Sé Velha de Coimbra

by | 12 Jun, 2024 | Beira Litoral, Lugares, Monumentos, Províncias, Religiosos

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Quem olha a Sé Velha de Coimbra facilmente se engana e julga ver um castelo – pelo eixo central que se chega à frente e que poderá fazer lembrar uma torre de menagem, pelas secções sobressaídas de esquina que se assemelham a antigos cubelos, ou pelos merlões que decoram a linha superior do monumento. Este aspecto que lhe valeu a classificação de igreja-forte coaduna-se com o contexto em que nasceu, no militarizado processo da tomada cristã de norte para sul, a dita Reconquista.

Coimbra, contudo, foi sempre uma cidade dúbia no que toca à sua inclinação religiosa. Durante o domínio muçulmano continuou a ser maioritariamente cristã, composta acima de tudo por moçárabes, isto é, cristãos que viviam sob administração política sarracena, e a vida comunitária entre as duas fés não parecia oferecer incompatibilidades de maior, havendo até quem entenda que Coimbra foi defendida dos ataques dos cristãos do norte pelos próprios cristãos coimbrenses. Um desses moçárabes, talvez o mais importante que a história precedente à fundação de Portugal teve, foi D. Sesnando, Senhor de Coimbra e homem que de várias formas acabou por autonomizar um território que viria a ser o prenúncio do reino português – o seu túmulo está junto ao claustro da Sé Velha de que aqui falamos.

Mais tarde, e depois da ameaça almorávida ter passado, D. Afonso Henriques fez questão de posicionar Coimbra como terra decididamente seguidora de Cristo assim que a fronteira da Reconquista se moveu do Mondego para o Tejo, e um dos actos que mais o evidenciaram foi o levantamento da Sé. Com efeito, ao mesmo tempo que a Sé se ia estruturando, um novo reino estava em formação, descendente de um Condado de face atlântica, administrado por uma linhagem vinda da Borgonha, que unia a parte sul da antiga Galécia romana aos territórios próximos de Coimbra retomados pelos cristãos do norte ibérico. 

Séculos depois, serviu de tela para que um poderoso bispo lá imprimisse retábulos, pinturas, esculturas, e outros elementos de novas linguagens, lavando-lhe a cara, puxando-a para a lógica Renascentista.

E mesmo agora, vendo-se adjectivada como Sé Velha, por oposição à Sé Nova que, desde o século XVIII, lhe ficou com o título, nem por isso perdeu o elã. Confirmou-se nos tempos modernos como um dos mais acarinhados lugares da comunidade estudantil, que a adoptaram como palco da Serenata Monumental na hora de abertura da Queima das Fitas de Coimbra, um rito que nem a polícia consegue desmanchar.

Da fundação à requalificação

O lugar da Sé de Coimbra já era certamente espaço sagrado antes da sua edificação. Graças a escavações recentes, é sabido que aqui estava um cemitério visigótico. E muito provavelmente foi este o sítio onde estava o templo promovido pelo Conde D. Henrique, destruído pela incursão almorávida aquando do Cerco de Coimbra. A decisão da reedificação partiu de D. Afonso Henriques e do Bispo D. Miguel Salomão e teve um propósito muito claro: coroar Coimbra como terra do lado cristão da Península, em confronto com um sul que ainda estava por conquistar (ou por evangelizar), como de resto já havia sido feito com a mudança da corte de Guimarães para cá. 

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Para a feitura da igreja, contratou-se um mestre de origem francesa residente em Lisboa, de nome Roberto, seguramente o mesmo Roberto responsável pela Sé alfacinha, explicando assim as similitudes óbvias entre os dois monumentos – aos quais devemos juntar, ainda que em menor grau de parentesco, a Sé de Évora. Sabemos que o mestre visitou o estaleiro pelo menos quatro vezes, mas, vivendo fora, um outro se encarregava de acompanhar diariamente o empreendimento – primeiro mestre Bernardo, também de ascendência francesa, e, depois da morte deste, mestre Soeiro.

Corresponde a essa época o lado mais robusto da Sé Velha de Coimbra – ou, dito de outra forma, o lado mais românico, um pouco à semelhança do Mosteiro de Santa Cruz, igualmente em Coimbra, antes de ter sido profundamente alterado por D. Manuel I. Paredes grossas e janelas finas, numa fórmula já bastante utilizada no território setentrional da Península Ibérica, cujo resultado é, invariavelmente, uma igreja de interior marcadamente sombrio, de pouca luz, austera, que convida à clausura. Também os capitéis são cunhados ao gosto românico, maioritariamente de composição simples e de motivos vegetalistas ou animalistas, com zero referências à Bíblia.

E contudo, ao mesmo tempo que imprime nas suas paredes um certo modo nortenho, a Sé assinala algumas novidades estilísticas: na fachada, com o portal axial encimado por um janelão que mais parece um segundo portal, levantado até um piso superior, e que Paulo Pereira defende ser um elemento simbólico da Jerusalém Celeste (será então, nesse caso, o portal de entrada um símbolo do Éden, representando ambas as portas o paraíso da Terra, em baixo, e o paraíso dos céus, em cima?); na pedra, onde aproveita o calcário, numa clara denúncia de que já se encontra numa outra geografia, distante da pátria granítica que encontramos mais a norte; e, como curiosidade, mas de grande importância para a compreensão do momento em que os primeiros blocos foram montados, há uma inscrição na face lateral que contém uma inscrição, em árabe, onde se pode ler “Escrevi isto como recordação permanente do meu sofrimento. A minha mão perecerá um dia, mas a grandeza ficará.”, reveladora de que por aqui trabalharam sarracenos a mando do primeiro rei português.

A sagração acontece em 1184, com algumas partes do monumento ainda por completar. Coimbra era já o novo centro político de um novo reino em formação.

Arcadas do claustro da Sé Velha

O claustro, uma pioneira obra gótica portuguesa

Túmulo de D. Sesnando apoiado em enigmáticas criaturas

Túmulo de D. Sesnando junto ao claustro

Anexos posteriores

Se a arquitectura primitiva da Sé Velha de Coimbra já garante ao visitante uma reconfortante visita, tudo o que se montou depois veio acrescentar variada riqueza a um espaço que se mistura com os mitos da fundação de Portugal.

No início do século XIII, quando já reinava D. Afonso II, iniciou-se o claustro. O rei português foi parte colaborante no empreendimento, muitas vezes contra a autoridade clerical. O claustro mostra-se como trabalho de grande novidade à época, apenas tendo o Mosteiro de Alcobaça como comparação justa. Conta com feição gótica, munido de arcos geminados, todos eles decorados com óculos de irrepetíveis formatos. Numa das capelas a si adossadas vemos a urna do já falado D. Sesnando, homem que soube conciliar duas fés (ou três, se considerarmos o minoritário judaísmo) num só burgo, e que, se calhar sem se aperceber disso, esteve envolvido na formulação de um novo país: Portugal.

Bem mais tarde, no episcopado de D. Jorge de Almeida, decorria a passagem do século XV para o século XVI, uma série de renovações tomaram curso. Viriam alterar para sempre o aspecto da Sé Velha, modernizando-a com as modas vigentes.

Uma delas foi o retábulo-mor, tardo-gótico (ou flamboyant), de tom azulado e dispendiosa execução de dois entalhadores da Flandres, Olivier de Gand e Jean d’Ypres. Ocupa praticamente toda a abside. O assunto central do retábulo é a Assunção de Maria e a sua verticalidade ajuda a que tenhamos essa sugestão sacra da Virgem a elevar-se aos andares Divinos. Em baixo, na predela, os Evangelistas. A ladear Nossa Senhora estão São Pedro e São Paulo mas também os gémeos Cosme e Damião, ambos médicos (haveria aqui algum rito de carácter terapêutico?). Na parte superior, Cristo crucificado como porta para um céu carregado de anjos e estrelas (ou seja, para o Paraíso), onde vemos também o Arcanjo Miguel como guerreiro celeste e Deus Pai esculpido numa das aduelas. Mais esculturas faltam ao políptico original, algumas delas agora guardadas no Museu Nacional Machado de Castro. D. Jorge de Almeida, o encomendador desta magnífica peça, não hesitou em colar o retábulo a si mesmo – a sua mitra e o seu brasão aparecem por duas vezes, sempre ao centro, uma aos pés de Jesus Cristo, outra aos pés de Maria.

Outra deu-se com a importação de azulejaria sevilhana, uma encomenda que foi tratada por Olivier de Gand, um dos flamengos encarregados do retábulo-mor. De geometria mudéjar, os azulejos revestiram boa parte dos panos interiores da igreja, mas a maioria acabou arrancada mais tarde. Alguns ainda estão visíveis. Resta-nos tentar fazer uma extrapolação do que agora se vê para o que antes existia.

