Romaria de São Bartolomeu – Entrevista ao Engenheiro Pedro Bragança

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O Engenheiro Pedro Bragança, vimaranense que um casamento trouxe para a Barca, onde já vive há muitos anos, é Presidente da Associação Concelhia das Festas de São Bartolomeu. Recebeu-me na Biblioteca Municipal da sempre encantadora vila minhota para falar sobre a romaria do seu coração.
É, por consenso e sem ser preciso perguntar, a grande festa do concelho e uma das mais coloridas do Minho, que para os de cá e restante vizinhança dispensa apresentações, e que mesmo para os fora começou a dar que falar, como veremos pela conversa que se segue.
Acontece todos os anos, no nosso querido mês de Agosto, actualmente entre os dias 18 e 24.
O Pedro está envolvido na organização da Romaria de São Bartolomeu como presidente, certo?
Sim, sou presidente da associação que organiza a Romaria de São Bartolomeu – a Associação Concelhia das Festas de São Bartolomeu. Somos um grupo de pessoas que está nesta luta pelo sétimo ano consecutivo, desde 2019. Nestes últimos anos a romaria evoluiu imenso. Não é a mesma romaria de antes, tanto que em 2021 ganhou o galardão de uma das Sete Maravilhas da Cultura Popular Portuguesa.
Notou muita diferença depois do prémio ser atribuído?
Imenso… Nota-se muito…
Está a falar do número de visitas?
A romaria tem crescido imenso. Nós também começámos a alterar algumas situações logo em 2019, nomeadamente as tasquinhas que são, sem dúvida alguma, um dos seus grandes chamarizes. Temos as tasquinhas tradicionais com os nossos pratos típicos… Tem tudo crescido muito. Mas se me perguntar quantas pessoas vêm, é impensável dar-lhe [um número].
Sabe dizer qual o número de visitantes?
Não tenho ideia.
O que lhe garanto é que desde o sítio onde o Ricardo estacionou o carro, no Largo do Curro, [passando pela] praça dos espectáculos que no ano passado recebeu o Tony Carreira e que foi uma coisa brutal, ou pelo relvado ao lado onde temos os carrosséis, que está tudo cheio. Se formos por esta rua acima é sempre gente, tudo cheio. Vamos parar ao Tribunal e ao Centro de Saúde onde, numa praça totalmente coberta, estão as tais tasquinhas tradicionais em madeira e as mesas no meio. São mil e duzentos lugares sentados. E se chegar lá entre as sete [da tarde] e as duas da manhã tem de esperar pela sua vez. É realmente muita gente.
E isto nem sequer é o grande evento do cartaz da romaria, não é a meca do São Bartolomeu, que fique bem claro. Quando me perguntam “qual é que é a cabeça de cartaz deste ano na romaria?”, a resposta é sempre a mesma…
… as rusgas?
As rusgas. São as rusgas. E os cantares ao desafio, o folclore, os trajes, a corrida de cavalos… Mas [sobretudo] as rusgas.

As rusgas, cada vez maiores, da Romaria de São Bartolomeu

Animação na Ermida de São Bartolomeu durante a romaria
Que são na noite de 23.
Na noite de 23, aquela noite que ninguém vai à cama. Até se diz que o diabo anda à solta.
Isso é interessante, porque em Amarante há uma noite, a de 24 de Agosto e não a 23, em que há um cortejo de diabos e também se diz que o diabo anda à solta…
Sim, mas aqui não há mesmo diabos à solta… [risos] Aqui o dito é antigo, vem de trás. Antigamente as pessoas vinham e porque é que ficavam toda a noite? Não havendo transportes como há hoje, ficavam porque no dia a seguir havia a missa. Eu próprio, presidente da romaria, tenho a missa às dez da manhã onde faço uma leitura e às vezes vou a casa só tomar banho.
Mas temos tido algumas modificações. Por exemplo, nas rusgas: é muita gente, talvez menos rusgas, mas rusgas cada vez maiores. Temos rusgas com mais de cem pessoas, com cento e cinquenta pessoas. Antigamente havia mais rusgas, mas mais pequenas. Hoje o que é que acontece, as pessoas querem ter a maior rusga: “a nossa era a maior”, “não, a nossa é que era a maior”… Isto faz com que se chame cada vez mais gente. Então temos rusgas de cem pessoas, oitenta pessoas, sessenta pessoas…
Olhe, ontem – e estamos em Fevereiro – recebi no mail da romaria, a primeira inscrição para as rusgas, sabe de onde é?
Temos rusgas com mais de cem pessoas, com cento e cinquenta pessoas. Antigamente havia mais rusgas, mas mais pequenas. Hoje o que é que acontece, as pessoas querem ter a maior rusga.
Não faço ideia.
É de longe… Enquanto vamos conversando, vou abrir o email para lhe mostrar.
De longe, mas do Norte?
Não… Vai ficar admirado. Vou-lhe mostrar.
… mas já agora, o que é que faz com que uma rusga seja uma rusga? São os instrumentos musicais? O número de pessoas?
É tudo. Houve uma altura em que havia rusgas muito pequenas, então criaram umas regras, as regras era ter um número mínimo que penso ser de vinte pessoas, as pessoas terem de estar minimamente trajadas – não têm de estar todos trajados, porque por exemplo o Ricardo possivelmente até se junta a uma rusga vestido assim, mas quase toda a gente traz um adereço da romaria, uma franjeiro, uma camisa, um reco-reco… É um conjunto de pessoas que se junta espontaneamente para tocar modas, e alguns inventam as suas cantigas. Andam por aí com os instrumentos para baixo e para cima. Embora nós tenhamos um percurso que as rusgas têm de fazer: são sete pontos que nós temos aqui espalhados, desde a Capela de São Bartolomeu aos nossos lugares mais emblemáticos, como as tasquinhas, e termina sempre na Praça da República.
A Praça da República é ao fim ao cabo o centro da romaria. O folclore da primeira noite é lá. É lá que acabam as rusgas, num palco onde fazem a sua apresentação e na descida estou lá eu e o senhor Presidente da Câmara a oferecer a tradicional cesta com vinho, presunto, a malga, a broa de milho, a faca e o saca-rolhas para que possam desfrutar da noite…
E é um concurso? Há um vencedor?
Antigamente havia um concurso. Mas podia haver sempre uns dissabores, umas polémicas, umas quezílias. Então decidiu-se que não, não há prémio para a melhor rusga, há prémio de participação para todos.
Mas é uma coisa fantástica! É uma noite que não dá para explicar. Eu sou vimaranense apaixonado por Ponte da Barca. Casei-me com uma senhora daqui e decidi que queria ir viver para a Barca. E depois apaixonei-me por esta romaria, o que fez de mim até presidente dela. É uma paixão tremenda mas isto cresceu de tal maneira que para a organizar é preciso uma dedicação monumental.
O financiamento é da Câmara?
Não todo. Temos um protocolo com a Câmara e a maior fatia [do investimento] é da Câmara. Depois temos outros financiamentos. Sessenta por cento vem da Câmara, os restantes quarenta somos nós que temos de nos mexer: com o aluguer das barraquinhas, com publicidade, componente que temos trabalhado imenso – temos uma revista onde colocamos publicidade, e antes de eu começar havia dez ou doze empresas que tinham lá o seu logo, no ano passado tínhamos à volta de cinquenta, são valores pequenos mas que para nós são muito importantes para conseguirmos realizar uma romaria que já custa centenas de milhares de euros.
Entretanto, não me chegou a dizer de onde vem essa tal primeira rusga a inscrever-se este ano… [risos]
Ah! Tenho isso aqui. Vou-lhe dizer: Grupo de Concertinas de Ponte de Lousa. Freguesia de Lousa. Concelho de Loures.
Loures? Uau!
Primeira inscrição, e estamos em Fevereiro… Veja a dimensão que isto mostra.
estou lá eu e o senhor Presidente da Câmara a oferecer a tradicional cesta com vinho, presunto, a malga, a broa de milho, a faca e o saca-rolhas para que possam desfrutar da noite…
E isto está ligado aos ranchos?
Não obrigatoriamente. Há rusgas que não têm nada que ver com rancho nenhum. Há freguesias que entendem ter, cada uma, a sua rusga. A Casa de Concertinas de Arcos de Valdevez faz a sua rusga. As Aldeias de Portugal também – vestem todos de verde, e são umas cento e cinquenta pessoas. A Câmara de Terras de Bouro vem sempre com mais de cem pessoas. E depois temos os grupos de amigos daqui, o das casamenteiras, os amigos da Barca, rusgas que não estão relacionadas com freguesias nem com associações.
Temos mais gente a participar, possivelmente menos rusgas, mas rusgas cada vez maiores. Vêm uns falar comigo a dizer “a nossa é que foi a maior” e outros contestam “a nossa é que era”. É aquela coisa de querer ter a maior rusga da romaria…
E têm sempre de se inscrever?
Sim, increvem-se. Até para nós podermos saber como fazemos em relação aos cestos. Nós temos de fazer uma coisa complicada: um mês antes temos de andar a encomendar presuntos, garrafas de vinho… Por isso é preciso que se inscrevam, embora no próprio dia, por vezes, apareçam mais rusgas. Nós também encomendamos à consignação mais presuntos e mais vinho porque nunca sabemos se vai aparecer mais ou menos gente.
O vinho é vinho verde, suponho…
É.

Vinhão, a bebida oficial da Romaria de São Bartolomeu
Verde tinto?
Verde tinto, óbvio. Com a malga. É uma coisa gira de que vale a pena falar porque se calhar somos a única romaria que faz isso: nas tasquinhas nós temos o nosso vinho. Com um rótulo que é o cartaz da romaria.
Eu reparei que apostam muito no cartaz…
Sim, e no ano passado fizemos uma apresentação que correu de forma extraordinária. Normalmente fazíamos a apresentação [do cartaz da romaria] no Jardim dos Poetas, debaixo do mercado, onde tínhamos sempre pouca gente, mas no ano passado decidimos fazer à frente da Câmara. Não sei se conhece o nosso cartaz do ano passado.
Conheço.
É uma menina com cinquenta cravos – não sei se alguém se deu ao trabalho de contar – por causa dos cinquenta anos do 25 de Abril. No ano passado o cartaz falava da liberdade. E pegámos no cartaz para fazer a nossa garrafa de vinho. Falámos com a Adega Cooperativa, que é um parceiro muito importante para nós, e comprámos sete ou oito mil garrafas. E nas tasquinhas só se vende este vinho. Comprámos à Adega Cooperativa e vendemos às tasquinhas. As tasquinhas poderão vender as suas bebidas mas o vinho é nosso: branco, rosé, tinto e vinhão. São pequenas coisas que têm tornado esta romaria mais genuína.
E se eu, não tendo conhecimento do facto de ter de me inscrever numa rusga, mas aqui aparecer e ficar com vontade de me juntar a uma, posso?
Pode. Facilmente. Imagine, vem o Ricardo e traz uma concertina sem fazer ideia do que é isto. Se perguntar a qualquer rusga “epá, eu gostava de me juntar a vocês”, claro. Eles não irão chamar o Ricardo – não é de cá e não o conhecem. Mas com certeza que qualquer uma adoraria que o Ricardo pertencesse à rusga deles se lhes perguntasse. Eu normalmente não me junto a nenhuma rusga porque às onze e meia vamos para o recinto, pela meia-noite sobe a primeira rusga ao palco – no ano passado até começámos mais cedo -, e às três e meia da manhã ainda lá estamos a entregar presuntos… Estamos ali três horas e meia a entregar uma cesta, mais uma cesta, mais outra cesta…
É, sem dúvida, uma noite incrível! O meu pai nunca veio – ele vive em Guimarães. No ano passado era para ter vindo mas eu até agradeço que não venha nessa noite. Não consigo estar com ele. Estou ali preso três horas e meia, como é que eu posso estar com ele?
