Tapete de Beiriz

by | 29 Abr, 2024 | Culturais, Douro Litoral, Províncias, Tradições

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A probabilidade de o caro leitor se ter cruzado com algum Tapete de Beiriz é muito mais alta do que possa pensar. Seja em hotéis, em espaços autárquicos e de soberania, em teatros, em museus, em casas particulares, em centros culturais, em clubes, o mais importante e valorizado têxtil do concelho da Póvoa de Varzim está por todo o lado, até onde menos se espera. Nasceu na povoação homónima, fruto do empreendedorismo de uma mulher – assim era e é nos lugares do Norte, onde a matriarca continua a ser uma figura elementar nas organizações sociais e familiares.

Uma costa de rendas e rendilhados

Não é preciso ir até muito longe de Beiriz para vermos outros gabados exemplos de trabalho têxtil: no concelho vizinho, em Vila do Conde, são célebres as rendas de bilros que por lá se fizeram tradição de várias gerações; neste mesmo concelho da Póvoa, os mais humildes Tapetes de Trapos tiveram berço junto a Terroso e progrediram um pouco mais para norte, até Laúndos; e claro, a um pulinho de Beiriz, na própria cidade da Póvoa, temos as já internacionais Camisolas Poveiras, símbolo mor dos corajosos mareantes que vivem (e, por vezes, morrem) do mar.

Neste sentido, torna-se menos surpreendente que a ideia de criar um tapete de alta qualidade, e portanto de elevado custo, tenha surgido no ano de 1919. Hilda Brandão Miranda, filha de portugueses e crescida no Brasil, foi a mulher que pensou o projecto e o materializou. Retornada a Portugal, viveu a alta sociedade portuense até sofrer a maior tragédia de uma mãe: a perda de uma filha, para mais, ainda bebé. Exilada em Beiriz com o seu marido, viu na tecelagem um alívio para a perda. E dali saiu alguma coisa promissora, porque pouco tempo depois recrutou seis camponesas, numa altura em que muita gente empregada na agricultura se começava a mudar para as actividades industriais – era um trabalho mais interessante no que tocava a rendimentos, e também mais estável em questões de horários e de sazonalidade. Começaram com apenas dois teares, aparentemente pouco mas o suficiente para meterem produto cá fora: um tapete delicado, cujo ponto, uma declinação poveira do nó Turco convenientemente chamada nó de Beiriz, operava acuradamente uma teia de lã carregada de graciosos detalhes vegetalistas.

Realmente admirável foi ver como o Tapete de Beiriz, um têxtil invulgar e comparativamente caro face à concorrência regional e nacional, ganhou mercado em tão pouco espaço de tempo. Na década de 1930, a fabriqueta de seis tecedeiras virou um complexo com cerca de seis dezenas de teares que chegaram a dar emprego a mais de três centenas de mulheres, mulheres essas coordenadas por uma outra mulher, a sobredita Hilda Brandão Miranda, que, até à sua morte, em 1949, não abriu mão da gestão do negócio que montou.

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Mesmo depois de ver a morte da sua criadora, o Tapete de Beiriz continuou a vender-se, não só em Portugal, mas também por vários pontos da Europa e das Américas. A administrar a empresa estava agora a descendência de Hilda Brandão e do seu marido, Carlos Rodrigues Miranda, engenheiro que não podemos arredar da história pois também ele contribuiu para o brilharete da empresa ao conceber uma tinturaria que complementava o trabalho das tecedeiras. A fábrica operou em registo familiar até 1974, quando a revolução estalou e o tecido industrial, em muitos casos, passou para as mãos dos operários. Um ano depois, em 1975, a Fábrica de Tapetes de Beiriz encerrou.

Foi longa a hibernação. Só no final da década de 1980, uma alemã de nome Heidi Hannemann, caída do acaso em Portugal, mais tarde casada com um português, e dada ao gosto pela tapeçaria – ramo onde aliás trabalhava por conta de outrem -, lembrou-se de uns remotos clientes que produziam tapetes numa aldeia da Póvoa de Varzim e deliberou a reabertura da empresa, agora numa nova fábrica bem pertinho da original. Apostou na experiência já adquirida ao convocar antigas trabalhadoras da unidade original, confiando que dobrar nós nos teares é como andar de bicicleta: nunca se esquece. E voltou o Tapete de Beiriz ao jogo da procura e da oferta – como antes, manteve-se num patamar apenas acessível a alguns ordenados, pois o processo continuou artesanal e laborioso. Como o mercado tinha mudado, e assumindo que um Tapete de Beiriz não é hipótese para boa parte das pessoas, apostou-se na diversificação de produto, e da decisão saiu o tapete tufado, este obedecendo a uma produção mais automática, com recurso a pistolas de ar que projectam o pelo sobre a malha – está claro, o tufado fica bem mais em conta do que o de Beiriz.

A filha de Heidi, Cátia Ferreira, senhora de nome bastante português mas que a altura e o semblante não enganam quanto à sua parcial ascendência germânica, herdou a fábrica e prolongou a estratégia traçada pela mãe. Até recentemente a empresa ser adquirida por um investidor belga. Na actualidade, o Tapete de Beiriz soma menos de dez por cento do total da produção fabril. Importa é que continue a ser feito. Se for preciso ter um outro, menos sofisticado, a sustentá-lo, pois seja.

Ave feita em nó de Beiriz
Exemplo de nó de Beiriz
As pontas que fazem o desenho num Tapete de Beiriz
O nó de Beiriz, uma versão poveira do nó Turco

O Tapete de Beiriz e o nó que o faz

Eu que assisti in loco à elaboração do nó posso dizê-lo: parece fácil. A tapeteira pega num niquinho de lã pura entrançada e vinca-a na teia, deixando duas pontas eriçadas a apontar ao tecto. As pontas são, no fim, aquilo que fica à vista, sendo aparadas em conjunto com as restantes de forma a uniformizar a grossura da tapeçaria. Curiosamente, virando a base de pernas para o ar, e apesar de não termos o pelo solto como acontece no lado superior, é perfeitamente reconhecível o padrão.

Se o Tapete de Beiriz for liso ou de pouco ornamento, o trabalho fica facilitado. Contudo, os mais bonitos não são esses, mas sim os de desenho, habitualmente compostos de motivos florais, e quanto maior a complexidade nesse campo mais exigência se pede a quem os cria.

Nesses casos, a coordenação que três ou quatro ou cinco mulheres alinhadas na frente de um tear encontra paralelo na coreografia exaustivamente treinada da ginástica artística, tal a sincronia dos gestos, articulados de forma maquinal, sem que as ditas necessitem de olhar umas para as outras. O que a operária mais à direita do tear faz, repete-se na seguinte, e na seguinte, e na seguinte. De cabeça baixa, os olhos não miram outra coisa que não as fracções de lã e a teia onde estas serão traçadas. Quando uma fiada do tapete é terminada, e depois de passada a trama, agarram-se ao pente e batem a toda a largura da carreira, num choque entre madeira e lã que se consegue ouvir a uns bons metros de distância. Calcada a fiada, tiram-se as pequenas carapinhas que, pontualmente, ficam acima do nível do pelo. E depois lá vão elas outra vez agarrar-se às tiras lanígeras para repetirem o processo. Consoante o tamanho do tapete, pode dar isto ofício para uma ou duas semanas.

O nó de Beiriz é uma declinação do nó Turco e tornou-se a marca de água do Tapete de Beiriz
Encantadora é a forma como as operárias arranjaram maneira de colocar uma assinatura no tapete. Com efeito, se em quase todas as peças artísticas, da pintura ao cinema, o nome do criador vem escarrapachado na obra, na tapeçaria guarda-se segredo de quem suou pela concretização do objecto. Ou assim parece. Porque em Beiriz as tecedeiras deram a volta ao problema: recorreram a um maroto engano numa das centenas de vezes que aplicam o nó – o que não é engano nenhum, porque um engano faz-se sem querer, e este é bem intencional -, e a trapaça, imperceptível para leigos, serve como sua rubrica.

Exemplos de Tapetes de Beiriz

Um dos mais conhecidos Tapetes de Beiriz, também pela forma como foi destacado em vários jornais de referência de Portugal, surgiu nas comemorações do centenário da fábrica, isto é, em 2019. Encontra-se no Palácio de Belém, no dito Museu da Presidência, e veio substituir um outro, igual ao corrente, que já se encontrava danificado depois de umas valentes dezenas de anos a ser pisado pelas altas figuras do Estado português.

Ainda em Lisboa, soube que existe um, que não vi, no Palácio da Fronteira. Também o Hotel Ritz, o Teatro Nacional de São Carlos, e a Câmara Municipal de Lisboa investiram na tapeçaria poveira.

O Club Portuense, na Baixa do Porto, tem no seu chão um dos exemplares mais bonitos alguma vez produzidos em Beiriz, e é um dos pouquíssimos casos em que o tapete foi penteado com ponto fino. Uma preciosidade. Continuando dentro do burgo invicto, a Câmara Municipal do Porto não se esqueceu da Póvoa, concelhos do mesmo distrito, e lá guarda uma bonita tapeçaria beiriziense.

No cinematográfico Vidago Hotel, em Chaves, o salão destinado aos jantares reveste-se com um dos mais hipnóticos Tapetes de Beiriz.

E não nos podemos esquecer da Póvoa. A casa mãe. A Câmara Municipal poveira é atapetada com um Beiriz de um azul tão marcante como o do mar em dia de céu limpo. O Museu Municipal da Póvoa de Varzim exibe a história dos seus mais famosos têxteis com recurso a alguns modelos, e na Casa da Cultura Amadeu Matias, na própria freguesia de Beiriz, podemos dar com alguns tapetes (ou partes de tapetes) e um belíssimo e majestoso tear. Por ironia, em visita à fábrica, onde fui muito bem recebido, não havia nenhuma tapeçaria disponível para mostra – “vende-se tudo”, disseram-me. E, já agora, a casa de Hilda Brandão Miranda, fundadora da primitiva empresa, situada a uns cem metros da actual fábrica, é toda ela um Tapete de Beiriz, nas paredes, nos tectos, nos sobrados.

Além fronteiras, Beiriz chegou ao Tribunal Internacional de Haia onde conta com um exemplar de grande efeito, pela dimensão e pelo ornamento, a acompanhar uma vistosa escadaria. Outro, mais modesto, está no Banco Nacional de Angola. E mais recentemente, para fechar com toada menos séria, a cadeia de hotéis Hard Rock instalou uma tapeçaria beiriziense em Ibiza.

Promoções para dormidas na Póvoa de Varzim

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=41.38719 ; lon=-8.73032

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