Praia dos Três Irmãos

by | 10 Jan, 2024 | Algarve, Lugares, Natureza, Praias, Províncias

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No concelho de Portimão, do lado de Alvor, há uma longa faixa de areia que vai da Prainha até à ria. Um passadiço que acompanha a costa permite fazer o caminho de uma ponta à outra. É nessa passada que percebemos como, apesar de estarmos num areal ininterrupto, existem duas realidades bem distintas que acabam por justificar que aquela imensa praia se tenha dividido em duas. A ocidente, a Praia de Alvor, menos frequentada, mais ventosa, limpa de falésias e antecedida por dunas. A oriente, a Praia dos Três Irmãos, resguardada por arribas, embelezada com leixões, e cercada por unidades de hotelaria que a carregam de banhistas.

Falésias de barro e falésias de betão

Não é de agora, mas a ânsia de meter centenas de janelas viradas para o mar tem crescido ao ponto de se procurar a edificação em altura, numa de rentabilizar cada metro quadrado de terra que exista junto da costa portuguesa. O Algarve, nesse aspecto, por beneficiar de condições de praia que nenhuma outra província goza, tornou-se o mais atormentado cantão nacional no que respeita à pressão imobiliária. Damos a melhor vista possível a quem paga por um quarto nessas torres de argamassa, raramente se olhando para o reverso da medalha: a vista de quem está na praia, que tem nas costas uma fileira de prédios frios, impessoais, e sobretudo desenraizados do lugar onde nasceram.

A Praia dos Três Irmãos ainda não está totalmente invadida pela horda de empreendimentos que se vê, por exemplo, na Praia da Rocha. Ainda. A cada ano que passa surgem boatos, notícias, confirmações de mais e mais construção. Resta-nos rezar para que não sejam paralelepípedos de quatro ou cinco ou mais andares. Para já, o que salta à vista são os blocos da Torralta – descuidadas estruturas prestes a pôr a pata na areia e destoadas da envolvente, embora relativamente espaçadas. Não nos sentimos, até ver, sitiados como acontece noutros pontos do Barlavento. Veremos por quanto tempo.

Por agora, dá para respirar, sobretudo se formos em direcção à ponta nascente da enseada, onde os alcantis mergulham os pés. Por aí, as escarpas, em dentadura, criam pequenos areais que na maré cheia passam por praias independentes. De ocidente para oriente, temos uma primeira entre o restaurante Atlântida e um penhasco que se estica até ao Atlântico; uma segunda entre o restaurante Sol e Sombra e um novo desfiladeiro que surge a leste, paralelo ao primeiro; e uma terceira à qual se acede por um duplo arco vazado na rocha e que é tão bonita que ganhou um nome só seu – a Prainha.

É também neste canto que estão os três leixões que, aparentemente, deram nome à praia…

Túnel de acesso à Prainha

As portas para a Prainha

A lenda dos Três Irmãos

Margarida Tengarrinha fez um magnífico trabalho de recolha da tradição oral no município de Portimão, o seu concelho de nascença. Uma das lendas ouvida e reproduzida em papel nota que há três formações rochosas nesta enseada que, na verdade, eram três irmãos, todos eles homens da faina, que numa tempestade caíram ao mar. Mesmo pedindo ajuda divina, ela não veio, e enfim petrificaram.

Margarida Tengarrinha esclarece que alguma parte da lenda deverá ter sido apagada pelo tempo. Na minha perspectiva, com razão. Uma lenda portuguesa que relata a transformação de alguém em pedra normalmente sugere que a petrificação se deve a um castigo, e a causa do castigo está ligada a um qualquer incumprimento (a uma pessoa, a um Deus, até ao Diabo).

Em Sintra, aliás, há uma lenda que tenta fundamentar os afloramentos rochosos que se encontram na Praia da Ursa. Nesse caso, os leixões seriam a mãe ursa e os seus filhotes, que desafiaram as ordens dos Deuses e acabaram em pedra. Por analogia, inclino-me para que o fragmento em falta na lenda discorrida por Margarida Tengarrinha estivesse relacionado com uma ordem celeste ignorada pelos três irmãos pescadores.

Talvez o naufrágio tenha realmente acontecido, e a crença sobredita é uma sobra histórica do evento. Com efeito, com tanto calhau submerso, não é difícil imaginar uma tragédia a acontecer no mar de Alvor. Assim sendo, a juntar às dúvidas já levantadas, deixo outra. Os três irmãos mencionados são habitualmente atribuídos aos três leixões dianteiros que se encontram mais ou menos alinhados com o restaurante Atlântida – e o terceiro, pelas minhas contas, só dá de si na baixa-mar. Contudo, temos três outros leixões diante da Prainha, até mais evidentes e porventura num lugar mais propício a afundar uma embarcação. Tendo em conta que a Praia dos Três Irmãos e a Prainha são contíguas, poderemos estar a ver os três irmãos nos rochedos errados?

Tarde na Praia dos Três Irmãos

Os possíveis três irmãos da Praia dos Três Irmãos

Areal da Prainha com leixões ao fundo

Os possíveis três irmãos da Prainha

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Coordenadas de GPS: lat=37.1193 ​; lon=-8.5804