Pois. Eu vou ser honesto: nunca fui às de São Bartolomeu. Pesquisei bastante sobre ela para poder fazer a entrevista mas falta-me cá estar. Mas só conheço as Festas Novas, a Senhora da Agonia…
Sim, mas não têm nada a ver. Aqui festejamos as tradições, é tudo genuíno. Desde logo o Largo do Urca [e a sua] roda do vira. Hoje em Guimarães, em Braga, nos Arcos, em Barcelos já se faz esta roda do vira. Mas começou aqui. E nem faz parte do programa.
É uma roda espontânea.
Completamente espontânea, e é isso que a nossa romaria tem. Isso é que é São Bartolomeu: espontâneo, genuíno. É incomparável com tudo o que temos aqui à volta. E depois claro que são muitos dias, são sete noites intensas.

Artéria principal de Ponte da Barca na Romaria de São Bartolomeu

A madrugadora Roda do Urca
Na Roda do Urca uma pessoa pode entrar, pode sair, e isso dura quanto tempo?
Toda a noite.
E é uma rusga que está a sustentar a roda?
Não. O Ricardo pode chegar com uma concertina e pôr-se no meio a tocar. Três ou quatro concertinas no meio, umas entram e outras saem, e aguenta-se toda a noite. À hora de jantar já lá está a roda, se passar lá às três da manhã e lá vai estar a roda. Muita gente aprendeu a dançar a Cana Verde e o Vira naquela roda. Só comparo isto ao Pinheiro, em Guimarães, a que também nunca falto, estou lá sempre com os meus amigos de escola.
Há pessoas que passam a noite toda na Roda do Urca e depois há a quantidade de pessoas que estão lá só a ver – eu próprio passo lá e das coisas que mais gosto é de ver aquela roda que não pára. Há pessoas que vão lá, saem, vão aqui, vão ali, passam pelas tasquinhas para comer qualquer coisa, e regressam para voltar a dançar. Com um pormenor: não há idades, tem de tudo – velhos, novos, gordos, magros, loiras, morenas. É de tudo. Vemos quatro gerações ao mesmo tempo ali. Que é outra coisa que vemos nas rusgas e nas concertinas, a paixão da malta nova por esta romaria. Se eu perguntar aos meus filhos – tenho um filho com 30 anos e outro com 23 anos – quando é que marcam as férias, é sempre naquela semana de São Bartolomeu, e os meus sobrinhos também marcam férias[na mesma altura].
Há pessoas que passam a noite toda na Roda do Urca e depois há a quantidade de pessoas que estão lá só a ver – eu próprio passo lá e das coisas que mais gosto é de ver aquela roda que não pára.
Por acaso notei nisso. Na maioria das romarias minhotaas há sempre um palco com DJ para atrair essa demografia. E aqui não há, certo?
Aqui não há DJs. Se autorizasse fazer o que se faz nas Feiras Novas de Ponte de Lima, um afterparty na nossa praça, eu era expulso de Ponte da Barca… É impensável. Mas temos, por exemplo, ali na Praça da República, o Café Central onde, a partir das três ou três e meia da manhã, está alguém a pôr música, mas não se trata de um DJ. É música popular. Põe-se um vira, o Hino da Barca, as Ágatas e companhia. Também começou por ser uma brincadeira de um jovem barquense. Se lá for no dia 24 às oito da manhã, ainda lá estão.
