Igreja Matriz de Portimão

by | 21 Nov, 2023 | Algarve, Lugares, Monumentos, Províncias, Religiosos

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Também designada Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a Igreja Matriz de Portimão é o grande marco de património edificado no concelho, apenas competindo com a Necrópole de Alcalar e com a Igreja do Colégio. Raul Proença assume até que o templo é a única coisa a mencionar numa visita a Portimão, afirmação que hoje se conclui ter sido feita à luz do seu tempo, pois que hoje Portimão tem muito mais a oferecer do que na primeira metade do século XX.

A igreja do povo portimonense

Até há poucos anos considerava-se a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, justamente construída num modesto cerro dentro da antiga cerca velha e tida como o medular activo da cidade de Portimão, como uma iniciativa do donatário da vila, Gonçalo Vaz de Castelo Branco, tendo por base o brasão alusivo à família que lá se encontra. Nuno Campos Inácio trouxe uma nova perspectiva num livro recente dedicado exclusivamente ao estudo da predominante igreja portimonense ao escrever que a decisão partiu do povo e não de um nobre, de um donatário, ou de um alcaide, numa solicitação ao então Bispo do Algarve, de imediato legitimada. Acrescenta Nuno Campos Inácio que em 1480 as missas já eram celebradas e, como tal, o ano dado como data da sua construção, 1476, é porventura errado, sendo possivelmente dez anos mais antiga do que se pensava e completa ao defender que o novo templo pode ter sido levantado num chão de escombros de um outro mais pequeno.

Esta faceta de igreja do povo nunca foi abandonada. Com efeito, a Igreja Matriz de Portimão foi frequentemente abalada por um dos mais destruidores fenómenos do sul do país – o sismo -, e nesses momentos de angústia lá veio a vontade popular em seu socorro. O terramoto de 1755 é o mais óbvio, mas não foi o único. Já antes, em 1719, houve um. Em 1721, outro. Em 1722, outro. Todos eles tiveram o Algarve como principal foco de destruição. O que fez com que a requalificação da Igreja de Nossa Senhora da Conceição fosse um trabalho contínuo sustentado pelo esforço da população.

Assim se explica que, nos panos exteriores, haja uma notória diferença de estilos. O pórtico foi um dos poucos sobreviventes aos abanões sísmicos e por isso manteve a sua feição primitiva, de tom gótico, ou tardo-gótico para ser mais preciso. Já a restante fachada, sobretudo a sua parte cimeira, tem o influxo do rococó francês do século XVIII. Foi esta reciclagem oitocentista que emprestou à Igreja Matriz de Portimão a aparência corrente.

Como curiosidade, trago à baila o nome de duas das sete capelas que constavam na igreja original, isto é, na fase anterior aos terramotos do século XVIII: a Capela da Senhora do Rosário dos Pretos e a Capela da Senhora do Rosário dos Brancos. Os nomes não enganam. Reflectem a realidade de Portimão dos séculos XVI e XVII, quando o comércio e o uso de escravos alterou a demografia da região. O que levou a que na mesma igreja se distinguisse o culto da Senhora do Rosário para algarvios, de um lado, e para descendentes africanos, do outro, é ainda uma incógnita. A segregação pode ser uma das explicações, mas nesse caso não faria sentido desviar a devoção da comunidade negra para outro espaço que não o da Igreja Matriz? Afigura-se muito provável a hipótese de haver duas imagens de Nossa Senhora do Rosário adaptadas às duas culturas – uma revestida de contornos mais mediterrânicos, outra inserida num contexto mais subsahariano.

Torre e parte da fachada da Igreja Matriz de Portimão

O rococó na torre e no topo da fachada

Escultura do brasão da família Castelo Branco

Brasão da família Castelo Branco

Os vários estilos da Igreja de Nossa Senhora da Conceição

Parece consensual que o portal é a jóia da Igreja Matriz de Portimão. Pedro Dias destaca-o como uma “obra de grande elegância” e realça a sua parecença com o do Mosteiro da Batalha, salvo seja, digo eu, porque este é de uma extravagância e de um detalhe que aqui não vemos. José Saramago concorda, e reitera que “o melhor [da igreja] está à vista de toda a gente, e é o pórtico”, isto apesar de ele próprio confessar que não conseguiu entrar no santuário para lhe mirar o interior.

De facto, aqui para nós, o pórtico sobressai, não só pela beleza mas pela diferença. Trata-se de uma das poucas coisas que sobrou aos tremores que arruinaram boa parte da igreja, com pedra calcária a dar cara a belos colunelos e a uma arquivolta superior especialmente bonita. Nos flancos do pórtico, em cima, as esculturas de São Pedro e de São Paulo foram colocadas depois, mas parecem completar uma obra começada séculos antes. Todavia, o enfoque no portal de entrada não deve retirar-nos a atenção da metade supra da fachada, quer nas linhas contracurvadas do topo, num apurado rococó de cores solares, quer na torre, uma elegante obra vista de fora que, por dentro, revela uma manta de retalhos de vários materiais engenhosamente disfarçada.

Lá dentro, a luminosidade não cessa. A fulminante luz algarvia entra por qualquer rasgo que exista na parede, e as três naves comunicam de tal forma que não há canto sombrio a apontar. Ao fundo, é profuso o retábulo da capela-mor, dedicado à Senhora da Conceição, escultura de Manuel Martins, o mesmo que empunhou o formão para laminar algumas obras presentes na imponente Igreja do Colégio, também em Portimão, onde, não por acaso, reside um retábulo-mor em tudo semelhante a este. Toda a ousia é um desafio para os olhos. Um vórtice de oiro, madeira, e mitologia. Um majestoso trabalho que coloca dúvidas na asserção de Saramago de que o melhor da igreja está lá fora à vista de todos. Quanto à Senhora da Conceição que se encontra ao centro, é a mesma que se faz passear em romaria no início de Dezembro.

Ladeiam a capela-mor duas outras capelas, a do Santíssimo Sacramento e a do Senhor dos Passos, com menos interesse. As pias, de linhas manuelinas, são velhas e arruivadas, também sobreviventes aos sismos setecentistas. No piso superior, ao qual se acede pelas escadas da torre, há um magnífico órgão que serve todos os interessados na sonoridade sacra, mormente durante o Festival de Órgão do Algarve, que, no mês de Novembro, tem sempre paragem na Igreja Matriz de Portimão.

Retábulo em ouro e madeira de nogueira dedicado à Senhora da Conceição

Retábulo dedicado à Senhora da Conceição

Órgão tubular da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Portimão

Órgão tubular no coro da igreja

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Coordenadas de GPS: lat=37.13961​; lon=-8.536