Rocha dos Namorados

A Rocha dos Namorados (ou Pedra dos Namorados, ao gosto do freguês) pode ser encontrada à entrada da aldeia oleira de São Pedro do Corval, para quem vem do sempre encantador castelo de Monsaraz e do igualmente famoso Cromeleque do Xarez. É um calhau que faz dois de nós em altura, e um de nós em largura, de material granítico, pedra que até associamos mais ao norte do que ao sul. Achatada em cima, com uma forma que se vai alargando à medida que cresce, há quem a associe a um cogumelo. Trata-se de uma fragmento rochoso que vai para além disso. É uma rocha evocativa, ligada a rituais pagãos e que ainda hoje funciona como força espiritual para a população local. A igreja, como sempre, meteu-lhe o seu carimbo, picando uma cruz de Cristo nas suas costas – já que o povo, sempre pagão, mesmo que não sabendo disso, não abandona os seus símbolos naturais, então que se tornem os símbolos naturais mais eclesiais. Não bastou isso e os párocos cá da freguesia fizeram ainda questão que as procissões da zona aqui passassem, dando mais uma camada de cristianismo a este monumento popular.

Mas nada disso consegue disfarçar o essencial da Rocha dos Namorados. O seu nome, aliás, não pode ser mais sugestivo, e daqui conseguimos pressupor que está ligada a fenómenos de celebração da fecundidade. Indo ao que mais importa, esta pedra, podemos testemunhá-lo lá indo, está apinhada de pequenos calhaus na sua cúpula. Obviamente, isto tem razão de ser. É que, na altura dos festejos da Ressurreição de Cristo, aqui vêm mulheres jovens, na transição para a idade adulta, atirar pequenas pedras para cima deste rochedo, sendo o objectivo que estas se quedem lá em cima e por lá fiquem – a cada pedra falhada, aumenta-lhes um ano de espera até ao dia do seu casamento. O lançamento deve ser feito de costas, aumentando a dificuldade (e a espera).

Ora, a Ressurreição de Cristo, sabemos, é uma época carregada de simbolismo aqui no hemisfério norte: estamos, na verdade, perante uma outra ressurreição, a da terra, que depois de morrer nos meses de Inverno volta à vida no alvor da Primavera, e que por esta altura torna a abrir e a dar à luz os seus frutos e flores. O retorno à vida de Jesus funciona assim como uma metáfora para o verdadeiro retorno à vida, o da natureza, que rejuvenesce. A Rocha dos Namorados e as solteiras que lá vão sortear o seu futuro inserem-se, portanto, neste contexto. Estamos perante uma homenagem à mãe-terra feita numa retórica diferente, mas de cariz popular, porque nasce do povo e este é o ponto de partida para o Sagrado, isto é, vai de baixo para cima, ao contrário dos ritos católicos, que têm o sentido inverso, vão de cima para baixo.

Coordenadas de GPS: lat=38.445493 ; lon=-7.47568

Comentários

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.

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