Essa malta da noite de 23 vai à procissão no dia seguinte? Ou são públicos distintos?
Há algum público que é distinto. Mas há muita gente que está no dia a seguir – a procissão é só à tarde. Antigamente fazíamos a missa no dia 24 às dez horas da manhã, que era uma violência para quem tinha passado toda a noite de 23 acordado. E ultimamente temos feito a missa só de tarde, às cinco horas, com cerimónia e procissão, tudo de seguida. Por acaso este ano vai ser diferente porque o 24 calha num Domingo. O senhor padre já me disse que quer a missa de manhã porque é a missa de Ponte da Barca, a missa da freguesia, por isso vai ser Domingo às dez e meia. Já me estou a imaginar a sair daqui às seis ou sete da manhã para às dez estar na missa… [risos] E como eu muitas outras pessoas.
Claramente que os meus filhos, os meus sobrinhos, a malta nova, na manhã de dia 24 não está [presente]. Também é verdade que nós, de manhã, só no dia 23 é que temos um programa mais intenso.
Deixe-me mostrar-lhe as revistas com o programa – este foi o cartaz de 2022, cá está a garrafa de vinho. Neste cartaz de 2023 temos uma menina, a Rainha das Vindimas, e aqui temos as arcadas. Eu e o designer fazemos sempre uma memória descritiva dos cartazes. Aqui [ao abrir a revista] vemos o grupo de bombos – há um grupo de bombos aqui de Ponte da Barca da escola de deficientes, e nós demos aqui [na romaria] o seu ponto de partida; aqui temos os bordados das camisas. Aqui [no cartaz de 2024] temos a menina com os cinquenta cravos.
A menina que aparece é sempre a Rainha das Vindimas?
Não, não. Esta, de há dois anos, tinha sido Rainha das Vindimas. Repare que em sete anos essa foi a primeira vez que pus uma menina no cartaz, ao contrário de Viana que usa sempre a menina [vianesa]. Não faço ideia se este ano vai ser uma menina. Já tive um rapaz como cabeça de cartaz. Foi engraçado. Na pandemia pusemos um rapaz, de bombo às costas, a olhar para o telemóvel a recordar-se de como era a romaria.
No ano anterior, também de pandemia, foi o meu pior cartaz mas um que vai ficar na memória de toda a gente: uma menina, mas de costas, a pendurar o seu franjeiro. Estava de costas voltadas, triste por não poder ir. Eu ao ler as nossas memórias descritivas até me arrepio. Esta [memória descritiva] tenho-a ali [aponta para fora da sala], até fiz um cartaz com ela.
A romaria, quando eu comecei, era de 19 a 24 de Agosto. Ela tem vindo a crescer. E eu acrescentei o dia 18. Era uma coisa que queria ter feito logo em 2019 e não consegui, na altura. Só consegui em 2022, 2023 e 2024, depois dos dois anos do Covid. No dia 18 acontece o que nós chamamos de “Anda comigo à romaria”. O que é que é uma romaria? Uma peregrinação a um local de culto. A romaria de São Bartolomeu é uma peregrinação à Capela de São Bartolomeu. Mas pouca gente lá vai.
Decidiu criar a romaria no dia 18?
Exactamente. Era uma ideia antiga que eu já tinha partilhado com amigos. Então o que é que fizemos: criámos uma peregrinação, composta maioritariamente por mulheres, que sai da Praça da República. E é assim que começa a romaria de São Bartolomeu. A romaria começa com uma romaria! Vêm pela rua a cantar aquelas músicas que se cantavam antigamente, chegam à capela e dão-lhe três voltas, quando passam à porta da capela param e ajoelham, e eu não conhecia nada disto. Só queria que as pessoas fossem à romaria…
Foi uma coisa para mim arrepiante. Arrepio-me com este dia. Fui eu próprio a aprender com aquilo. Então as pessoas tinham as suas músicas já conhecidas, com as suas letras, as suas modas, como lhes quisermos chamar? Chegavam lá, ajoelhavam-se, levantavam-se, e tudo cantado.

