Matança dos Judeus

No Domingo de Páscoa, na pequena povoação de Cem Soldos (agora conhecida por abrigar um festival de música portuguesa), faz-se a que é popularmente conhecida como Matança dos Judeus, ou, usando um nome menos sanguinário, a Festa da Aleluia, ou ainda, como terceira alternativa, a Procissão das Cruzes.

O seu nome encontra equivalente em ritos organizados por outras zonas do país nesta altura do ano, como as dezenas de Queimas do Judas que, por esta altura, celebram a entrada na Primavera. No entanto, em Cem Soldos, o ritual a que esta festa obedece é atípico.

Comemora, oficialmente, a Ressurreição de Cristo. Digo oficialmente porque na verdade poderá estar ligada a outro tipo de sacralizações, como não será difícil de desconfiar quando descrever o que lá se passa. E é por aí que começamos.

Dias antes da festa, normalmente a partir de Quinta-Feira, rapazes montam cruzes feitas de cana, e no seu centro, onde Cristo deveria estar, são apresentadas flores silvestres. Já as raparigas recolhem, na véspera da festividade, ramos floreais. Ambos, homens e mulheres, deverão, na manhã de Domingo de Páscoa, trazer respectivamente as suas cruzes e os seus ramalhetes. Aí, antes de alguma coisa começar, uns miúdos, envergando uma capa escarlate, louvam a Ressurreição, em discursos e cânticos. Depois, encabeçada pelos mesmos, faz-se a procissão, acompanhada por gritos de aleluias alusivos a Cristo. A segui-los estão os restantes rapazes e raparigas, com as cruzes montadas e os bouquets improvisados. E no final, chegando à parte mais enigmática, partem as cruzes à entrada da igreja, de forma, digamos, contundente. Destroem tudo até que quase nada sobre para desfazer. E fazem-no, segundo testemunhos de alguns velhos participantes, para mostrarem a revolta da morte de Cristo às mãos dos Judeus. Será mesmo assim? Provavelmente, não, e o nome Matança dos Judeus saiu cá para fora como uma forma de diabolizar esse povo e, ao mesmo tempo, como uma rocambolesca maneira da igreja conseguir legitimizar (e explicar, ainda que mal) um gesto provocatório que de católico nada tem.

O porquê de tal heresia acontecer é difícil de dizer com certeza. Mas haverá quem avance por uma via que me parece lógica, numa perspectiva histórica e geográfica.

Olhando para o mapa, estamos em pleno campo da Ordem do Templo – Cem Soldos encontra-se a aproximadamente cinco quilómetros de distância da Templária cidade de Tomar, e o próprio nome da aldeia, segundo uma das teorias, tem origem na Ordem do Templo (cem soldos poderia, eventualmente, ser o pagamento feito à Ordem). Virá este ritual daí? Tendo em conta que os Cavaleiros Monges foram até acusados de negar a cruz, talvez sim. E lembrando o desapego que os Templários tinham por tudo o que era material, a coisa encaixa.

E nesse caso, o partir da cruz significará o abdicar da matéria como metáfora do homem emancipado, encontrado com o seu eu espiritual, que não precisa de objectos (isto é, de cruzes, neste caso) para sentir o sagrado. Tendo em conta que quem encima esta procissão são jovens que rondam as idades de fim de adolescência, esta explicação terá ainda mais sentido enquanto fenómeno de passagem para a idade adulta – como acontece no nordeste, em Dezembro, nas Festas dos Rapazes, que podem ser vistas em Varge ou em Ousilhão.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=39.58644218371976 ; lon=-8.452295064926147

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.