Mosteiro de Santa Clara-a-Nova

by | 4 Jun, 2024 | Beira Litoral, Lugares, Monumentos, Províncias, Religiosos

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Não é esticado dizer que do mau humor do Mondego nasceu o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova. Foram as manias de um rio que aqui, depois da acidentada Beira interior, quando ganha espaço para galgar as margens e afundar qualquer obra humana na redondeza, por dezenas de vezes obrigou o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha a reestruturar-se com novos patamares cada vez mais levantados do solo. A persistência das inundações foi tal que as desgraçadas Irmãs Clarrissas, fartinhas de lidar com a humidade que lhes corrompia a igreja e a saúde, pediram um novo cenóbio ali perto. O pedido foi acedido numa época de vacas magras, mas nem por isso o jovem convento deixou de ser uma das marcas patrimoniais de Coimbra.

Para mais, o complexo religioso a que alguns também chamam de Mosteiro da Rainha Santa Isabel, bate-se quase de igual com a Universidade de Coimbra – a poente, o mosteiro enquanto edifício dominante do Monte da Esperança, a colina na margem esquerda do Mondego que melhor fotografia promete para a cidade-estudante; a nascente, a universidade como coroa da dita Alta coimbrã, o espaço escolar por excelência do burgo e, bem se entenda, do país. São, de certa forma, a parelha monumental que baliza a história de uma cidade onde germinou a nacionalidade portuguesa, no sentido em que quase tudo o que há para ver em termos de património arquitectónico e cultural se encontra entre um e outro ponto.

Da velha à nova Santa Clara

Estando de visita ao convento de Clara-a-Nova, para se conhecer o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha não é preciso ir muito longe. Basta descer o monte da Esperança até ao seu sopé, tendo o Mondego ao nível dos pés, e lá está ele, com o seu reconhecível campanário, e todas as sobras que se foram destapando do lodo onde se esconderam por séculos. Esse foi fundado por D. Mor Dias, embora com oposição do hegemónico Mosteiro de Santa Cruz, sito do lado oposto do rio, que por pressão política fez de tudo para o fechar. Conseguiu-o. No entanto, Santa Isabel tornou a abrir-lhe portas e criou com ele uma relação tão estreita que decidiu pôr aí o seu último poiso, encomendando para isso um túmulo à prolífica escola de escultores de Coimbra.

Todavia, o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha viu-se enguiçado pelos vaipes de um Mondego imprevisível, sobretudo nos meses das chuvas, quando transbordava para invadir territórios pouco preparados para aluviões. As intermitentes cheias geraram um coro de protestos junto das Irmãs que, mal Portugal dobrou o cabo da independência em 1640, dirigiram-se ao seu novo rei, D. João IV, com o propósito de este lhes entregar novo espaço.

Apesar do esforço de guerra – a Guerra da Restauração esticou-se até 1628 -, D. João IV anuiu. Porém, o contexto da contenda com Castela acaba por estar também presente no traço original do cenóbio, estando o reino português carregado de arquitectos e engenheiros militares e saindo desse lote o homem que riscou o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova: João Torriano, que na altura dava aulas de matemática na cidade de Coimbra, e ele mesmo descendente de família respeitável no traçado de fortalezas defensivas.

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De resto, o edifício do dormitório, de estilo maneirista, correspondente a toda aquela parede a norte da igreja, tem esse modo despido de adornos que assemelhamos a alguma arquitectura militarizada. Esse projecto primitivo produzido por João Torriano tornar-se-ia o esboço primo das divisões civis do convento (isto é, excluindo a igreja), mesmo décadas depois, com as variadíssimas alterações que viriam a acontecer.

A obra inicia-se no Verão de 1649. Começa a empreitada pelo dormitório para dar prioridade à transferência das Clarissas dos húmidos e bolorentos quartos do convento velho para o novo. A pouco e pouco, à medida que o espaço o vai permitindo, mudam-se as irmãs para as novas instalações, a par com muitas das pinturas antes exibidas no velho mosteiro. Só em 1677 a migração total das Irmãs terminou, com direito a romagem acompanhada pelo corpo embalsamado da Rainha Santa, ficando o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha definitivamente entregue aos impulsos fluviais. Cá em cima, no noviço convento, já com Mateus do Couto na direcção, a vida começava a acontecer, com o levantamento do dormitório, da cozinha, dos lavabos, e do refeitório. A igreja levou mais tempo a estar operacional, e apenas recebeu sagração em 1696.

