Igreja das Três Marias

by | 17 Mai, 2019 | Lugares, Monumentos, Províncias, Religiosos, Trás-os-Montes

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Quem planeie uma peregrinação a Compostela, provavelmente não pensará em passar por um planalto esquecido no concelho de Torre de Moncorvo. Eventualmente, poderá até ter ouvido falar do Caminho Brigantino, o mais ignorado de todos os percursos, mas por certo desconhecerá a relíquia românica, antigo abrigo de peregrinos, a meio do trilho. Falamos da Igreja das Três Marias.

O Caminho Brigantino

Conhecido em Espanha por Caminho Português da Via da Prata, começa em Zamora e passa por Bragança.

O percurso, em tempos bastante usado, parece periférico, no actual mapa de estradas e trilhos. Mas ainda está lá, e vestígios do seu passado mantêm-se em toponímias, como Vilar de Peregrinos, e em achados arquitectónicos, como o ex-líbris medieval da Igreja Matriz de Adeganha, com orago óbvio de São Tiago.

A aldeia, actualmente rondando os 343 habitantes, situa-se vantajosamente numa posição cimeira sobre o fértil Vale de Vilariça, o que terá motivado a sua ocupação desde tempos imemoriais. Referida pela primeira vez no foral de 1259, concedido por D. Afonso III, terá sido provavelmente nesta época que a actual igreja foi construída, possivelmente reaproveitando um templo primitivo.

Pormenor de gárgula na Igreja das Três Marias

Gárgulas na Igreja das Três Marias

A Lenda das Três Marias

O povo, que é sábio mas também dado a liberdades criativas quando fala do passado, transmite-nos a lenda da figura, que não só serve de legenda, como aproveita e justifica a toponímia local. As Três-Marias, também conhecidas por Três Irmãs ou Três Comadres, eram pastoras e entretinham-se a jogar às cartas, enquanto o gado pastava. Ora, uma delas ganhava sempre, por talento ou batota. Acabou vítima das duas companheiras, que raivosas a atiraram para uma fogueira. Sempre que tentava sair das chamas, as outras duas empurravam-na dizendo Arde e ganha! Arde e ganha!. Daqui viria o nome de Adeganha.

Esta lenda, sádica mas sensacionalista o suficiente para despertar a atenção, bate de frente com dois pormenores. À época da sua construção, ainda não existiam cartas de jogar, e o nome de Adeganha tem a sua mais provável origem no termo medieval para terra de lavradio.

O número mágico-simbólico do três, associado a mulheres chamadas Marias, não é algo único no nosso país, veja-se um exemplo recente no mito urbano da casa assombrada de Colares, conhecida como a “Casa das Três Marias”. Poderíamos referir as Moiras gregas, a fiar o destino, ou outros tantos triunviratos de divindades, mas a mais provável origem ou inspiração para este padrão encontra-se no Novo Testamento, com o testemunho da Ressureição por Maria de Cleofas, Maria Madalena e Maria Salomé, quando se deslocaram de madrugada ao túmulo, com perfumes.

As três marias em relevo, na Igreja em Adeganha

Outro mistério

Curiosamente, a interpretação mais correcta até ao momento indicia outra inspiração para o nome Maria. O “objecto” por debaixo da mulher do meio, seria nada mais, nada menos, do que um bebé, representando a figura, assim, um parto. Seria Maria, mãe de Jesus? Na natividade não referem outras mulheres. Seriam anjos? Ou, afinal, uma fogueira mesmo, conforme o relatado em lenda? A pista, para a hipótese de se tratar de um parto, encontra-se no baixo-relevo mesmo ao lado, onde o que aparenta ser uma criança segura dois objectos que podem ser pergaminhos ou cálices, conforme a interpretação. Será a mesma “personagem” de outra imagem na fachada lateral, onde um homem carrega dois objectos, sobre uma pessoa deitada? Poderão as figuras representar uma estória, uma biografia de algum santo? Não sabemos.

Gárgulas e Baixos-Relevos

Exemplo excepcional tardo-românico, não defrauda o visitante que procure portais de arcos quebrados ou vestígios de arcadas laterais, abrigo certo de peregrinos e actual local de repouso de três túmulos do tipo arcossólio (um deles com decoração de conchas de vieira).

