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Ainda subsistem várias e complicadas dúvidas acerca do que é um Morabito (ou Morábito, como também é chamado). Isto porque um morabito, antes de ser um edifício, era um santo ou um ermitão ou um monge-guerreiro, mas devotado à fé islâmica. Um morabito era, portanto, uma pessoa, e só depois, por associação, se começou a cunhar pequenos templos muçulmanos com o nome do santo (ou santão) a que era dedicado.

Qubbas e Morabitos

À vista, em Portugal, considera-se um Morabito uma obra do tempo islâmico, em especial dos séculos XI e XII, ou seja, da época da dinastia Almorávida – dona de um vasto império do noroeste africano, incluindo o Al-Andaluz, no sul da Península Ibérica -, cuja forma se submete a certos parâmetros relativamente homogéneos: a cúpula semi-esférica ou piramidal, a estrutura cubista, a pintura de cores suaves onde o branco predomina.

A sua origem remonta aos Marabutos, homens que podemos equivaler aos Templários mas de fé islâmica, em muito relacionados com o gnosticismo dos Sufis, também esse semelhante ao templarismo cristão. Um marabuto caracterizava-se por cultivar em si dois lados que considerava indivisíveis – o religioso, de descoberta do ser despojado de matéria; e o guerreiro, de defesa da fé pela espada. O Morabito enquanto casa seria então o templo-residência desses Santões de conhecimentos enraizados num misto de crenças islâmicas e pré-islâmicas (até politeístas). E sendo eles homens de credo e de armas, muitas vezes o dito Morabito podia revestir-se de uma função bélica, como torre fortificada.

Há quem entenda nomear essas capelas islâmicas de Kubas (ou Qubbas). Com alguma reserva se pode dizer que uma Kuba e um Morabito são sinónimos – com efeito, argumenta-se que uma Kuba é um monumento que tanto pode ser anterior como posterior aos Morabitos porque é um espaço de devoção e de homenagem aos Santões ou aos seus restos mortais. Equivale, nesse sentido de espaço de culto, às nossas ermidas, e estão habitualmente implantadas em lugares de natureza sagrada (abeirados de ribeiras ou a coroar cerros) – são, assim, templos para onde rumam as procissões islâmicas no Norte de África, tal e qual como se faz por cá nas romarias dos santos cristãos.

Queiramos ou não separar as águas, Morabitos para um lado, Kubas para o outro, a verdade é que na cabeça do comum mortal eles são bastante idênticos, sobretudo aos olhos de quem os vê, e por isso é comum tratar um Morabito como uma Kuba e vice-versa. Da mesma forma, ambos os conceitos foram vítimas de uma remodelação comum – a sua adaptação a templos cristãos -, o que contribuiu para que mais confusão se instalasse acerca do que é que seria um e do que é que seria outro.

Cúpula do Morabito de São Pedro

Morabito de São Pedro, Alvor

Os Morabitos portugueses

Não é surpresa para ninguém que os Morabitos sejam mais frequentes no sul do país, onde a presença norte africana mais se demorou, inclusivamente prolongando-se para tempos pós Reconquista. Das Beiras para cima são praticamente inexistentes.

A vila com maior concentração de Morabitos, pelo menos assumindo as casas que mantiveram essa designação, é Alvor, no Algarve. Só aí, contamos três: o de São Pedro, entretanto transformado na Capela de São Pedro, e que se encontra em excelente estado de conservação; o de São João, na rua do Infante Dom Henrique, mais difícil de se dar por ele, tão dissolvido que está na nativa arquitectura alvorense; e o da Igreja Matriz, engolido pelo templo construído à posteriori, e também difícil de apontar tendo em consideração que se encontra colado à face norte da igreja, a menos visível de todas. Lisboa tem dois por perto, um na margem sul, na Trafaria, agora convertido na Capela à Senhora dos Remédios, e outro mais a norte, no Cadaval, hoje bastante arruinado, não obstante identificável. No Alentejo podemos considerar a Ermida da Senhora das Neves, em Mértola, como um dos exemplares mais interessantes.

Acontece que, por vezes, a arquitectura típica dos Morabitos e das Kubas fez escola, e muitos monumentos construídos já em sólido Reino de Portugal, quando há muito os sarracenos tinham sido derrotados, acabaram a copiar antigos templos muçulmanos, estética a que se convencionou chamar de mudéjar e que é evidente nas zonas mais meridionais do país. Pensa-se que uma dessas ermidas seja a Capela de São João Baptista, em Monsaraz, a Ermida de São Sebastião e o Senhor do Calvário, ambos em Mértola, e a Ermida da Memória, no Cabo Espichel. Exemplares eventualmente construídos em cima de antigos espaços muçulmanos, e estes possivelmente levantados em cima de ainda mais velhos espaços cristãos ou pré-cristãos – é a reciclagem da religião, onde o timbre muda mas a melodia não.