Segue São Bartolomeu a caminho da Igreja Matriz

Crianças figuradas na Procissão a São Bartolomeu
Sem ser necessário haver instruções para isso?
Zero! E eu que criei isto, não conhecia nada disto.
E depois o que é que se fez… As pessoas quando vão à romaria, normalmente levam um merendeiro. Então o que é que eu fiz para pôs as pessoas a merendar: fechei a rua ao trânsito e coloquei mesas e cadeiras ao longo. À noite os peregrinos trazem os seus merendeiros e ali se fica até à meia-noite, por aí. Começamos a romaria com uma verdadeira romaria.
E quanto à procissão de dia 24, ela passa por onde?
Sai da Capela de São Bartolomeu…
… com a imagem de São Bartolomeu, suponho.
Com vários andores. Antigamente, e antes do meu primeiro ano ainda assim foi, cada freguesia trazia um andor. Além da vila que trazia um do seu padroeiro, que é São João – porque o padroeiro de Ponte da Barca não é São Bartolomeu, é São João.
Depois tivemos umas complicações e o senhor padre, em 2022, sugeriu-nos que as freguesias deixassem de trazer os seus andores e que fossem só os nossos daqui. Portanto temos uma procissão com cinco andores. Foi assim em 2022, em 2023, em 2024. E em 2025 o senhor padre já me disse que vai continuar assim. Os cinco andores que têm participado são de São João, padroeiro da vila, São Bartolomeu, padroeiro da festa, a Senhora da Misericórdia, por causa da Santa Casa que é também um parceiro fundamental para a freguesia e para o concelho, o São Marçal, dos bombeiros, e a Senhora de Fátima.
Antes eram vinte e tal andores. Até havia freguesias que traziam mais do que um. Depois houve umas confusões, até entre freguesias, e o senhor padre decidiu alterar. Fazemos é a procissão sempre com uma história, todas as procissões têm um tema, e temos muitos figurantes. Mas mesmo assim há pessoas que preferem a procissão antiga pela sua extensão.

Grupo de Bombos no desfile dedicado ao linho

Concurso do Linho na Alameda dos Namorados
E o trajecto, qual é?
Sai da Capela de São Bartolomeu, vai para a Capela de Santo António, e depois desce a vila toda até à Igreja Matriz, onde os andores ficam lá em exposição. Mesmo quando a procissão era de vinte e tal andores, ficavam todos lá. Depois vêm buscá-los. No fim de semana seguinte regressam a casa.
Muito bem. Vamos então ao Cortejo Etnográfico? É uma espécie de exibição das tradições e do trabalho de agora, ou de antes?
De antes. Cada freguesia tem o brio de mostrar [o que mais a orgulha]. Aliás, o cortejo de 2024 pecou, segundo algumas pessoas, por ser extenso demais. Todas as freguesias querem mostrar-se: naquela freguesia é a caça, então tratam de mostrar a caça muito bem; noutros já não é a caça, é a madeira; noutros é o pão; noutros é o azeite; noutros a barragem; noutros a pastorícia; noutros o folclore. Em Bravães, por exemplo, que é uma freguesia sempre muito bem representada, é o linho, e apresentam todo o ciclo do linho – um tractor com isto, outro com aquilo, trazem oito ou nove ou dez carros só para mostrar o linho desde o seu definhar até à parte das camisas já bordadas.
É o ciclo do linho, o ciclo do milho, o ciclo do vinho. Uma freguesia fazer o ciclo do vinho são outros sete ou oito carros, desde a poda à vindima, não é?
E aqui o traje, difere muito de outros do Alto Minho? A questão do ouro, por exemplo?
