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Desde que caminham espécies humanas nesta finisterra por onde ainda vagueamos e vivemos, que a morfologia e carácter das paisagens se mutou um cem número de vezes.

Nestas metamorfoses, flora e fauna transfiguraram-se e o Homem, nómada insurrecto e observador obcecado, esforçou-se por registar testemunhos desse Mundo Natural em que vivia.

Mas existirá algum sítio em Portugal onde esses registos ainda sejam visíveis? Haverá então algum ermo esquecido onde ainda podemos observar grafias pré-históricas, lado a lado com os seus descendentes vivos?

Com certeza que sim. E o lugar por excelência é a Faia Brava.

Microcosmos primitivo

No sítio onde o Diabo perdeu as botas, o Estio e o Inverno digladiam supremacia, entre colinas e prados, multiplicando os charcos temporários e riachos ora secos ora abruptos, afluentes de um rio de nome ecóico e misterioso, arquitecto de canhões e vales, que paciente rasgou por eras incontáveis.

Estamos a falar do Côa, esse fluxo ancestral, que como se sabe de sobejo, corre para o Douro, por entre meandros, famosos pelos testemunhos de épocas em que a desertificação não era seca, mas gelada. Escondidas em recantos, linhas cravadas e picotadas em lajes de pedra, ou borrões e rasgos de tinta sobre penedos, testemunham, com extraordinária tenacidade, a quem os souber encontrar e ler, os vultos que afinal já percorrem estes ermos há eras incontáveis.

Na fronteira entre Pinhel e Figueira de Castelo-Rodrigo, um núcleo de gravuras rupestres, protegidas pela UNESCO, secundam-se agora de exemplos vivos dos animais que se esforçam por representar.
Gado bravio, percorre hoje os mais de 800 hectares de terreno, despovoado de gente mas a rebentar com nova vida, selvagem e livre, naquela que é a primeira reserva natural privada do país.

A Faia Brava, integra uma área ainda maior de protecção ambiental, com a Rede Natura 2000 (Vale do Côa), a rede Rewilding Europe e a Birdlife International Important Bird Area.

Equídeos olham as câmaras na reserva privada da Faia Brava

Garranos na Faia Brava

Uma estrada para a natureza

Mas a quem se deve este fenómeno?

Nada mais que à Associação Transumância e Natureza (ATN), entidade sem fins lucrativos que fará em Junho do ano de 2020, vinte anos de existência, estando já a preparar festa digna de tal aniversário.

Pelo nome se percebe facilmente o seu objectivo. Com tempo, dinheiro e muito trabalho, conseguiu, finalmente em 2010, oficializar aquela que ainda é a maior área de proteção privada de Portugal, exemplo que tem sido seguido por tantas outras associações semelhantes (como a Montis e a Quercus) e que se tem revelado, ao longo dos anos, como um verdadeiro case study da preservação ambiental bem sustentada e com claro crescimento e inovação.

De facto, embora tenha já outras áreas protegidas, a Faia Brava continua a ser a grande bandeira da ATN, pois veja-se como conseguiu em pouco tempo recuperar terrenos incultos e exaustos das campanhas de trigo do Estado novo para montados e bosquetes, capazes de albergar fauna e flora em perigo numa reserva que cresce todos os anos.

A meta de fazer do Côa um corredor ecológico vê-se no empenho com que as espécies da Faia Brava são catalogadas (e controladas, no caso das invasoras) e fomentadas a crescer, para aumentar ao máximo a biodiversidade da reserva, já bem patente no ciclo natural com que os grandes herbívoros controlam a mata (evitando incêndios) e fornecem cadáveres para os abutres poderem fixar-se na zona.

E que espécies são estas? Além dos cervídeos, foram introduzidos garranos, cavalos semisselvagens extremamente carismáticos, e ainda vacas maronesas e touros sayagueses, integrados no projecto Taurus (projecto de recuperação do extinto auroque, através de raças domésticas suas descendentes). Para completar as espécies referidas no picotado pré-histórico, faltam os caprinos, mas talvez mais cedo que mais tarde venham finalmente as licenças para se introduzirem cabras montesas na reserva.

Quiçá se juntem a todos os peixes, insectos e árvores centenárias, os grandes predadores, o único elemento ainda em falta, no puzzle do ciclo da vida, e seja possível enfim tornar a ver linces e a ouvir uivos na zona, de alcateias residentes e não apenas lobos solitários.

E em baixo, o Côa

O Côa visto da Faia Brava

Exemplo a seguir

A ATN não só dá cartas na atracção de capital e fundos europeus, como tem demonstrado temeridade em tudo o que faz. Além de promover uma forte interacção com a população e entidades locais, esforça-se por preservar saberes antigos no uso de fornos comunitários, na construção tradicional de casas de xisto e adobe e na reconversão de dez pombais tradicionais (essenciais para fomentar a população de pombos, presas das aves de rapina).

Além disso, o esforço de pôr a região no mapa e de aumentar o número de visitantes é patente nos cursos que ministra, na manutenção da Grande Rota do Côa (que praticamente sozinha fundou e preserva), e ainda na introdução de turismo de Natureza de alta gama, projectando uma zona até agora ignorada como local de excelência para safaris fotográficos, aquisição de produtos biológicos e glamping, o termo moderno para campismo com luxo, no meio da Natureza.

O que ver e fazer na Faia Brava

As actividades e eventos calendarizados são óptimas formas de partida para a exploração da reserva, mas o seu acesso pode ser feito em qualquer altura do ano.

Além dos pombais, casario tradicional e miradouros de cortar a respiração, é ainda possível visitar gravuras rupestres, campos de alimentação de aves necrófagas (espetáculo extraordinário de corvos, grifos, britangos e demais abutres), abrigos fotográficos para birdwatching cercados de repovoamento de coelho-bravo, o viveiro florestal, locais de campismo, etc, etc.

A reserva é atravessada por mais de 15 km de trilhos pedestres (Grande Rota do Vale do Côa, Trilho dos Moleiros, Trilho dos Sobreiros, Trilho da Barca e Trilho dos Biólogos), todos estes diferentes e todos com potencialidades de avistar flora diversa e animais diferentes (para ver a panóplia crescente de espécies presentes, basta visualizar um dos vários vídeos do ATN, feitos com armadilhas de câmeras, espalhadas pelo terreno).
A Faia Brava pode ser percorrida a pé, de bicicleta, de cavalo ou de jipe e é possível pernoitar.

Uma iniciativa privada de serviço público

A maior reserva natural privada no país

Como contribuir

A ATN está sempre a precisar de ajuda, e não fosse a contribuição de todos e o sacrifício de muitos, há anos que teria desmoronado o projecto.
A inscrição como sócio é fundamental, mas não se fica por aí.

Além dos cursos e actividades, a compra do merchandising que disponibilizam ou a reserva de visitas e estadias no glamping, são boas maneiras de contribuir e obter algo em troca. Voluntariado é sempre preciso, tanto para controlar a fauna e flora, como para vigiar incêndios ou trabalhar o terreno.

Para complementar, existem ainda linhas e contas bancárias para contribuir, com objectivos específicos, seja na compra de terrenos ou na abertura de poços.

A seriedade e transparência em tudo o que a ATN faz é bastante visível, nos seus comunicados, blogues, site, vídeos e reuniões, o que fomenta, sem dúvida, a confiança no investimento feito.

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=40.92538 ; lon=-7.10217