Festa de Nossa Senhora da Esperança de Belmonte

by | 18 Jan, 2022 | Abril, Beira Baixa, Festas, Províncias, Tradições

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No fim de Abril, em Belmonte, guardam-se quatro dias para comemorar a imagem mais preciosa do concelho: é a Festa de Nossa Senhora da Esperança (igualmente conhecida por Festas do Concelho) e presta homenagem a uma escultura que, segundo crença popular, viajou com Pedro Álvares Cabral de Portugal até Terras de Vera Cruz.

A Senhora da Esperança

Entende-se que a Senhora da Esperança foi cultuada desde, pelo menos, o século VII. Conhece-se um santuário dedicado a ela em Mézières, nas Ardenas, em França, junto à fronteira com a Bélgica, que deverá ter sido construído no século X. Depois desse, muitos outros apareceram por toda a Europa.

Trata-se de uma das muitas Senhoras que a fé cristã criou e à qual são associados outros cultos marianos.

No Brasil ganhou outros nomes como Senhora dos Navegantes ou Senhora da Boa Viagem, já que a ela se liga a viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil – envolta em lenda mas, ainda assim, verosímil para muito boa gente.

Em Espanha sabemos que era idolatrada como Senhora do Ó, designação que também chegou até Portugal, e cuja imagem era representada por uma Virgem grávida do seu Menino, ou seja, da sua Esperança ou da Esperança do Mundo – o Ó com que era tratada provém dos versículos anunciados antes do Natal, no Advento, onde se repete Ó Sabedoria, Ó Adonai, Ó Raiz de Jessé, Ó Chave de Davi, Ó Oriente, Ó Rei das Nações, Ó Emanuel. De facto, conseguimos estabelecer um paralelo linguístico entre a Senhora do Ó, grávida, com a Senhora da Esperança, já que ainda hoje dizemos sobre uma mulher à espera de bebé como estando de esperanças. Contudo, na maioria das representações desta última, a Senhora tem o seu filho ao colo e não na barriga.

Mas não só da Esperança que é a gravidez ou o filho de Maria vive a Senhora da Esperança. Também quem a ela vai buscar auxílio se move por essa promessa de que as coisas irão melhorar. As orações feitas em seu nome remetiam quase sempre para pedidos de ajuda em momentos de ruína, para pedidos esperançosos – no Brasil, por exemplo, oram para que na hora mais negra da vida, eu nunca deixe de confiar em Deus.

Além de Belmonte, em Portugal são vários os sítios que prestam idolatria à Senhora da Esperança: em Azinhaga, no concelho de Santarém (curiosamente, a cidade onde Pedro Álvares Cabral viveu e morreu); no município de Póvoa de Lanhoso há topónimos que sugerem a sua adoração; nos concelhos de Sátão e de Lamego, ambos pertencentes ao distrito de Viseu, podemos observar duas capelas dedicadas a ela. Sabemos que foi particularmente cultuada na altura dos Descobrimentos, o que terá levado à crença de que uma imagem acompanhou o descobridor do Brasil no ano de 1500, conforme mencionado acima e da qual falaremos adiante.

Por coincidência, a última vez que um milagre foi atribuído à Senhora da Esperança aconteceu em França, país que lhe deu origem, por altura da guerra franco-prussiana, de má memória para os franceses, mas onde, de acordo com relatos de gaiatos, um avistamento da Virgem empurrou o conflito para um armistício. Ficou conhecida como a Senhora da Esperança de Pointmain.

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A Senhora da Esperança e a viagem ao Brasil

De acordo com a opinião popular das gentes de Belmonte, quando Pedro Álvares Cabral, afamado belmontense, se atirou ao Atlântico com o objectivo de rumar às Índias, levou consigo uma escultura da Senhora da Esperança oferecida por D. Manuel. Crê-se ainda que, assim que os portugueses chegaram a Terras de Vera Cruz, a missa dada por Frei Henrique de Coimbra, feita em condições adversas e com um altar desenrascado, fez-se acompanhar pela imagem da Senhora. Depois de ficar uns tempos no Brasil, a escultura teria retornado a casa, podendo ser vista agora na Igreja Matriz da vila, depois de ter passado uma temporada no Convento de Belmonte, antigo Convento da Senhora da Esperança.

