Parque das Termas de Vizela

by | 27 Fev, 2024 | Lugares, Minho, Natureza, Províncias, Quintas e Jardins

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Pode ser chamado de Parque das Termas e também de Parque de Vizela. Os mais novos, com a irreverência linguística própria da juventude, tratam de o designar por PN, como sigla de Parque Natural, um pouco como a garotada alfacinha cunhou o termo BA para se referir ao Bairro Alto. Se calhar por isso, por poder ter tanto título, há muitos que preferem a simplicidade de o nomear apenas de Parque, porque no concelho de Vizela, se se pensar num, só pode ser este.

Das termas nasceu um parque

O Parque de Vizela foi construído em 1885 e 1986, com acertos, expansões, e requalificações a acontecerem em épocas posteriores. Não foi a primeira iniciativa a tomar forma por cá – já no início do século se tinha criado um Passeio Público, num claro sinal de como Vizela estava em caminho ascendente. Mas, não obstante, o Parque mostrava-se como um avanço em relação ao primitivo passeio, em dimensão e em elegância. Foi desenhado por José Marques Loureiro, homem de provas dadas enquanto responsável pelo Horto das Virtudes, no Porto, e fundador do Jornal de Horticultura Prática, em parceria com o jardineiro-paisagista Jerónimo Monteiro da Costa que meteu mão no Jardim Arca d’Água, no Jardim da Praça de Mouzinho de Albuquerque (vulgo Rotunda da Boavista), no Jardim do Carregal, e no Jardim da Praça Marquês de Pombal, todos eles também portuenses.

De tais mestres só poderia vir boa coisa, como veio. Uma planeada combinação de bom gosto, exotismo, e majestosidade serviu de esteio para uma instalação que, desde a sua criação, se apresentou como o grande espaço verde de Vizela, primeiro enquanto aldeia, depois enquanto vila, e por fim enquanto cidade e sede de concelho.

Por ter origem na actividade termal, o Parque viu a sua história atrelada à das caldas que caracterizaram o Vale de Vizela desde pelo menos o longo e longínquo Império Romano. Provavelmente até antes disso. Sempre que as termas estavam bem e recomendavam-se, o parque ia atrás: tornava-se mais festivo, mais cosmopolita, mais verde. De igual modo, o mesmo acontecia no sentido oposto: quando a economia das caldas entrava em recessão, o parque cedia ao abandono, quando desertificava de gente e lhe adoeciam as árvores.

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Como tal, para quem conhece razoavelmente a história de Vizela, é fácil adivinhar qual o período áureo do Parque das Termas: o último quartel do século XIX, e o primeiro do século XX, quando a pequena povoação podia ser comparada a uns quantos exemplos europeus como Bath em Inglaterra, Vichy em França, Budapeste na Hungria, ou, para irmos a uma equiparação mais justa em termos de escala, a Mariánské Lázně na actual República Checa.

Foi nessa janela temporal que compreendeu, grosso modo, meio século, que Vizela virou moda para uma classe abastada, a da aristocracia de riqueza antiga e a da burguesia de riqueza recente, maioritariamente do Norte português mas também estrangeira, como foi o caso dos ingleses que se dedicavam ao comércio de Vinho do Porto e que muitos meses de veraneio por aqui passaram. Nessa época, o Parque das Termas funcionava como uma elitista alameda à beira rio – com homens a exibirem cavalheirismo aos remos de barcas junto à hoje quase irreconhecível Ilha dos Amores, na companhia da mulher que cortejavam; com garçonnes em pose sedutora à espera de um convite para dançar um tanguinho nos bailes de rua, como acontecia na muito concorrida Batalha das Flores; com conversas de galanteio nos trilhos ribeirinhos acompanhadas pelo som do rio Vizela a furar o cascalho; com jogos de ténis e competições de patinagem que também não se escapavam à busca de um coup de foudre entre os que participavam e os que assistiam.

