^

Santeiros de São Mamede do Coronado

by | 29 Out, 2022 | Culturais, Douro Litoral, Províncias, Tradições

Monumentos

Natureza

Povoações

Festas

Tradições

Lendas

Insólito

Se calhar começamos por aquilo que há de menos bom: os Santeiros de São Mamede do Coronado foram considerados uma das 7 Maravilhas da Cultura Popular. Desde 2007, os concursos 7 Maravilhas têm vindo a ser desenvolvidos por entidades estatais e apresentados ao público pela RTP. Acabam por promover tradições, festividades e monumentos para uma audiência alargada, como apenas a televisão ainda consegue. Até aqui, nada a apontar.

O problema é que, no caso dos Santeiros, a eleição foi feita com marosca. A Câmara Municipal da Trofa comprou (ou, usando um eufemismo, investiu) quase 75.000€ em chamadas telefónicas de maneira a que o seu património fosse um dos vencedores. Poderão dizer que seria escolhido na mesma caso não houvesse tal despesa – talvez, não sabemos. Ou que todas as câmaras adoptam o mesmo tipo de estratégia – talvez, também não sabemos. Mas à nomeação dos Santeiros de São Mamede do Coronado ficou associada uma batota que, muito sinceramente, eles não mereciam. Nem eles, nem José Manuel Thedim, admirável homem da cultura que apadrinhou o projecto e cuja ascendência está ligada à arte santeira. Seria mesmo esta a única forma de promover uma tradição secular?

Uma nova candidatura, desta vez à UNESCO, está neste momento em curso, igualmente levada a cabo pelo Município da Trofa. Que os promotores vejam esta oportunidade como uma forma de se redimirem do infeliz gesto passado. Esperamos todos que os Santeiros sejam reconhecidos internacionalmente pelo prestígio de tal instituição, e que, desta vez, a glória não tenha tido um preço.

Afastadas as polémicas, dediquemos as próximas linhas ao que mais importa: aos Santeiros, às Senhoras e Santos por eles feitos, e à tradição da arte sacra na pequena terra trofense de São Mamede do Coronado.

Numa oficina em São Mamede do Coronado, o reformado mestre Boaventura Matos exibe a sua obra

A imaginária depois de pintada

Siga-nos nas Redes Sociais

A perfeição da Nossa Senhora do Rosário de Fátima

Nossa Senhora do Rosário de Fátima em procissão

A origem e a história dos Santeiros de São Mamede do Coronado

Um Santeiro é um homem que esculpe santos. Também o poderíamos chamar de escultor, mas para alguns essa nobre designação está guardada para quem sacou um pergaminho académico. Nada que apoquente.

Pelo século XVIII, na região Norte, onde a religiosidade sempre foi mais forte, havia vários Santeiros, sobretudo nos distritos do Porto e de Braga. Deveriam ser descendentes de artífices do início da época barroca, quando os altares dos templos se aprimoraram, guardando um nicho para uma imagem de Cristo, de Maria, ou de um santo patrono.

Das várias aldeolas e vilarinhos nortenhos, o concelho da Maia destacava-se pela concentração de escultores que se dedicavam à criação de imaginária religiosa. Foram sobrevivendo aos percalços da história, ao iluminismo do Marquês de Pombal, avesso às ordens religiosas, à chegada do liberalismo, que não foi propriamente apologista do culto das imagens, e ao fim da monarquia perpetrado por um republicanismo que não tinha vergonha de se assumir como anti-clerical. Os Santeiros seriam, porventura, um reflexo de um Portugal mais antigo, e como tal, remavam contra a corrente.

Em 1917, quando São Mamede do Coronado já se tinha transferido do concelho da Maia para o concelho de Santo Tirso, um evento de contornos bizarros ocorre – em Fátima, três miúdos afirmaram ver aparições da Senhora diante de si. Ficaram conhecidos como os Três Pastorinhos: Francisco Marto, Jacinta Marto, e Lúcia dos Santos. O fenómeno ficou lembrado como Milagre de Fátima ou Milagre do Sol e estava nos antípodas da mundivisão positivista republicana então vigente na política portuguesa. Contudo, foram muitos a avalizar as visões dos pastorinhos, na sua grande maioria sectores conservadores e religiosos. Para reforçar a veracidade do episódio, seria necessário pôr em escultura a Maria do milagre de Fátima, a Senhora do Rosário, conforme foi posteriormente chamada. A ideia era ter um objecto que reflectisse o que os pastorinhos afirmaram ter visto e dar um lugar de culto católico aos portugueses que não queriam abdicar da sua fé.

