Tapetes de Arraiolos

by | 4 Mai, 2020 | Alto Alentejo, Culturais, Províncias, Tradições

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A arte da tecelagem tem uma tradição milenar nas mãos muçulmanas. Poderão ter vindo dessa sabedoria os Tapetes de Arraiolos, provavelmente o têxtil mais famoso do país.

Origem

Como em quase tudo na história, há teorias que reúnem mais consensos do que outras.

Segundo se diz, terá sido a expulsão, por parte de D. Manuel I, de alguns mouros da mouraria lisboeta, que levou a que alguns desses homens se tenham fixado em Arraiolos – outros terão, eventualmente, seguido para terras de Espanha ou até norte africanas.

Os mouros, antes lisboetas, agora arraiolenses, conseguiram de alguma maneira conviver com a população local – possivelmente transformando-se em Cristãos novos -, e dedicaram-se aos seus tradicionais ofícios, sendo um deles o milenar bordado que resultava numa tapeçaria de padrões simétricos, inequivocamente bela.

Certo é que a primeira referência aos tapetes tenha acontecido quase um século depois da tal expulsão, nos últimos anos do século XVI, e que estes só tenham sido reconhecidos como produto de excepção na segunda metade do século XVII, quando a sua produção era não só de artesãs particulares mas também de origem conventual.

Técnica e certificação

Para que se fale em tapetes feitos especificamente em determinado sítio, é preciso que estes tenham alguma coisa de diferenciadora. Algo que os distinga do ponto de vista técnico.

Em Arraiolos, o que coloca os tapetes noutro campeonato é o ponto de Arraiolo, um ponto do tipo cruzado passado de uma geração de bordadeiras para outra (e actualmente difundido um pouco por todo o mundo, nomeadamente no Brasil). A técnica é aplicada numa tela de fio de juta ou de algodão ou de linho, sendo a linha que borda de lã pura, entregando-lhe o característico cheiro a ovelha. A lã que desenha os padrões, antes recolhida na região, vem, nos dias que correm, de Minde, e foi precisamente esta necessidade de negociar tecidos têxteis que colocou essa terra ribatejana a falar um calão muito próprio de que já aqui falámos, a Piação.

Não deverá ser necessário dizer, mas nunca fiando: os Tapetes de Arraiolos são feitos artesanalmente pelas cada vez mais escassas bordadeiras arraiolenses. Isso só por si explica o preço da compra presencial, à peça, em Arraiolos – porque a melhor garantia de estarmos a adquirir um genuíno é mesmo indo lá. Podemos confirmar a sua autenticidade olhando para os pontos – o trabalho manual nem sempre é perfeito, e essas ligeiríssimas falhas humanas estão lá. É isto, esta vivacidade da falha, por muito pequena que seja, que cada vez mais vamos começar a pagar, e ainda bem. Pagamos algo que seja feito pelas mãos de alguém, porque um tapete bordado por uma pessoa tem, de certa forma, a alma do bordador lá impregnada, ao contrário de um tapete cosido em linha de montagem com um padrão que pode ser replicável noutras cem mil telas. Isto para não falar da durabilidade do Tapete de Arraiolos, claramente superior a outros semelhantes que se intitulam tipo Arraiolos, admitindo que se garantem os cuidados necessários à sua manutenção (as lavagens obrigam a muito cuidado e, por isso mesmo, deverão ser feitas por empresas que se dedicam a isso).

O processo para a certificação dos Tapetes de Arraiolos conta já com mais de uma década. Uma longa batalha que esperemos que tenha fim à vista. Estuda-se também a hipótese de candidatura a Património da Humanidade, patente da UNESCO. Até lá, para facilitar a autenticação dos tapetes, a Câmara Municipal de Arraiolos listou as casas que os fazem. Também o CITA, o Centro Interpretativo do Tapete de Arraiolos que se encontra no centro da vila, ajuda o cidadão menos informado a compreender e identificar as obras genuínas.

Os padrões

São, por vezes, comparados com os Tepetes Persas ou Turcos, o que se justifica pela escolha de padrões simétricos e de motivos orientais, sobretudo na sua fase inicial. A principal diferença entre o Tapete de Arraiolos e os dois supracitados é, como já foi mencionado, o ponto usado na tela. Mas não só, já que a tapeçaria persa se recorria de um tear e a arraiolense era feita sem essa ajuda – ou seja, era cem por cento manual, fruto de um trabalho marreco de pacientes bordadeiras.

Contudo, a evolução dos Tapetes de Arraiolos foi afastando a sua estética erudita associada ao padrão persa (e já agora, à própria azulejaria nacional), substituindo-a por um enquadramento popular.

Progressivamente, motivos idiossincráticos de Arraiolos deram à tapeçaria um cunho regional – animais e trabalhos do campo entram no desenho. Outros buscavam inspiração no Manuelino contribuindo para uma beleza mais portuguesa. Posteriormente, adicionaram-se motivos florísticos (que já estavam de alguma forma presentes na influência persa e turca) – será por esta altura que começaram a forrar o chão e as paredes de solares e de conventos pelo país fora.

Terá sido porventura a preferência pelos motivos exclusivamente vegetalistas que provocou um decréscimo na procura dos tapetes – e, consequentemente, na produção -, fenómeno que se terá verificado na segunda metade do século XIX (estaria então a decorrer a Revolução Industrial, pondo do avesso quase todos os hábitos de consumo no mundo).

O regresso à manufactura deu-se no passado século quando algumas bordadeiras, pegando em exemplares antigos, reproduziram padrões e estruturas seiscentistas e setecentistas, razão pela qual se assistiu a um reaproximar do Tapete de Arraiolos à sua estética inicial de aparência oriental.

Claro está que, hoje, a habitual cedência ao que é fácil (e, portanto, barato) acaba por arruinar quem põe a qualidade em primeiro lugar. A própria vila de Arraiolos já se tornou vítima disso, sendo por vezes possível encontrar por lá imitações made in China. A globalização acaba por nos mostrar esta desigual realidade: dois produtos são colocados em montra quase lado a lado, tendo o primeiro um preço de venda que é mais baixo do que o custo da matéria prima do segundo.

De qualquer forma, e para acabar numa toada positiva, todos os anos, no mês de Maio, o festival “O tapete está na rua” pretende promover as célebres tapeçarias da vila do Alto Alentejo. Uma boa forma de conhecermos os verdadeiros Tapetes de Arraiolos em todos os seus feitios.

Arraiolos – o que fazer, onde comer, onde dormir

Terra de bons vinhos, de bons túbaros e empadas, e dos óbvios tapetes, Arraiolos tem outros alvos turísticos: o castelo circular, para começar; mas também o belo Convento dos Lóios; a Casa da Sempre Noiva; ou a Anta de Arraiolos.

O melhor sítio para ficar no centro da vila é a Casa do Platano, onde os hóspedes são envolvidos pelos antigos mistérios dos chakras. Para algo menos fora da caixa, a Arraiolos Villa, também dentro da povoação, tem boas instalações, quartos amplos, e salão com bilhar.

Mais ofertas para dormidas em Arraiolos poderão ser vistas em baixo: