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Inserida nos peculiares territórios nacionais da margem esquerda do Guadiana, a Serra de Serpa é um reduto etnográfico, político, histórico e, até, artístico.

A serra

Chamar serra ao que vemos, na perspectiva de um beirão ou de um transmontano, é enganoso, mas foi mesmo assim que o povo a classificou, muito embora sejam raros os cumes que vão acima dos cem metros de altitude. Para a realidade deste cantão além-Guadiana do Baixo Alentejo, qualquer coisa acima dos cem metros não deixa de revelar alguma altivez. Há ainda quem o apelide de monte, ou o monte, sugerindo o determinante que não há mais nenhum com a mesma relevância nas proximidades.

Conta com cerca de 40000 hectares, e preenche que toda a ponta sul do concelho que lhe dá nome, situando-se entre o rio Guadiana e o rio Chança – o segundo, neste pedaço de latitude, substitui o primeiro enquanto rio fronteiriço. A norte é guardada pela Aldeia Nova de São Bento.

São terras de pouco interesse agrícola – terá vindo daí o nome da povoação Vales Mortos? -, xistosas, cobertas de vegetação típica do sul do país: esteva, rosmaninho, alecrim, azinheiras, sobreiros e oliveira. Também urze e medronheiro podemos encontrar.

A história de um baldio e da sua morte

Um dos factores que mais interesse desperta na Serra de Serpa é o seu passado comunal, enquanto baldio. Na verdade, foi assim que a serra esteve durante grande parte da sua história, desde centúrias medievais até ao início do século XX, altura em que foi loteado de forma grosseira, para dizer o mínimo.

O baldio

O grande baldio que foi antes a Serra de Serpa remonta a D. Dinis. Estes territórios que eram pertença da coroa pareciam proveitosos para a produção de cera, e assim o rei decidiu apresentar um foral que regulasse tal zona, estabelecendo-se desde logo a demarcação das malhadas através de muros-apiários – isto é, das áreas dedicadas à criação de abelhas e de cortiços, atribuídas individualmente aos malhadeiros.

Mais tarde, no início do século XV, e também por decisão régia, nova regulação tomou forma, desta vez pela mão de D. Manuel.

Tratava-se de uma espécie de cessão territorial por parte da coroa que se transformou, como que naturalmente, numa grande comuna de pequenas malhadas.

A nova divisão e o fim do baldio

A Serra de Serpa viu nascer, a partir do século XVII, um confronto entre os malhadeiros e outros proprietários, habitualmente mais poderosos e ricos, que cobiçavam o baldio. A administração municipal de Serpa sentia-se cada vez mais pressionada a abrir o uso do baldio a novos privados. Ao mesmo tempo, o Celeiro Comum de Serpa, no final do mesmo século, foi gradualmente tomando conta do território comunal.

A guerra culminou, no início do século XX, com uma divisão milimétrica do espaço: um manto de quadrículas, como se de um tabuleiro de xadrez se tratasse, não respeitando qualquer ordem natural, foi desenhado e distribuído. Dos cerca de 33000 hectares loteados, apenas 0,05% foram entregues às antinhas malhadas.

A produção cerealífera, nomeadamente do trigo, tomou conta da serra. A pecuária praticamente finou. Os pastos necessários à sobrevivência das abelhas mingaram. E pior, o uso intensivo dos solos para venda de cereais tornou aquele chão, já de si pobre, em praticamente estéril. Os pequenos proprietários, que nada conseguiram cultivar a partir dali, tiveram de vender ou deixar as suas parcelas, quase sempre aos grandes proprietários que aumentavam, assim, as suas herdades.

Ainda hoje conseguimos ver, através de imagens de satélite, as marcas desta divisão geométrica da terra que, por paradoxo, se revelou caótica nos resultados.

Em tempos recentes

A meio do século XX, como consequência da sua posição geográfica, onde apenas o modesto rio Chança a separa de Espanha, a Serra de Serpa transformou-se num pequeno exílio de republicanos espanhóis que, durante e após a Guerra Civil de Espanha, fugiram de Franco. Algumas destas famílias acabaram por lá ficar, deixando descendência até hoje.

De resto, e para que nem tudo acabe em má notícia, há boas novas a dar.

Já no século XXI promoveu-se finalmente a sua electrificação, processo que decorre desde 2012, beneficiando empresas e moradores. E apesar do cansaço dos seus solos, parece que o chão vai ganhando outro viço, um que lhe faltava há décadas, quando a agricultura intensiva comprometeu uma fertilidade sustentável. Veremos se aprendemos com os erros ou não.

Também na arte a Serra de Serpa tem ganhado reconhecimento: depois do saudoso Francisco Mello Breyner, Conde de Ficalho e antigo residente da Casa dos Condes de Ficalho, lhe ter dedicado o conto “A caçada do Malhadeiro”, outros autores têm dirigido atenção às particularidades destes pequenos montes, em forma de livro ou de documentário. Uma justa homenagem a um território alentejano que não merecia ser tratado como foi.

Serpa – o que fazer, onde comer, onde dormir

Serpa, terra quente e fundada por uma lendária serpente alada, guarda uma das melhores gastronomias do Alentejo - passando à frente do Queijo de Serpa, que esse é tão bom que se torna óbvio demais, temos os magníficos azeites, os requeijões e queijadas, o pão e os seus ensopados, as carnes de caça, e o vinho, claro, sobretudo o tinto. Aproveite-se a Feira do Queijo do Alentejo, em Serpa, e a Feira do Enchido e do Presunto, em Vila Nova de São Bento, para experimentar tudo isto.

Mantendo-nos no tópico gastronómico, recomenda-se uma ida (ou mais) ao restaurante O Alentejano (o ensopado de borrego ou as sopas de cação com coentros são muito boas), à adega Molha o Bico (várias especialidades orientadas para o trato do borrego), à cervejaria Lebrinha (um ícone para moradores e visitantes), ou ao restaurante Pedra de Sal (a comida é menos alentejana do que nos prévios, mas nem por isso pior).

Na cidade, os sítios de visita axiomática são o Castelo, e é quase impossível não o ver estando lá, a Torre do Relógio, o Palácio dos Condes de Ficalho, e o Museu do Relógio, entretanto agora com um irmão mais novo instalado na cidade de Évora.
É também por estes lados que o Cante Alentejano mais se faz ouvir nas tabernas - e aqui temos de realçar a taberna do Xico Engrola, onde se dirigem os homens dos grupos de coral para improvisarem canções alimentadas pelo copito de tintol.

No que toca a natureza, a Serra de Serpa e a sua curiosa história de divisão de território, num longínquo conflito entre a facção comunal e a facção privada, vale a pena. Mas estamos perto do Guadiana, e por isso vivê-lo, seja lá de que forma for, é fundamental, mesmo numa visita curta - há canoagem a acompanhar o sentido da corrente em direcção ao concelho de Mértola, há festividades como a que acontece em Junho na povoação de Brinches, há percursos que picam os antigos moinhos movidos a águas fluviais.
Para dormir, é favor passar a noite na beleza singela da Casa do Xão, um sítio que sublinha o conceito de tempo lento, tão vincado no Baixo Alentejo. O Monte da Morena, uma velha casa agrícola recuperada com piscina e largo terraço para pequenos-almoços.

Em baixo pode ver mais ofertas para dormidas em Serpa:

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=37.83333 ; lon=-7.58333