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Muitos ignoram a verdade histórica da Praia da Rocha: servida da fina flor residente no Algarve e no sul de Espanha, bem como de estrangeiros de nacionalidades norte europeias, foi um dos primeiros destinos balneares do país. A procura começou no final do século XIX, numa época em que pouca oferta havia para absorver a crescente procura, tendo os visitantes de se amanhar em casas menos próximas da beira mar, sobretudo em Portimão. A Villa Nossa Senhora das Dores, actualmente conhecida como Hotel Bela Vista, veio ao mundo neste contexto – foi um dos primeiros chalets de luxo a povoar uma arriba que acompanhava o longo areal de Santa Catarina, mais tarde renomeado Praia da Rocha.

A pérola entre latão

Nos dias que agora correm, tentar imaginar estas falésias picotadas por meia dúzia de casas de luxo e um casino, que era a realidade deste canto no início do século XX, revela-se tarefa espinhosa. Em torno do Hotel da Bela Vista, uma recente cordilheira de prédios alvos e descaracterizados insinua-se à enseada. O que se vê da praia, um chalet de estética romântica que tanto vai buscar ao neo-gótico como ao mudéjar, emoldurado por gigantes prédios de gosto duvidoso, é uma enorme contradição – mas mostra de forma clara como a construção sem freio atingiu a província.

A parte boa é que o Bela Vista está na dianteira de tudo o que o envolve, abeirado do desfiladeiro como o mais velho vigilante da praia, e por isso destaca-se do molde, mesmo que menorizado pelo tamanho dos mostrengos de betão lá atrás. Nesse aspecto, faz-se valer como um testemunho de como a beleza ainda importa no meio do caos urbanístico em que algumas vilas e aldeias do Barlavento se transformaram – uma pérola no meio de latão que, ao contrário de outras hospedagens suas contemporâneas, não se viu escangalhada pelo tempo.

A data da sua edificação é dúbia. Maria da Graça Mateus Ventura, estudiosa de Portimão, menciona o final do século XIX. O próprio hotel fala numa inauguração em 1918. Poderá a obra ter demorado cerca de vinte anos a ficar concluída? Certo é que a iniciativa veio de António Júdice de Magalhães Barros, um dos homens que fez fortuna na indústria conserveira. Numa fase inicial, serviu apenas as necessidades do proprietário. Uma forçada venda de Magalhães Barros, depauperado com a Grande Depressão, a Henrique Bivar de Vasconcelos, selou-lhe o destino – em 1936, Bivar de Vasconcelos transformou o espaço num hotel e assim se manteve, mesmo quando voltou a ser revendido a Albino Paulino de Jesus, a meio do século XX.

A sua antiguidade levou a que muitos o tenham classificado como o primeiro hotel do Algarve. Na verdade, não foi sequer o primeiro hotel da Praia da Rocha. O já desaparecido Hotel Viola antecede-o. Mas que importa isso? Antes de lhe inventar um recorde de longevidade, não será mais relevante comunicar como o Bela Vista é parte da história de um cantão portimonense que há um século não passava de uma charneca? Que foi sobrevivendo a tanta adversidade com a altivez necessária de quem sabe que é mais bonito do que os demais? Que por ele passaram figuras centrais da história de Portugal e da história europeia, como o Presidente-Rei Sidónio Pais, o rei Humberto II de Itália, o presidente cubano Fulgêncio Batista, o presidente finlandês Emil Mannerheim? Que na nada saudosa II Grande Guerra por aqui se cruzaram serviços sercretos do Eixo e dos Aliados, sabe-se lá a congeminar o quê?

O Bela Vista é isso. Vale por isso. A boa imprensa com que conta – e há muita, desde o New York Times à Condé Nast Traveller – bem pode falar da torre de vitrais, da decoração à la Côte d’Azur, ou do magno terraço sobranceiro à praia. Não desfazendo, mas os alicerces do Bela Vista são o seu passado. O saber que neste palco passou gente que teve nas mãos o volante da história.

Candeeiro remata corrimão no Hotel Bela Vista

Pormenor de candeeiro no Hotel Bela Vista

Interior do Hotel Bela Vista

O azul e o azulejo do Hotel Bela Vista

Balcão do bar do Hotel Bela Vista

O bar no Hotel Bela Vista

Os assombros do Bela Vista

Se a história real não bastasse, há outra, discutível se verdadeira ou não, que nos foi narrada por Vanessa Fidalgo, jornalista apaixonada pelo lendário português que tive o prazer de entrevistar. Ninguém diria que durante algum tempo o Bela Vista contou histórias de assombro. Todavia, Vanessa Fidalgo escreve no seu livro “Histórias de um Portugal assombrado” acerca de uma antiga dona ou gerente do hotel que continuava a aparecer aos olhos dos empregados já depois de finar.

Olhando para a actual decoração interior, é difícil perceber como daqui se conseguia fazer um possível episódio fantasmagórico. Depois da remodelação executada por Graça Viterbo, ocorrida em 2011, são as cores garridas que dominam as salas e os quartos, nomeadamente o azul – a cor do céu e do mar algarvios. O tom vibrante que sacamos das paredes, do soalho, até do piano, é um pouco incompatível com a imagética sobrenatural relatada.

Por outro lado, aquilo que de mais velho sobra – como os painéis de azulejos, os candeeiros, as madeiras nobres -, pode remeter para essa dose de obscurantismo injectada pela jornalista. Nada que incomode quem o queira visitar. O mistério, mesmo que solarengo, só lhe fica bem.

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Mapa

Coordenadas de GPS: lat=37.11853​; lon=-8.53746