Todas [as barquenses] têm ouro, mas não é igual a Viana. Aliás, agora também temos um Desfile do Traje, no dia 22 de Agosto, outra novidade que nós implementámos aqui, e aí vai ver muitos trajes diferentes. São grupos de trajados divididos em três categorias. Temos uma equipa que é muito dedicada ao traje. Não tem a dimensão, nem de longe, nem de perto, do de Viana, mas é um desfile muito rico porque encontra os três tipos de trajes daqui com as variações que são conhecidas.

Corrida de cavalos

Lançamento no Jogo da Malha
Já agora, isto até era para ser o início da entrevista, mas acabámos por explorar outros primeiro: afinal qual a origem da romaria? Sempre está ligada à construção da Capela de São Bartolomeu? Havia culto a São Bartolomeu antes disso?
É difícil dizer quando é que começou. Certo é que começou da forma que eu falei há bocado: as pessoas vinham de véspera porque havia sempre a festa da noite [anterior]. Os primeiros registos são antigos mas não há nada que nos diga que a primeira festa foi no dia xis, e na festa passou-se isto e mais isto. Isso não há. E o formato dessa festa era completamente diferente do actual.
Eu quando cheguei a Ponte da Barca a festa era só de cinco dias. Isto há trinta e dois anos. E nós temos aqui cartazes que mostram festas de três dias. Evoluiu e foram-se acrescentando dias, como evoluíram todas as restantes festas e romarias – gosto de chamar ao nosso São Bartolomeu uma romaria e não uma festa. Eu próprio, como Presidente, acrescentei mais um dia, o do “Anda comigo à romaria”, pela necessidade que tinha de obrigar as pessoas a fazerem uma realmente romaria, e não conseguia encaixar essa parte em nenhuma outra data porque já estava tudo ocupado.
Já que estamos em datas, a Romaria de São Bartolomeu chega a coincidir com a Romaria da Senhora da Agonia em Viana do Castelo…
Sim, os nossos primeiros dias coincidem com os últimos dias de Viana. E até com o Festival Paredes de Coura. Mas mais com Viana. Nós notamos que os nossos últimos dias são os mais participados. Pode estar relacionado.
No ano passado, numa das noites, alguém me chamou e apercebi-me que era uma professora, colega minha, que estava com dois amigos de Viana – estamos a falar de pessoas com quarenta e alguns anos, e por acaso, como eu, licenciados na Universidade do Minho em Engenharia Informática -, e eles disseram-me: “olhe, tenho de lhe dar os parabéns pela romaria, eu nunca tinha visto porque sou de Viana, mas uma coisa é certa, para o ano é para aqui que vimos e não para a Senhora da Agonia”. Realmente é uma coisa completamente diferente daquilo que se vê em Viana.
Li acerca de um episódio engraçado que se passou algures a meio do século XX…
… em que não houve romaria.
Não houve, mas acabou por haver, certo? Isto leva-nos novamente à componente espontânea da romaria.
E foi das maiores romarias que houve.
A Câmara decidiu não fazer a festa. E acabou por ser uma das maiores festas, pelo menos em termos emblemáticos. Lembro-me do meu sogro me falar muito disso. Eu ainda não era nascido nessa altura. As pessoas espontaneamente organizaram-se e fizeram elas a romaria.
Isso. O que é que se passou exactamente?
Não havia aquilo com que se compram os melões. [risos] A Câmara decidiu não fazer a festa. E acabou por ser uma das maiores festas, pelo menos em termos emblemáticos. Lembro-me do meu sogro me falar muito disso. Eu ainda não era nascido nessa altura. As pessoas espontaneamente organizaram-se e fizeram elas a romaria. O grande salto da romaria foi dado aí. Houve outros – eu lembro-me de quando cheguei a Ponte da Barca e as rusgas ainda estavam a reorganizar-se e em recuperação, e hoje têm o impacto que têm. Mas sim, esse ano foi um dos grandes marcos da Romaria de São Bartolomeu.