Escultura da rainha D. Isabel, coroada e em pose milagreira

Estátua à Rainha Santa Isabel no pátio de entrada

Escudo dividido entre as cores do reino de Aragão e do reino de Portugal

Portugal e Aragão, as cores do brasão como reflexo das cores da Rainha

Anjos seguram brasão dividido entre Portugal e Aragão no portal de acesso ao Mosteiro de Santa Clara-a-Nova

Anjos ladeiam brasão dividido entre Portugal e Aragão numa alusão à Rainha Santa – nascida em Aragão, rainha em Portugal

A igreja e o recheio

Se do lado de fora e até no interior das zonas do quotidiano monacal, como a zona dos quartos (na ala norte) e a cozinha ou o refeitório (perpendiculares à nave, no lado poente), houve uma assumida contenção decorativa, o mesmo não se pode considerar acerca da igreja, mais ainda se formos para dentro de portas.

O templo de Santa Clara-a-Nova foi um work in progress por mais de um século e, como tal, um repositório de diversas influências, com o barroco a liderar as hostes. Teve início de obra com a chegada das Clarissas, seguia o ano de 1677, e contou com distintas fases, da construção da nave, aos coros, aos retábulos laterais, ao retábulo-mor, e a estas há que somar todo o espólio recebido do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, entretanto desamparado. Cem anos depois da primeira pedra ser lançada, ainda há relatos da chegada de pinturas e órgãos e talhas a enriquecerem as suas paredes.

A encher o olho, temos qualquer um dos retábulos laterais, de cunho portuense, cheios de ouro entalhado e com baixos relevos de variados temas, alguns deles remetendo para a Rainha Santa e o seu Milagre das Rosas, outros para episódios da vida do seu marido, o rei D. Dinis, de boa memória, outros ainda para São Francisco, ele que fundou a Ordem de Santa Clara aqui residente. São todos de excelente execução. Idem para o retábulo-mor, este de outra escala, com direito a trono e à honra de receber o segundo túmulo da Rainha Santa Isabel, obra luxuosa seiscentista de prata e cristal que actualmente recebe o seu corpo e que escapou às mãos das tropas de Napoleão ao ser ocultada entre paredes pouco óbvias. Diante da capela-mor vemos uma escultura de D. Isabel de “impecável e transcendente serenidade”, como reportou Sant’Anna Dionísio, elaborada por Teixeira Lopes – é esta imagem que se passeia nas ruas de Coimbra aquando da festa dedicada à santa.

Os coros são, cada um por si, um monumento. Estão separados da igreja por intermédio de grades amadeiradas e funcionavam como salas independentes, antes apenas acedidas pelas Irmãs.

O coro-alto transformou-se praticamente numa casa-museu, dadas as preciosidades que foi coleccionando. É por aí que está o magnífico cadeiral que serviu as Clarissas durante os anos que lá dormiram, até ao encerramento do mosteiro logo que o liberalismo veio decretar o final das Ordens religiosas – e que aqui se verificou depois da morte da última freira residente.

O coro-baixo alberga o túmulo primitivo da Rainha Santa Isabel, de estilo gótico, esculpido por Mestre Pero, que se encontrava antes no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. A urna da sua neta, filha de D. Afonso IV, que morreu precocemente, encontra-se junto ao gradeamento que separa a nave do coro-baixo, a par com a tumba destinada à mulher do infante D. Pedro, Isabel de Urgel, Duquesa de Coimbra, e que na verdade recebeu o corpo de uma filha sua.

Os túmulos de D. Isabel de Aragão funcionam bem como paralelismo dos conventos. Se para um Mosteiro de Santa Clara-a-Nova houve um Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, também para o actual túmulo da Rainha Santa houve um antigo. A urna recente é maioritariamente uma obra de ourivesaria de influência lisboeta, a urna primitiva é fundamentalmente uma obra de escultura de carimbo coimbrão.