Uma primeira obra foi encomendada ao escultor Teixeira Lopes, para logo ser rejeitada. Um novo pedido foi emitido, desta vez até terras nortenhas, mais concretamente à bracarense Casa Fânzeres. E a Casa Fânzeres, sabendo de um tal de José Ferreira Thedim residente em São Mamede do Coronado – Santeiro que era filho e neto de antigos Santeiros, e afamado por tudo conseguir fazer com um pedaço de madeira -, a ele reencaminhou a solicitação. José Ferreira Thedim, inspirando-se num modelo que tinha visto referente à Senhora da Lapa, talhou em cedro brasileiro a sua obra mais famosa: a Nossa Senhora do Rosário de Fátima, exposta na Capelinha das Aparições, no Santuário da Cova da Iria. A Senhora esculpida, da qual sobressai o rosto cândido e clemente, tornou-se uma obra-prima da arte sacra.

A partir daí, nada voltaria a ser igual. A imaginária criada por Thedim superou qualquer expectativa. Dela se fizeram moldes para que mais se fabricassem, mesmo que sem a original perfeição. Dela se copiaram milhares de Senhoras em miniatura, de plástico ou de fibra ou qualquer outro material menos ilustre, que são vendidas em doses industriais em Fátima e em tantas lojas de souvenirs espalhadas pelo país.

A política fez também as pazes com a igreja – primeiro com a Ditadura Militar, depois com a afirmação do Estado Novo. Aumentou a procura por nova imaginária, e que melhor lugar do que aquele onde Thedim vivia, uma terra para os lados do Porto, que não parava de aumentar em número de aprendizes e cujos mestres tinham dado provas de ser dos melhores do país. José Ferreira Thedim acabou por ser o escolhido para mais duas imagens: uma do Imaculado Coração de Maria, outra da Virgem Peregrina. Mas a verdade é que Thedim, sendo o impulsionador e o formador de muitos Santeiros de São Mamede do Coronado, tinha cada vez mais companhia. Com os anos, alguns formandos ganhavam asas e abriam as suas próprias oficinas, quase sempre anexas à casa onde residiam (daí que se tenham chamado de casas-oficina). De 1920, ano da entrega da imagem da Senhora do Rosário ao Santuário de Fátima, até à década de 1960, o negócio foi sempre em crescendo. Terá sido por esta altura que a arte mais se aproximou de uma indústria.

Depois da revolução de 1974, sem surpresas, dá-se nova quebra. Na década de 1970 e de 1980, com efeito, assistiu-se ao encerramento de algumas das oficinas, e pior, à morte de vários dos mestres que tanto tinham feito pelo desenvolvimento da terra. Ainda assim, uns resistentes não arredavam pé da paixão que era a escultura. Boaventura Matos, por exemplo, disse-me a mim que nem em alturas de crise ficou sem trabalho – houve sempre razão para acordar de manhãzinha e pôr mãos à obra. Ainda que sem o viço da primeira metade do século XX, lá iam aparecendo uns rapazes junto dos mestres que pretendiam uns trocos para a algibeira. Alguns deles, aprendizes de ontem, são os mestres de hoje.

Depois de pertença ao concelho da Maia e em seguida ao concelho de Santo Tirso, São Mamede do Coronado viria, em 1998, a fazer parte de um novo município: o da Trofa. Daí que hoje haja quem os apelide de Santeiros da Trofa.

Ninguém saberá qual o futuro dos Santeiros de São Mamede. A Câmara Municipal tem tido alguma iniciativa na compra de espólio para um futuro museu, na transformação de algumas casas-oficina em espaços protegidos de Interesse Público, bem como à abertura de uma escola para quem quiser aprender a arte. Pequenos passos que poderão salvar a tradição. Convém, ainda assim, lembrar que ninguém é mestre em menos que dez anos. E portanto os esforços de agora só produzirão efeitos a longo prazo.

A habilidade e a paciência

O trabalho de um Santeiro exige perícia, primeiro que tudo, mas também a sapiência de quem sabe que a pressa é inimiga da perfeição. Boaventura Matos, que por acaso até se dedicou mais à pintura do que à escultura, confessou-me que nunca ganhou dinheiro pelo tempo que demorava numa peça, mas sim pelos centímetros que esta tinha. Só por aqui percebemos como a paciência é importante. Melhor do que fazer rápido, é fazer bem. E um trabalho de carpintaria tem de ser, obrigatoriamente, lento, porque só lentamente se replica a realidade.