Mas os pormenores mais fascinantes e que prendem de imediato o olhar são as gárgulas, os ícones e figuras antropomorfas que petrificam nas paredes exteriores, motivando inevitavelmente a curiosidade e a imaginação do que poderão significar.

Nos alçados laterais, por entre pipas de vinho e outros objectos de ofícios, faces de homens, mulheres e animais, observam há séculos os transeuntes. Canídeos, bovinos e suínos ou aves, lobos e ursos…depende da interpretação, como tudo neste templo sui generis, ora veja-se o frade na fachada norte que disputa o semblante contemplativo com a estranha figura a seu lado.

Mas a imagem que mais se destaca é precisamente aquela que dá o nome popular à igreja. Acima da cruz florida da fachada principal, um pequeno baixo-relevo mostra três figuras femininas, lado a lado, com a do meio em cima de algo não identificado.

Um críptico baixo relevo na Igreja das Três Marias

Baixo-relevo na Igreja das Três Marias

Tesouros no Interior e Episódios Macabros

No meio de tanto mistério, sobram ainda surpresas no interior.

Com as obras de restauro, foram descobertos (como é já habitual nas nossas igrejas) murais escondidos por detrás dos retábulos, já por si antigos (século XVII). Nestas pinturas quinhentistas ainda resistentes, destacam-se representações de Santos (como Santiago Maior, vestido de peregrino) e cenas bíblicas (como a Natividade).

Habitualmente o templo encontra-se fechado, mas quem for afoito só tem de perguntar por quem tem a chave e, se tiver sorte, irá calhar-lhe uma das protectoras da igreja, autêntica cicerone que contará inúmeras estórias.

Entre elas, ficará a saber do restauro da igreja e desvio dos retábulos para o lado (para expor os antigos painéis). E também do contacto dos conversadores do DGCP com a população, explicando a imagem das Três Marias ao povo (que as figuras esculpidas não estavam a fazer coisas obscenas, nem bêbadas com um odre por debaixo, como alguns diziam) e aconselhando para não limparem com lixívia o chão (os respingos danificam os retábulos), não porem tacos de madeira sobre a pedra (o rústico e antigo atrai mais pessoas) e ainda para terem cuidado com as velas.

Com conversa, poderá ficar ainda a conhecer os casos de sucesso de preservação do passado e os episódios mais tristes – como a destruição de uma fonte medieval por um proprietário; ou como a Câmara, ao não colocar luz na igreja (por sinal, muito fria e escura no Inverno), motivou obras à socapa e a descoberta de uma vala comum cheia de esqueletos de muitas criancinhas que impressionou as pessoas, mas não as demoveu. Talvez resultado de uma febre tifóide, os restos humanos ainda tinham tecidos e roupas mas a cada pazada desfizeram-se em pó, assim como os ossos. Quando o responsável camarário descobriu, ficou chateado mas teve de se resignar, porque já não havia nada a fazer.

Serra de Bornes

O santuário, tal como agora, por decerto atraiu pessoas e terá ajudado à fixação de população. Embora deslocado dos itinerários principais, uma viagem ao local ajudará sempre, de uma forma ou de outra, a manter a aldeia preservada.

Além de deixar uma esmola, existe a oportunidade para os casais beberem da fonte principal para garantirem um bom enamoramento. Nas imediações, há inúmeros outros locais de mistério que valem a pena a visita, como a Fraga da Cobra no Povoado do Baldoeiro, as ruínas de Vila Velha de Santa Cruz ou Derruída.

Torre de Moncorvo – o que fazer, onde comer, onde dormir

Não sendo oficialmente parte da Terra Quente transmontana - como o são Vila Flor, Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães, Mirandela, e Macedo de Cavaleiros -, Torre de Moncorvo acumula ainda muitas das suas características: um tempo quente e seco no Verão, com chuvas reservadas para os meses invernais, alternadas com raros momentos de neve. Estando num enclave entre o rio Sabor e o rio Douro, que inclui uma mancha do viçoso Vale da Vilariça a norte, podemos concluir que o concelho foi de certa forma abençoado com bons cursos fluviais e uma boa dose de calor, sorte que só é contrariada pelas frias altitudes da Serra do Reboredo, onde a sede de concelho repousa a meia encosta.