Eu, se me perguntarem, prefiro a versão original. Primeiro, por ser aquela que a rainha entendeu ser sua, como último destino – foi ela que acompanhou a obra do seu próprio túmulo, por mais macabro que isso soe, ainda em vida. Segundo, porque a acho mais condizente com a austeridade da Ordem de Santa Clara ou da fundacional Ordem de São Francisco. Neste sepulcro, onde agora ninguém mora, vemos um trabalho feito num monolito calcário, onde se destaca a imagem da Rainha Santa no topo do tampo, vestida com hábito, como se mais uma Clarissa fosse (ela que nem sequer fez o voto de pobreza exigido), e com a bengala e a bolsa de Santiago ao lado, numa referência às peregrinações de D. Isabel ao santuário jacobino e à sua faceta solidária por que se tornou tão amada. Tem os olhos bem abertos, diria até despertos, numa negação da sua finitude, o que, sejamos honestos, acabou por se verificar: Isabel de Aragão virou a mais intemporal das rainhas portuguesas, com centenas de cultos espalhados pelo país, mas com maior concentração na zona Centro. Nos ângulos, animais representam os quatro Apóstolos – o leão como São Marcos, a águia como São João, o touro como São Lucas, o homem como São Mateus. À urna se associam alguns milagres curandeiros vindos de mulheres que sararam as suas dores ou enfermidades ao lhe tocarem.

Imagem em representação do Milagre das Rosas, no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, Coimbra

Imagem cultuada nas Festas de Santa Isabel

Talhas nas capelas laterais do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, Coimbra

Pequenas capelas laterais com exuberantes talhas ao gosto portuense

Claustro de dois pisos do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, Coimbra

Jardim e claustro de dois pisos com a Imaculada Conceição no lugar da habitual fonte

Escultura, trono, e urna da Rainha Santa no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova

A inebriante talha da capela-mor, com o túmulo da Rainha Santa ao fundo

O claustro

Quanto ao claustro, de dois pisos, actualmente ajardinado com belas e raras flores (entre as quais as rosas, as tais rosas das lendas de Isabel de Aragão, do pão que nelas se transformava, e do cheiro que emanava do seu corpo já depois de finado), é frequentemente atribuído a Carlos Mardel, quando na realidade passou por muitas mãos até chegar à responsabilidade do magiar reconhecido por erigir o Aqueduto das Águas Livres, a Mãe d’Água, ou o Palácio do Marquês de Pombal, todos famosos monumentos setecentistas da Grande Lisboa.

Na verdade, sendo justo, o claustro é uma redundante remontagem do que antes havia. Passou até por processos de arruinamento e de demolição de algumas das suas partes, muito em especial a ala a virada a oeste. Foi talvez isso que fez com que se reforçasse tanto a sua base, com pilares de uma excepcional envergadura.

Fruto da demora da sua conclusão, que bem ou mal acabou por assistir a várias modas, o claustro exibe-se como uma rica mistura entre a sobriedade maneirista e a profusão do barroco, ou entre o Portugal de parcos recursos que se seguiu à Restauração e o Portugal joanino de despreocupado despesismo graças ao ouro brasileiro, ou ainda entre um país seiscentista que promovia a arquitectura militar e um país acolhedor das teorias iluministas centro europeias. Tem ainda um aspecto funcional, de interligação entre a igreja e o corredor de acesso ao refeitório, de um lado, e ao dormitório, do outro. Ao centro, onde deveria ficar uma fonte, como é aliás apanágio nestas geometrias, está um monumento vertical dedicado à Imaculada Conceição, estatuária a apontar ao céu que contrasta com a leitura horizontal da envolvente. À falta do fontanário central, compensou-se com quatro pequenas fontes nos cantos, como símbolo dos quatro rios do Paraíso.

O claustro foi a última grandiosa construção do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova. Com a vitória do Liberalismo na Guerra Civil que opôs Miguelistas e Pedristas, entra em curso um processo de secularização nacional. No final do século XIX, o convento esvazia-se. Daí para a frente, apenas há a notar as utilitárias edificações feitas aquando da incorporação de parte do cenóbio nas infraestruturas do exército português, ficando a restante parte ao cuidado da Confraria da Rainha Santa Isabel. As Forças Armadas portuguesas, entretanto, saíram corria o ano de 2006.

Desenvolvimentos recentes apontam o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova como um futuro hotel de cinco estrelas para evitar que caia em irreversível estado de decadência. Há vozes contra, nomeadamente vindas de artistas que aqui se habituaram a vir por ocasião da Bienal Anozero, evento de mostra de arte contemporânea que tem no convento o seu espaço principal de exposição.

Túmulo primo da Rainha Santa Isabel

O primitivo túmulo gótico da Rainha Santa

Cadeiral no coro-alto do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, Coimbra

O bonito cadeiral do coro-alto

Promoções para dormidas em Coimbra

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=40.20259 ; lon=-8.43724

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