Para terminar, vamos ao concurso. O concurso do Melão Casca de Carvalho. Não sei se é o único concurso da romaria…
Nós temos muitos concursos. O Concurso do Linho, que é fantástico. A Corrida de Cavalos. O Concurso da Malha. O Concurso do Gado.
De que trata o Concurso do Linho?
O Concurso do Linho é no dia 23. As senhoras trazem os seus linhos. Há vários linhos, o linho não é todo igual. E nós avaliamos e atribuímos prémios. Organizamo-nos com as pessoas no Jardim dos Poetas e depois vão em desfile para a zona ribeirinha, apadrinhada à frente pelo Grupo de Bombos da escola de deficientes. Neste último ano ficámos na Alameda dos Namorados, como quem vai para o rio, e depois por lá fazem a sua exposição.
No mesmo dia 23 temos o concurso de gado e também atribuímos prémios. O mesmo para a Gincana de Bicicleta para os miúdos, onde também atribuímos prémios. Há a Corrida de Cavalos. No Jogo da Malha há gente a de Guimarães, de Vila Verde, de Braga, de Barcelos, de Famalicão a vir para cá, já sabem que naquele dia é em Ponte da Barca, seja semana ou fim de semana.
E o Concurso do Melão no ano passado deu um grande salto. Antes era um concurso onde tínhamos três pessoas que avaliavam os melões. Nós quisemos lavar um bocadinho [este evento] e melhorá-lo. É um produto nosso e nós queremos valorizá-lo, e a romaria serve para isso. O que é que eu fiz o ano passado? Convidei a Confraria do Melão Casca de Carvalho. Ajudaram-me a elaborar a ficha de avaliação. Nós antes só tínhamos três parâmetros de avaliação e agora temos mais, e fiquei impressionadíssimo com um: o gás que o Melão Casca de Carvalho tem – já abri tantos Melões Casca de Carvalho e nunca me tinha apercebido que aquilo tem um gás tremendo, mas nem todos. E foram eles, da Confraria, que também fizeram parte do júri. Ao mesmo tempo, antes do concurso, fiz uma conferência em directo na rádio local, a Rádio Barca. Houve uma pequena palestra sobre o melão, com o concurso a seguir, e também com uma prova de vinhos… Quais vinhos? Os da nossa romaria com o nosso rótulo.
Bem, e estamos no fim. Eu tinha aqui uma pergunta que é um pouco mais fora. Está relacionada com o papel da mulher minhota. É uma coisa que noto muito não só na Romaria de São Bartolomeu, mas também na Senhora da Agonia, e noutras aqui à volta. Às vezes quando venho ao Minho sinto que há uma organização muito matriarcal.
Que a mulher tem um papel diferente dos outros sítios…
Sim. Quem está de fora acho que nota isso. Quem está de dentro não sei se nota…
Eu na romaria não noto. Apesar de nós estarmos aqui com dois cartazes à frente que são de duas mulheres, de duas jovens barquenses. Antigamente os cartazes eram quase sempre também [com mulheres]. Quando eu entrei mudei um pouco [a imagem], mas não quis pôr a mulher de lado. Aliás, a nossa memória descritiva do ano passado é, sem dúvida alguma, uma homenagem à mulher e à liberdade, porque uma das coisas que o 25 de Abril trouxe foi ter mudado o papel da mulher na sociedade. Mesmo as romarias mudaram – sem o 25 de Abril, não faríamos as romarias que fazemos. Ainda assim, conforme disse há bocado, a nossa romaria, de tão genuína que é, não vai distinguir tanto isso. Agora, sem dúvida alguma, a mulher tem sempre um papel fundamental na nossa organização… Nós somos minhotos, não é?

Corrida de cavalos

A despedida da Romaria de São Bartolomeu
Promoções para dormidas em Ponte da Barca
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Coordenadas de GPS: lat=41.80761 ; lon=-8.41656