A Senhora representaria a esperança do cumprimento da travessia e, se ela de facto lá estava, não se pode dizer que tenha dado azar. Por acidente, a armada portuguesa acabou por encontrar um pedaço de terra que se pensou ser uma ilha. Depressa percebemos que estávamos de caras com algo bem maior: um continente, do qual o actual Brasil seria apenas uma parte.

Contudo, quase todos os historiadores, esses destruidores de mitos, afirmam que nenhuma imagem acompanhou Pedro Álvares Cabral, ou que pelo menos não há quaisquer provas documentais que sustentem o facto e as escrituras que chegaram até nós da viagem ao Brasil nunca a mencionam. A missa realizada aquando da chegada teria sido feita sob o sinal de uma cruz lá implantada, de acordo com as palavras de Pero Vaz de Caminha, mas não de uma escultura a qualquer Maria. De qualquer forma, se tal imagem existiu, dizem os historiadores, essa não será a mesma que se encontra na actual Igreja Matriz da vila de Belmonte, até porque esta, tudo leva a crer, foi fabricada depois da viagem ao Brasil se concretizar. Nada que convença o povo belmontense, claro, porque a tradição oral é sempre mais forte do que o aborrecimento dos testemunhos escritos – e ainda bem.

Além disso, e pondo-me do lado do povo, parece que a família Cabral, fornecedora dos alcaides-mor de Belmonte e residente no castelo da vila, tinha uma profunda devoção a uma Senhora que em tudo se parece com as representações habituais da Senhora da Esperança. Os frescos quinhentistas encontrados na Igreja de Santiago confirmam-no. Pelo que não será de excluir por completo a ideia de uma Senhora da Esperança ter feito companhia a Pedro Álvares na sua aventura até aos mares do sul. E de alguma forma temos de explicar o culto que permaneceu no Brasil dedicado à Senhora dos Navegantes, que mais não é do que uma interpretação do Novo Mundo à Senhora da Esperança portuguesa.

Uma nota final a este respeito: a ideia de prestar culto a imagens que, por crença popular ou não, se associam às viagens dos Descobrimentos Portugueses, espalha-se por vários pontos do país. Como exemplo, Ferreira do Alentejo presta vassalagem a uma escultura de roca da Senhora da Conceição que terá viajado até à Índia com Vasco da Gama.

A lenda da Senhora da Esperança

Uma lenda que se conta em Belmonte versa os feitos de um escudeiro chamado Manuel que, na Reconquista, acabou preso pelos mouros. Levado para o norte de África, lá ficou durante anos, escravizado e humilhado por um aristocrata berbere que o trancava numa arca onde dormia todas as noites.

Surpreendido pela positividade de Manuel, o seu senhor perguntou-lhe de onde vinha todo o seu optimismo. Manuel respondeu que provinha da esperança que tinha em regressar à sua terra natal de Belmonte.

Certa noite, dormia Manuel na arca que lhe tinha sido destinada, e socorrido pela Senhora, viu que o objecto onde estava fechado levitava. Subiu e subiu, voou e voou, até ele não fazer ideia de onde estava. Passadas algumas horas, a arca aterrou suavemente no chão. Manuel abriu-a, saindo de lá de dentro, e viu um grupo de pessoas tão espantadas quanto ele.

Tinha chegado a Belmonte e, como agradecimento, no sítio onde a arca caiu, uma capela dedicada à Senhora da Esperança foi levantada.

Significado da lenda

Uma das analogias que pode ser feita à lenda acima descrita é a sua similitude com o mito do Sebastianismo – um português que, perdido e retido no norte de África, ambiciona regressar ao Reino de Portugal.

José Hermano Saraiva fala disso, quando estabelece uma ligação da Esperança da Senhora com a Esperança no regresso de D. Sebastião.

Ademais, a lenda serve para sublinhar o carácter mitológico com que a Senhora da Esperança é imaginada pelos belmontenses.

A imagem de Nossa Senhora da Esperança na Igreja Matriz de Belmonte

A Igreja Matriz de Belmonte, também conhecida por Igreja da Sagrada Família, guarda a imagem da Senhora da Esperança, a tal que se acredita ter navegado até ao Brasil, desde meio do século XIX. Foi retirada do Convento de Belmonte quando este foi extinto – põe-se a hipótese deste templo que é agora uma pousada ter sido edificado numa zona onde certos rituais pagãos eram executados (o que não considero de todo impossível, pela posição que ocupa na Serra da Esperança e por algumas superstições que são atribuídas à imagem da Senhora da Esperança, como por exemplo atender aos pedidos de chuva).

É feita de pedra-sabão e mede um pouco mais de um metro de altura. Já não exibe as suas cores originais, tendo sido repintada, provavelmente mais do que uma vez. Como é habitual nas Senhoras da Esperança que por aí se espalham, traz ao seu colo Jesus ainda em bebé, a esperança, e este aponta para uma pomba branca que no cristianismo significa o Espírito Santo, uma das três partes da tríade divina, juntamente com o Pai e o Filho.

Em 1955, a escultura foi mesmo carregada até território brasileiro, a propósito do Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro, por isso podemos dizer já com certeza que pelo menos uma viagem até à América do Sul a Senhora da Esperança fez. E só não fez mais porque os belmontenses não acharam piada à sua Senhora ser frequentemente recolhida da sua terra para ir prestar serviço ao Brasil – quer em 1960, quer em 1969, a população avolumou-se em torno da igreja e não a deixou sair, sendo necessário fazer-se uma réplica que a substituísse nestas travessias.

O programa

Com pontapé de saída, normalmente, na data de 23 de Abril, os dois primeiros dias são menos sobrecarregados. Dedicam-se à música, com várias bandas locais, à pólvora dos morteiros e ao fogo de artifício que antecede os dois dias principais.

Já no dia 25 de Abril, a agenda muda: há alvorada a despertar o sono da vila, momentos solenes como o hastear da bandeira, homenagens à revolução de 1974, lançamentos de vídeos promocionais do concelho, leitura de poesia, e a procissão nocturna feita à luz das velas.

No último dia, que calha no feriado municipal de 26 de Abril dedicado a Nossa Senhora da Esperança, repetem-se alguns conteúdos do dia anterior, adicionando outras actividades como as distinções a belmontenses que, por alguma razão, as mereceram, bem como concertos de bandas de nome nacional, e uma nova procissão, desta feita durante o dia.

As procissões

Conforme falado, ocorrem duas procissões, uma no dia 25, durante a noite, e outra no dia 26, durante o dia.

A primeira é talvez a mais emblemática, pelo poder das velas e do silêncio imperturbável do escuro. Carrega com ela a imagem da Senhora da Esperança assente numa barca (novamente remetendo para a crença na navegação que realizou), e já chegou a ser acompanhada por uma segunda imagem da Senhora da Aparecida, numa nova alusão aos laços emocionais que Belmonte tem com o Brasil.

A segunda romagem tem como destino a estátua de Pedro Álvares Cabral, sendo depois seguida de missa em honra de Nossa Senhora da Esperança na Igreja Matriz.

Belmonte – o que fazer, onde comer, onde dormir

Situado na raia mágica beirã, Belmonte é o concelho mais a norte do distrito de Castelo Branco. Famoso pela sua cultura criptojudaica, resultado da perseguição de que os seus judeus sefarditas foram alvo, a vila tem hoje uma das mais activas comunidades judias do país. As suas festas, como a Festa das Luzes ou a Festa de Nossa Senhora da Esperança, em Dezembro e Abril, respectivamente, e os seus monumentos e museus, como a menorá, a sinagoga ou o Museu Judaico de Belmonte, reflectem essa ligação a um passado real mas escondido.

Ainda na vila, não podemos perder o castelo e a Igreja de Santiago, a judiaria circundante, bem como os restantes espaços museológicos (que são muitos e bons, tendo em conta a dimensão de Belmonte): o Museu dos Descobrimentos, o Museu do Azeite, e o Ecomuseu do Zêzere.

Fora da sede de concelho e de visita imperativa é o enigmático Centum Cellas, monumento que não encontra paralelo no país, nem na península, e que mais facilmente associamos a civilizações sul americanas, de origem pré-colombiana, transportando-nos para os mitos da Atlântida.

Para dormir, sugere-se a Pousada Convento de Belmonte, cuja piscina nos dá uma das melhores fotografias sobre a Estrela, ou a Casa Marias, bem situada e muito aconchegante. Na restauração, recomendam-se vivamente a Casa do Castelo (o borrego e o cabrito são demasiado bons para os dispensarmos) e, para quem está disposto a gastar um pouco mais, e o Convento de Belmonte Gourmet (cozinha de chef, na companhia de lareira e de uma bela vista de montanha).

Para mais dormidas no concelho de Belmonte, ver caixa de promoções em baixo:

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=40.35783; lon=-7.3506

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