É nesta dicotomia, entre a magnitude do Reboredo que lembra a Terra Fria, e o vale onde a ribeira da Vilariça traz boa fortuna às colheitas que lembra a Terra Quente, que devemos conhecer o município. No primeiro caso, o do Reboredo, com uma viagem atribulada entre os caminhos batidos que levam a vários miradouros serranos e, já agora, à histórica aldeia de Mós, deixada para trás pelo tempo. No segundo caso, o do Vale da Vilariça - sustento da ovelha Churra da Terra Quente -, com um roteiro pelas quintas vinícolas do Douro Superior, havendo várias por onde escolher, mas destacando a Quinta do Couquinho (convém ligar para sondar se pode haver visita) ou a Quinta da Terrincha (com possibilidade de pernoitar num solar oitocentista).

Nas zonas fronteiriças da concelhia guardam-se as horas para o turismo de natureza, sobretudo as que metem água ao barulho - no eixo ocidental temos o Caldeirão, um poço natural acedido por uma pequena rota pedestre mas que nem sempre tem água suficiente para banhos no pico do estio, e na confluência do Sabor com o Douro temos a Praia Fluvial da Foz do Sabor, justamente a mais concorrida da região, com uma envolvência que tão depressa não se esquece.

Torre de Moncorvo, a vila, vale muito a pena. Sendo verdade que do seu castelo já mal consigamos ver alguma coisa sem recorrer ao uso da imaginação apoiado em um ou outro muro fortificado recentemente requalificado, também não é mentira que os moncorvenses têm muito para contar da sua terra - sobre a judiaria e como ela foi uma espécie de quartel das comunidades judaicas transmontanas, sobre o ferro e as minas que abriram para o caçar, sobre a Basílica Menor da Senhora da Assunção e a ambição de aqui se ter uma nova diocese que dominasse todo o Nordeste. De caminho, e porque quase todo o comércio municipal se concentra na sede de concelho, aproveite-se para comprar e levar na bagagem o famoso Queijo Terrincho e a Amêndoa Coberta de Moncorvo, que por acaso nem casam mal um com o outro.

Fora da vila, há pelo menos dois exemplos de património religioso que devem ser mirados: a Capela da Senhora da Teixeira, que com boa dose de exagero à mistura é apelidada como a Capela Sistina de Trás-os-Montes; e aquela que é conhecida, entra várias designações, por Igreja das Três Marias, onde as paredes falam mais do que pensamos. E se por acaso viajarmos por estas paragens no início de Novembro, faça-se o possível para assistir ao dia de São Martinho na povoação de Maçores, uma tradição fora do comum até para quem está habituado a tradições fora do comum. Caso Novembro não seja hipótese, lembrem-se de Moncorvo no final de Fevereiro, quando as amendoeiras espetam as suas flores para fora e enchem os campos de rosa e branco - é sempre bom recordar como os maiores espectáculos que a natureza nos dá não têm preço.

Onde comer

Primeiro, uma curiosidade: se forem refrescar-se à Foz do Sabor, porque é lá que está a principal praia fluvial de Moncorvo, lembrem-se do Lameirinho, um pequeno estaminé que serve peixe de rio frito.

Fora isso, é imperativo conhecer a gastronomia transmontana pelas mãos da senhora Dina, que governa a Taberna do Carró, um aconchegante lugar onde as mesas são cobertas com padrões de piquenique, e a Posta à Mirandesa é feita no fogo. Conta também com loja anexa, com venda de produtos regionais. E ademais, temos o Lagar, restaurante que deambula pelas iguarias de Trás-os-Montes - em especial pela amêndoa de Moncorvo, sobretudo nas sobremesas. Tem cardápio rotativo, e óptimas favas guisadas.

Onde dormir

O melhor sítio para ficar em Torre de Moncorvo é a Quinta da Terrincha, num terreno vinhateiro abençoado pelo Vale da Vilariça (que, já agora, é o principal fornecedor do maravilhoso pequeno-almoço). Tem na casa principal os quartos mais luxuosos e conta com lareira, que é sempre um bombom nos meses mais frios. É, contudo, também um dos sítios mais caros do concelho, embora não excessivamente, e já sabemos que o bom custa dinheiro.

Mais modesto é o Capalonga, uma bonita casa transmontana aproveitada para Alojamento Local na aldeia de Larinho. Por dentro ainda vemos como era o típico casario do interior Norte português. Melhor para repouso, já que está longe das principais urbes.

Para conhecer mais promoções para dormidas em Torre de Moncorvo, ver em baixo.

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=41.27437; lon=-7.04982