Praia dos Olhos de Água (Albufeira)

by | 27 Abr, 2022 | Algarve, Lugares, Natureza, Praias, Províncias

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Comecemos pelo pior: a Praia dos Olhos de Água não é uma visita obrigatória, nem sequer recomendável, no mês de Agosto. Nos meses vizinhos, em Julho ou Setembro, poderá eventualmente ser boa escolha, ainda que arriscada se se apanhar maré alta, dado o curto areal e a imensa procura.

Dito isto, aqui segue, sem muros nem ameias: se guardarmos a viagem para meses menos óbvios, como Maio ou Junho ou Outubro, que são perfeitamente veranis no Algarve, a Praia dos Olhos de Água é uma das mais belas, graciosas e sinceras da região. Não é fácil consegui-lo, mais ainda num concelho como o de Albufeira, aliciado pelo turismo megalómano e pela facturação imediata. Só por isso, merece estar em qualquer um dos exagerados rankings que se fazem.

A vila e a praia

O que a vila de Olhos de Água conseguiu – e que muitas outras, em redor, perderam – foi manter os dois mundos do Algarve, o velho e o novo, o pitoresco e o cosmopolita, o da pesca e o da praia. Aqui convivem ambos, sem que pareça martelado, sem invenções folclóricas. É certo que a povoação foi expandindo, mas nem mesmo aí, nas novas ruas da vila, se vê a falta de critério estrutural que vemos, por exemplo, na Oura.

O truque está, primeiro, em aceitar a realidade. Não há grande volta a dar, a costa sul portuguesa tem aquilo que os norte-europeus procuram. Foram eles, antes de nós, que viram na província algarvia um destino áureo nas férias de Verão. Resta-nos garantir que oferecemos um produto cobiçado de forma competente. Uma parte do que eles querem tem a vantagem de não dar qualquer trabalho, é a natureza que procede à entrega: calor e sol, feito. Mas uma outra parte está dependente das iniciativas municipais, empresariais, comunitárias. O que nos leva ao segundo ponto.

Ninguém acredita que haja alguém que se deixe encantar por uma floresta de hotelaria, um sítio onde os hotéis têm vista para outros hotéis, reflexos entediantes uns dos outros. Se as aldeias e vilas e cidades costeiras do Algarve eram essencialmente piscatórias, pois que assim continuem. A longo prazo, todos agradecem – o turista e o algarvio. O equilíbrio entre a avalanche de hospedarias, de restaurantes, de bares, não deve esmagar as comunidades locais.

O que nos traz à honestidade da Praia dos Olhos de Água. Aqui cabe a boa restauração, baseada nos sabores e saberes regionais – os dois restaurantes da praia, o Pássaro Azul e o La Cigale, são bastante bons. Aqui cabe um areal resguardado que em maré baixa tem acesso a uma pequena baía a oeste e a leste revela um gigante lanço de areia com fim a cerca de sete quilómetros de distância, na marina de Vilamoura. Aqui cabe uma comunidade piscatória que não tem qualquer pudor em estacionar os seus barcos no varadouro, que lá discute sobre a sorte ou o azar que o mar lhe trouxe ontem, que traz o peixe ainda vivo pelo final do dia para sustentar os restaurantes conterrâneos. Aqui cabe uma maravilhosa Festa da Sardinha, em frente das casotas azuis onde os pescadores guardam o material e remendam as maldições. E aqui cabe um fenómeno pouco comum, o dos olheiros ou olhos que deram nome à vila e à praia, de que falarei a seguir.

Todas estas coisas certas que temos na Praia dos Olhos de Água podiam (ou poderão) ser destruídas num piscar de olhos. Bastaria que houvesse o descuido de tirar de cá quem é de cá. Que a povoação dos Olhos de Água não se canse de olhar para o lado de vez em quando, para que perceba que o que fez de diferente, valeu a pena.

As pequenas oficinas dos homens da faina

Os olheiros

Uma estranha ocorrência pode ser vista e palpada na ponta oriental da Praia dos Olhos de Água, mas apenas durante a maré baixa.

Contornando o sopé da arriba, como se fôssemos em direcção à Praia da Falésia, vemos, se pusermos os olhos no chão, pequenos turbilhões de água, ora na areia, ora submersos. Passariam por mini remoinhos, não fosse a particularidade de a água, ao contrário do que seria expectável, ser doce – tanto assim é que muitos, se calhar surpreendidos com o milagre, acabam por bebê-la.