Este foi o Parque das Termas que mais aproximou Vizela das luxuosas (e libidinosas) festanças romanas do seu passado. E também o Parque que Camilo Castelo Branco chegou a conhecer, e sobre o qual escreveu dezenas de páginas, ora em jeito romancista, ora em jeito documental, bastas vezes sem conseguir conter uma pincelada crítica à fauna que cá conheceu.

A altivez das sequóias no Parque das Termas, Vizela

Sequóias, setas apontadas ao céu

Das termas morreu um parque

Mas tudo o que é bom, acaba. A voga termal, depois do pico atingido na década de 1920, nos loucos anos da Dolce Vita, inflectiu. A década de 1930 inverteu tendências e daí para a frente Vizela prioritizou o empreendimento industrial como substituto da mão de obra antes aplicada às caldas, uma transformação que viria a ter prejuízos quase irrecuperáveis na poluição do seu principal rio.

O pólo de Vizela deslocou-se do seu centro natural, que no fundo era o centro termal. E o Parque das Termas, reduzido a uma condição periférica inédita na sua história, ressentiu-se. A progressiva degradação dos caminhos, do coreto, do rio, ajudou à festa. De ano para ano, menos gente queria passar tempo no Parque. Chegou ao ponto de, na entrada do século XX para o século XXI, este espaço de flirting da fina-flor nortenha virou hospedagem de prostituição e campo de bandidagem.

O cheiro de um rio doente, que o meu caro companheiro de visita a Vizela, Júlio César Ferreira, me descreveu como um lodo onde “se atirava um pau à água e ele ficava de pé”, aliado ao abatimento de árvores de velhas raízes, e até aos testemunhos de toxicodependência que por aqui passaram, perfilam uma imagem paradigmática do que o Parque das Termas se tinha tornado. Os banhos terapêuticos também estavam em queda livre, com constantes despedimentos de pessoal, até ao seu encerramento no final de 2009. Tudo apontava para que a zona termal vizelense se transformasse numa charneca de fantasmas, só disfarçada pela opulência de algum arvoredo, nomeadamente o conjunto de sequóias e tílias, provavelmente a única coisa que por aqui continuou a crescer, indiferente à decadência envolvente.

Das termas ressuscitou um parque

Felizmente, a Câmara Municipal de Vizela resolveu meter-se no assunto. É para isso que as autarquias servem. Numa colaboração com a Companhia de Banhos de Vizela, que até aí tinha tutelado a administração do Parque das Termas, fez-se os possíveis para renovar as caldas, a seiva da zona balnear vizelense. Resultou.

Mais pessoas procuraram as águas sulfurosas por questões de saúde, de bem-estar, ou apenas por prazer. E de arrasto salvou-se o Parque, que também foi intervencionado, primeiro em 2019, com enfoque na zona do monte, e no momento em que escrevo estas linhas decorre nova requalificação, agora junto ao eixo ribeirinho, com levantamento de muros e instalação de um passadiço de madeira. O próprio rio, não estando translúcido como se quer, mostra-se em bem melhor forma do que há vinte ou trinta anos. E o chalet foi reaproveitado como restaurante de sushi, o Miyuki, por acaso bastante bom. Soube de uma vizelense que há intenção de organizar no Parque um festival de música para uma público vintaneiro no futuro. Desconheço se está confirmado, mas só haver vontade para já significa alguma coisa. E que a iniciativa venha de malta jovem é outro bom prenúncio. Como renovar sem gente nova?

Como presente, o Jardim das Termas foi integrado na Rota dos Jardins Históricos de Portugal. Tudo boas notícias que indicam que a cidade se pode recentrar no seu pulmão. Vizela está melhor…

Homens conversam junto à fonte do Parque das Termas de Vizela

Fonte no Parque de Vizela

Promoções para dormidas em Vizela

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=41.37381​; lon=-8.30786

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