Entrando numa casa-oficina de São Mamede do Coronado entendemos que por trás da desordem visível na falta de arrumação dos aparelhos de trabalho, há a disciplina do tempo. O tempo que demora o desbaste da madeira e o corte de cada farpa até que um rosto muito próximo do nosso se reconheça. Olhamos para objectos que reproduzem a pietá, a Senhora da Conceição, o Imaculado Coração, a Sagrada Família, São João, São Gonçalo, São Sebastião, São Miguel e a luta contra o dragão, a Senhora Adormecida, a Última Ceia, a Paixão de Cristo, Cristo crucificado, entre tantos outros personagens e episódios bíblicos, e sabemos que isto não se faz numa inspiradora tarde solarenga, como acontece com uma canção. Ser Santeiro dá trabalho. Implica a habilidade rigorosa de olhar para uma imagem modelar e fazê-la igual ou melhor, em escala aumentada, recorrendo às mãos e à goiva.

Bastará perguntar a algum dos actuais mestres (ao já falado Boaventura Matos, mas também a Augusto Ferreira, Jorge Brás, Manuel dos Santos, Manuel Moreira, Fernando Duarte, Zacarias Thedim) acerca da quantidade de aprendizes desistentes que houve, ou sobre a quantidade de vezes que eles mesmos pensaram em desistir. Logo perceberemos que ser Santeiro não é para quem quer, é para quem pode. E aqui o verbo poder significa suor, sacrifício, mas também algum dom, se calhar um dom divino, já que estamos no tema da arte sacra.

Quanto a materiais, a madeira usada foi mudando com o passar das décadas. A madeira nacional, retirada de densos bosques a sul do Coronado, só foi utilizada nos primórdios da produção, isto é, até ao final do século XIX ou início do século XX. Tinha muitos nós e era difícil de trabalhar. Assim que se recorreu ao cedro brasileiro, a matéria-prima nacional foi esquecida. Hoje, além do cedro brasileiro, importa-se madeira africana (a tola, por exemplo), sobretudo do Gabão. Para a pintura, se ela existir, é feita a óleo, depois de protegida e emendada com gesso na superfície.

Hoje as peças são vendidas globalmente – mormente para as regiões que abraçaram o catolicismo, como quase toda a América Central e do Sul. O Brasil, um dos países mais religiosos do mundo, está na linha da frente. Mas também outros países europeus e os Estados Unidos. O alargamento da variedade de imagens esculpidas, que actualmente vão além da imaginária religiosa, abarcando algumas temáticas profanas, abriu portas a novos mercados. O problema, como se vê, nada tem que ver com falta de clientela. O problema é mesmo falta de artesãos.

Trofa – o que fazer, onde comer, onde dormir

A Trofa é um dos municípios mais recentes de Portugal. Desde que a antiga estação de comboios apareceu (e que está agora requalificada no espaço da Alameda da Estação), no final do século XIX, que as várias freguesias do Bougado, que posteriormente viriam a ser englobadas no concelho trofense, não cessaram de crescer. Antes, pela indústria. Agora, pela posição suburbana que têm relativamente ao Porto, e cuja fronteira nordeste se estabelece no rio Ave.

Ainda assim, a Trofa afasta-se do conceito de cidade-dormitório. Soube conservar boa parte do seu património histórico (como acontece com o Castro de Alvarelhos ou os Marcos Miliários da Casa da Cultura), cultural (como uma ida à romaria da Festa de Nossa Senhora das Dores ou a visita a uma oficina dos Santeiros de São Mamede do Coronado explicarão) e natural (como o recente Parque das Azenhas ou o sagrado Monte de São Gens mostram).

Nas comidas, há uma propensão para a feitura do leitão, a lembrar a da Bairrada, e tal comparação pode ser comprovada indo aos restaurantes Flor do Ave, Lina ou Adega Regional Os Bairristas, entre outros que este escriba não teve oportunidade de pôr pé. A simplicidade dos grelhados do Tourigalo não faz mal a ninguém e tem preço em conta. Depois há a fábrica da Post Scriptum que os fãs de cerveja artesanal irão gostar pela certa, podendo esta também ser tragada na simpática Malte Taberna.

Quanto a hotelaria, a oferta não é muita, provavelmente pela quantidade de hotéis e derivados que existem na cidade Invicta. Mesmo assim, há espaço para a magnífica casa Porto-Braga Country Side, em Alvarelhos.

Mais ofertas para dormir na Trofa podem ser vistas em baixo:

Booking.com

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=41.27465 ; lon=-8.57471

Siga-nos nas Redes Sociais