A resposta para a curiosidade está, como é costume, na qualidade da rocha. O calcário é extremamente permeável – veja-se, por exemplo, a quantidade de cavidades e grutas que existem no Maciço Calcário Estremenho, seja na Serra de Montejunto, seja na Serra de Aire e Candeeiros. No caso da Praia dos Olhos de Água, as linhas de água que vêm de montante. Com outro tipo de solo escorreriam pela arriba abaixo, mas aqui fazem-no, ao invés, a nível subterrâneo. São riachos que não se vêem porque correm debaixo da rocha. É só quando emergem na areia que formam os ditos olhos de água, ou olheiros de água.

E o povo assim nomeou a povoação e, por associação, a praia.

Albufeira – o que fazer, onde comer, onde dormir

Albufeira foi uma das grandes vítimas do terramoto de 1755 e das guerras liberais. O pouco que dali sobreviveu nada interessa à maioria dos que cá vêm na época balnear, quando o concelho facilmente atinge uma população dez vezes superior à que tem no Inverno. O alvo desta gente, maioritariamente alemã, francesa, inglesa, até americana, são, claro, as praias. E são tantas que o tormento está em ter de escolher - com efeito, Albufeira, por tradição, lidera a lista anual de praias com Bandeira Azul no Algarve.

Nomeio, sem ter de puxar pela memória, apenas um parte delas: as famosas praias do Peneco e dos Pescadores, em frente da cidade; a Praia do Evaristo, conhecida pelo seu restaurante; a escondida Praia da Ponta Grande; a mínima mas bela Praia dos Arrifes; a convidativa e muito procurada Praia de São Rafael, guarnecida pelo hotel que lhe deu o nome; a exclusiva Praia dos Aveiros; a célebre Praia da Oura, uma balbúrdia veranil; a Praia dos Olhos de Água, que considero a mais bonita do concelho quando está vazia; a enorme Praia da Falésia, cujo nome presta homenagem à majestosa arriba que lhe é sobranceira. Há muitas outras que ficaram de fora, e demasiadas que desconheço...

Se está na minúscula minoria dos que pretendem mais do que areia, sol, e mar, então ponha a hipótese de visitar o lendário Castelo de Paderne, a nordeste da sede de município, ou dar corda às botas e ver as praias numa outra perspectiva, percorrendo a falésia da Reserva Natural Caminho da Baleeira. Indo na primeira quinzena de Agosto, dê um salto a um dos momentos mais marcantes do calendário religioso algarvio, a Festa de Nossa Senhora da Orada, ou a uma pequena celebração nos Olhos de Água dedicada a um dos nossos peixes favoritos, a Festa da Sardinha. Para Setembro, no primeiro fim de semana, ficam guardadas as Festas do Pescador, habitualmente a mais esperada celebração popular do concelho.

Na cidade, salvam-se ainda algumas casas do bairro antigo, bem como a Igreja da Misericórdia, e a icónica Torre do Relógio, curiosa obra de ferro forjado. Também na cidade, para comer bem, lembrem-se do recatado Staar, do espaço quente que é o Bistro, e do excelente mas muito acessível Lusitano, que trata a gastronomia algarvia com o orgulho de quem é de lá. Fora do centro, há uma taberna que é um mimo: o Cantinho do Mar, com comida tradicional e baratinho como toda a gente gosta. Bem perto deste último, temos o La Cigale, restaurante de praia nos Olhos de Água, com boa sardinha e boa cataplana, e também o Manzo, para quem gosta de carnes maturadas. Fora do circuito, a norte, há dois nomes a reter: Veneza, restaurante e garrafeira ao mesmo tempo, e com óptima ameijoa-preta; e Mato à Vista, para apurado peixe e ensopada carne. Do lado do Barlavento, temos o mítico Evaristo, que para quem ali passa férias, dispensa apresentações, e o restaurante da praia de São Rafael, instalado no meio da praia homónima.

Quanto à hotelaria, como sabemos, oferta não falta. Os preços, em época alta, sofrem a habitual inflação, e por isso é trabalho ingrato tentarmos, em Julho ou Agosto, ter valores para o bolso médio português quando quem está disposto a pagar não é de cá. Havendo disponibilidade financeira, sugere-se o EPIC SANA Algarve, grande empreendimento junto à Praia da Falésia, ou o Vila Joya, encostado à Praia da Galé. Para uma estadia despretensiosa, afastada das massas, o Golden Cliff House, à beira da Praia dos Alemães, é escolha acertada. Mais acessível é o Lost & Found, bom mas um pouco afastado das praias, e a Guest House Dianamar, praticamente no centro de Albufeira, embora seja difícil conseguir reserva nos meses festivos. Por fim, guardem este nome: Quinta do Mel, um achado que sabe servir produtos regionais ao mesmo tempo que oferece uma tranquilidade que raramente rima com as praias de Albufeira.

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Mapa

Coordenadas de GPS: lat=37.08978 ; lon=-8.18977