a camisola é angular, um conjunto de rectas, do corpo às mangas. A cor branca que actualmente muita gente admite ser a original, poderá ter sido apenas uma de um leque com mais alternativas do que hoje se supõe – a lã poderia chegar em tons de cinzento, até tingida e reaproveitada dessa maneira.

E ao que parece, nem sequer seriam, num momento inicial, produzidas na Póvoa. Antes na sua intemporal concorrente: a aristocrática Vila do Conde, mais concretamente na freguesia de Azurara, a montante da cidade. As camisolas seriam encaminhadas para as comunidades piscatórias a norte, sendo a o caso mais próximo a Colmeia poveira, que, por sua vez, bordava os motivos vegetalistas e animalistas, um trabalho que, numa fase embrionária, até podia pertencer ao homem, habituado que estava a coser redes que o acompanhavam na caça ao peixe, e depois transferido para as mulheres, fossem elas mães ou esposas, avós ou irmãs. As famosas Siglas Poveiras, símbolos que representavam cada família no burgo e de fácil leitura para quem nascia vivia e morria dentro da comunidade, também poderiam ser parte do jogo de padrões na fronte da camisola. Mas de um modo geral, é aceite, até tendo por base as poucas pinturas ou gravuras ou fotografias existentes dessa época, que a Camisola Poveira primitiva, mesmo a que se usava em ocasiões festivas, era bem mais lisa e despida de bordados do que a que foi promovida a partir do segundo quartel do século XX.

O surpreendente caminho da Camisola Poveira, que entre a década de 1940 e a década de 1970 era vestida em lugares impensáveis, levou-a a apresentar-se mais como adereço de moda e menos como casaco de sardinheiro. Daí surgiram os modelos de composição complexa, aqui sim, com representações da vida marítima, como os remos cruzados, como os peixes e os cavalos-marinhos e os camarões e os caranguejos, como os apetrechos da faina, como as barcas de mastro e vela montados ou as âncoras dependuradas, como sereias e outros seres mitológicos do profundo desconhecido, como as combinações de siglas de mais de uma família. Para último, acrescentou-se o nome próprio ou a alcunha de quem a possuía.

Mas os pedidos continuavam, e a cada pedido acrescentava-se novo ponto – há sempre alguém a querer um bordado pessoal, um lembrança daqui, outra dacolá. As mangas, antes quase incólumes de grafismos, passaram a ter mais barulho. O mesmo para a abertura junto ao peito. Também os ombros sofreram de certos tremeliques de linhas coloridas. O conjunto, todavia, mantinha uma coesão inquestionável, muito por culpa da simetria dos padrões e da malha branca da camisola – de uma lã tão pura que ainda cheirava a pelo de ovelha – que servia de tela às sobreposições bordadas a vermelho e a preto.

A recente certificação veio estabelecer parâmetros definitivos para que uma camisola hoje se possa considerar Poveira, dando uma larga margem para a inovação, sobretudo no que toca a cores, que podem ir bem para lá da trilogia branco-preto-vermelho tradicional. A lã da malha que constitui a camisola mantém-se como obrigatória, cosida em ponto de meia e avesso em ponto de liga. Mas os bordados, já traçados em ponto de cruz, além de lã, podem ser de algodão, sintéticos, ou de mistura. O trabalho deve ser feito em qualquer parte do concelho da Póvoa de Varzim, manualmente, com possível recurso a máquina desde que esta não seja automática. Com este caderno de encargos, a Camisola Poveira leva cerca de cinquenta horas a ser elaborada, e isto contando que a costureira seja relativamente calejada.

José da Silva Braga, conhecido por Tio Piroqueiro, com Camisola Poveira

Tio Piroqueiro com a antiga Camisola Poveira ao peito

José Milhazes, natural da Póvoa de Varzim, enverga uma Camisola Poveira

José Milhazes, um filho da Póvoa, com a mais moderna versão da Camisola Poveira

A Camisola Poveira na actualidade

Depois do trampolim que o plágio, ironicamente, trouxe à Camisola Poveira, uma série de iniciativas espreitaram um mercado que, da noite para o dia, entrou em ebulição. Sendo justo, alguns destes empreendimentos chegaram antes da explosão pós Tory Burch.

Do lado do município, foi criado um Centro Interpretativo e de Formação da Camisola Poveira cujo objectivo principal é formar costureiras e bordadeiras nesta arte. Ao mesmo tempo, instaurou-se o Dia da Camisola Poveira, data em que homens e mulheres da Póvoa, de todas as idades, de todas as classes, se juntam para um desfile pela cidade com o uniforme ao peito. No Museu Municipal, a Camisola Poveira foi pioneira ao ser destacada como a primeira “Peça do Mês” de uma série de edições que se seguiram.

No Porto, a Modatex aliou-se à Patripove – Associação de Defesa e Consolidação do Património Poveiro na formação de mais mão de obra.

A Assembleia da República também não se esqueceu delas quando expôs produtos com certificado nacional. Ainda em Lisboa, o Museu de Etnologia exibiu-a enquadrada no workshop “Malhas da Pesca”. E Nuno Gama, estilista conhecido por integrar a portugalidade no seu portfólio de roupa, acessórios, e jóias, levou o traje para as conceituadas passadeiras de Milão, de Nova Iorque, de Barcelona. Outro passeio de vaidade se fez na Semana da Moda de Londres.

Por fim, os pontos de venda. Para comprar uma Camisola Poveira, pode fazê-lo na Aurora Handmade, no Atelier Poveiro, ou no Marketplace. O aviso já foi deixado num parágrafo anterior: a procura é muita, e tem crescido. Preparem-se porque podem ter de esperar umas semanitas até a terem no pelo. É o preço a pagar por uma malha de cuidado artesanal, feita de pessoas para pessoas.

Promoções para dormidas na Póvoa de Varzim

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