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Apesar da concentração de Solares, nomeadamente de estilo barroco, se situar no norte do país, sobretudo no Minho, há um que merece ser discutido, pela singularidade, no Alto Alentejo: a Casa da Sempre Noiva. É hoje, como sempre foi, propriedade privada. Mas de fora topamos-lhe bem o aspecto de casa senhorial do sul português.

História e espaço

A Casa da Sempre Noiva, também conhecida por Paço ou Solar da Sempre Noiva, é um palacete construído numa elevação próxima da vila de Arraiolos.

Aquele espaço já teria sido, antes, colonizado por romanos, e só mais tarde começou a ganhar a feição que reconhecemos quando olhamos para ela hoje. Passou pela família dos Dragos e foi apropriado posteriormente pelo próprio bispo de Évora, através de permuta.

O embrião de tudo isto que agora se vê, foi a torre, erigida, provavelmente, no século XIV. Dali, de forma concêntrica, começaram a surgir novos espaços, logo no século seguinte, como a casa senhorial, o alpendre, e a ermida, acrescentados por Afonso de Portugal, o já mencionado bispo de Évora, cuja descendência tratou de dar continuidade à evolução do monumento – sobretudo pelo filho Francisco (primeiro Conde de Vimioso) e pela filha Beatriz, que instituiu morgadio na propriedade.

Curiosos são os trejeitos arquitectónicos escolhidos, fundindo os toques mouriscos com os preceitos manuelinos e algum gótico à mistura, num encaixe de linhas e cores perfeito com a paisagem alentejana.

Contudo, mais do que a descrição formal do monumento, há uma série de lendas que lhe são atribuídas. É a elas que vamos porque a alma dos sítios também está no que não se consegue palpar.

Casa da Sempre-Noiva vista de fora dos muros

Vista exterior da Casa da Sempre Noiva

A lenda da Sempre Noiva

As narrativas relativas à Sempre Noiva misturam-se em variadíssimas versões, quase todas elas conhecidas do povo arraiolense.

Relataremos cada uma delas, de forma resumida.

Primeira lenda da Sempre Noiva

Uma bela donzela, de cabelos loiros, vivia numa casa solarenga, num monte perto de Arraiolos. Numa altura em que os casamentos serviam outras causas, o rei prometeu-lhe casamento com um fidalgo espanhol.

No entanto, num dia em que um touro se preparava para atacar a bela mulher, e estando o seu noivo a seu lado, este nada fez, fugindo do animal como pôde, e deixando a sua mulher à mercê da investida. Por acaso um pastor estava por perto e conseguiu salvar a donzela. Logo ela se apaixonou pelo pastor e anunciou casamento, mas a cerimónia nunca se realizou por desaprovação do seu pai.

E assim ficou, a mulher, para sempre noiva.

Segunda lenda da Sempre Noiva

Uma bela mulher, de sangue nobre, tinha num cerro junto de Arraiolos o seu deslumbrante palácio.

A sua condição obrigava-a, várias vezes, a ir a Lisboa falar com a poderosa aristocracia. Numa altura em que as lutas contra Castela estavam a chegar ao seu pico, o Mestre de Avis entendeu que a fidalga deveria casar com um conde castelhano. Infelizmente, enquanto ambos estavam noivos, o conde foi vítima de uma praga, e faleceu.

Mais tarde, Afonso de Trastâmara, um outro castelhano que há já muito tempo conhecia a bela mulher e se havia apaixonado por ela, decidiu pedi-la em casamento. Afonso de Trastâmara morreu também, desta vez em batalha, lutando pelo lado português.

Depois ficou prometida ao próprio Nun’Alvares Pereira, mas este recusa o casamento, talvez por querer levar avante o seu voto de castidade.

Por fim, seria mesmo a bela fidalga, cansada das tramas do destino que lhe tentaram impor, que resolve escolher o amado. Apaixona-se por um homem, segundo relatos conselheiro do rei. Mas o rei, dizem que por ciúme, não aprova a relação, e decide matar o conselheiro, queimando-o vivo para que toda a gente visse.

A pobre fidalga resolveu fugir e nunca mais se soube dela nem de qualquer novo casamento. E quando sobre ela falavam, passou o povo a dizer: a sempre noiva.

Terceira lenda da Sempre Noiva

Uma bela fidalga residia num castelo arraiolense. Estaria prometida a um cavaleiro que, infelizmente, teve de partir para a guerra antes do casamento se consumar. Ficou noiva a pobre mulher por anos a fio, à espera do seu amado, que acabou por regressar, muitos anos depois.

E o casamento acabou mesmo por acontecer, mas a idade da fidalga já pesava e deixava-a envergonhada ter de mostrar a beleza que o tempo levou. Assim, apareceu no casamento embrulhada num tapete de Arraiolos.

Daqui se originou a expressão guardada para alguém que demora demasiado tempo a pôr-se bonito, ainda hoje dita na vila: pareces a noiva de Arraiolos.

Conclusão acerca das lendas

Muitos, entre opiniões eruditas e populares, são os que associam a sempre noiva a Beatriz ou Brites de Portugal, filha do bispo Afonso de Portugal, já que ela, na realidade, nunca chegou a casar. O problema é que o nome da Casa da Sempre Noiva parece existir antes de ela lá ter vivido. E como tal, houve quem procurasse outras explicações.

Uma teoria defende que sempre noiva é corruptela de centinodia, planta que por aqui existia muito e que acabou por nomear o monte. Uma outra afirma que nestas imediações se fixou uma aldeia com o nome de Sempre Nova, e que a classe popular transformou depois em Sempre Noiva. Contudo, e visto estarmos a especular sobre uma lenda, não podemos pôr de parte o facto de uma outra sempre noiva ter por cá vivido, anterior a Beatriz.

De resto, há qualquer coisa de antagónico na junção dos termos sempre e noiva. O advérbio parece negar o substantivo, porque estar noiva é, por necessidade, um estado passageiro.

Recordemos as palavras pessoanas, falta cumprir-se Portugal, porque sempre noiva lembra isso mesmo: uma eterna esperança do que há-de vir, ou, indo a um sentir muito português, a um destino anunciado mas que estará sempre por realizar.

Arraiolos – o que fazer, onde comer, onde dormir

Terra de bons vinhos, de bons túbaros e empadas, e dos óbvios tapetes, Arraiolos tem outros alvos turísticos: o castelo circular, para começar; mas também o belo Convento dos Lóios; a Casa da Sempre Noiva; ou a Anta de Arraiolos.

O melhor sítio para ficar no centro da vila é a Casa do Platano, onde os hóspedes são envolvidos pelos antigos mistérios dos chakras. Para algo menos fora da caixa, a Arraiolos Villa, também dentro da povoação, tem boas instalações, quartos amplos, e salão com bilhar.

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Mapa

Coordenadas de GPS: lat=38.69499; lon=-7.96885