Também desta época são as capelas do lado da Epístola e do lado do Evangelho. No absidíolo sul, a decorar a Capela do Sacramento, uma peça vinda da mesma mão que executou as portas laterais da face norte, João de Ruão. Ao centro vemos Cristo em pose de orador. Ao seu lado os apóstolos como sua audiência. O retábulo foi encomendado por D. João Soares de Albergaria, ele que tomou parte do Concílio de Trento, e portanto pessoa bastante inclinada para a resposta espiritual e estética da Contra Reforma à emancipação do Protestantismo. Mostra um invulgar equilíbrio entre o classicismo da Renascença e a narrativa contemporânea da igreja – Jesus como um César, apregoador da Reforma Católica e os apóstolos como seus seguidores, num possível paralelismo intencional entre o Papa e os reinos cristãos europeus. No absidíolo norte, onde está soterrado D. Jorge de Almeida, um retábulo dedicado a São Pedro feito por Nicolau de Santerene. Tido como primeiro Papa da fé cristã, representante de Cristo na Terra, a escolha de São Pedro reforça a linha orientadora de D. Jorge de Almeida como promotor do papado contra as perigosas ideias da Reforma Protestante.

Além destes e de outros acrescentos menores – como alguns dos túmulos, a pia renascentista, determinados objectos e relicários agora fechados no Museu Nacional Machado de Castro -, um outro mural veio alterar por completo a percepção que se tinha da Sé. Até porque foi embutido do lado de fora, na face setentrional do templo, à vista de todos os que, da Alta, se dirigiam para a Baixa, ou vice-versa. Obra-prima de João Ruão, a Porta Especiosa colocou a igreja como um monumento à parte, em Coimbra e em Portugal.

O Santíssimo Sacramento da Sé Velha de Coimbra

Jesus como orador na Capela do Santíssimo Sacramento

Porta Especiosa na fase lateral da Sé Velha de Coimbra

A estética renascentista da Porta Especiosa

A verticalidade do retábulo-mor

Obra-prima do gótico flamejante, ninguém fica indiferentes ao retábulo-mor da Sé Velha

A Porta Especiosa na Sé Velha de Coimbra

A Porta Especiosa é provavelmente a obra maior de João de Ruão (aqui com possível co-autoria de Nicolau Chanterene, ele que esteve envolvido na inovação manuelina do portal do Mosteiro de Santa Cruz), responsável pelo portal que a lateraliza, de acesso ao transepto, e pelo retábulo do Santíssimo Sacramento, no interior, do lado da Epístola.

É dividida em três pisos.

O inferior é composto pelo portal, onde sobressai, no tímpano, uma medalha de Maria a carregar ao colo Jesus ainda menino – a Virgem tem acima de si um par de anjos que preparam a sua coroação. O portal é escavado na pedra, tal e qual como o portal axial, virado a poente. A ideia seria criar uma simetria entre ambas as entradas, isto é, que cada pórtico pudesse ser, na forma, o reflexo do anterior. De facto, se dobrarmos a esquina da Sé e mirarmos ambas as portadas, descontando a diferença no material aplicado, percebemos o efeito de emparelhamento entre uma e outra. Ainda a ornamentar este segmento estão dois medalhões, semelhantes ao da Virgem, mas cujo interior é ocupado por dois rostos masculinos de claríssimo traço clássico. Não fosse o turbante, e qualquer um deles passaria por um Deus grego ou romano – Maria de Lurdes Craveiro argumenta tratarem-se de Ganimedes, no caso do medalhão da ponta direita, ou de Hércules na ponta esquerda. Nos pilares, o Profeta Isaías do lado direito e São João Baptista do lado esquerdo, ambos tidos coomo anunciadores de Cristo.

O piso intermédio inclui um janelão guardado por um varandim de evidente inspiração clássica, em jeito de galeria suspensa, onde o bispo assistia às cerimónias. Em cada um dos lados, como contrafortes manuelinos, cubelos de inclinação militar (ou seja, “Fortalezas da Fé”) parecem agarrar o peso do varandim aos ombros, de estética colada àqueles que vemos no Claustro da Manga, junto do Mosteiro de Santa Cruz.

O superior reserva um nicho agora incompleto, onde figura Santa Ana e estava também o agora desaparecido São Joaquim – em suma, os avós de Cristo, pais de Maria, no seu encontro na Porta Dourada de Jerusalém. O remate desapareceu, sobrando apenas os pilares que o sustentavam.

Imediatamente ao lado da Porta Especiosa, o Portal de Santa Clara – mais uma vez Santa Clara, tão querida da religiosidade coimbrã, talvez por toda a dedicação que a Rainha Santa Isabel lhe prestou e de que hoje são prova os dois mosteiros do outro lado do Mondego, Santa Clara-a-Velha e Santa Clara-a-Nova. Só não se fala tanto nele porque calhou-lhe a injustiça de fazer par com um dos grandes monumentos da Renascença nacional.

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Mapa

Coordenadas de GPS: lat=40.20878 ; lon=-8.42704

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