Janeiras

by | 17 Dez, 2018 | Festas, Janeiro, Tradições

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O início do mês de Janeiro é conhecido pelas cantorias que se fazem de porta em porta. São as Janeiras, ou Charolas (em versão algarvia). Cantos aos Reis, a Janus, e ao ano que aí vem.

O que são as Janeiras?

As Janeiras são cantares que se fazem como desejo de bom ano, ao mesmo tempo que se pede uma recompensa (sobras das noites abastadas de Natal, bolos, lembranças, dinheiro) como contrapartida.

São entoadas durante a noite, logo no início de Janeiro, entre o dia 1 e o dia 6, este último conhecido como Dia de Reis, em lembrança dos Reis Magos, razão pela qual são muitas vezes confundidas com os Cantares dos Reis.

Era antes um gesto comum entre as classes mais pobres que, por hábito, batiam às portadas dos senhores mais abonados das suas aldeias e vilas – daí Zeca Afonso ter intitulado a sua janeirada de “Natal dos simples”. Hoje, embora esta separação ainda possa acontecer, as Janeiras são um acto transversal, levando a que muitos homens e mulheres, independentemente da classe, se juntem em cantoria ambulante. Recentemente, para combater o seu desaparecimento enquanto manifestação improvisada, alguns municípios têm apostado na organização de concertos em espaços públicos – jardins municipais, coretos e casas da cultura.

Origem das Janeiras

As Janeiras vão buscar o seu nome a Janeiro, que por sua vez vai buscar o seu nome a Janus, Deus das Portas do Céu ou, de outra forma, Deus dos Princípios ou das Entradas.

Janus é retratado como um Deus de duas faces, viradas para sentidos opostos, representando assim o que passou e o que está para chegar – e assim se colou à imagem de transição e, na prática, à ideia de passagem de ano.

Foi uma Deidade bastante cultuada pelos romanos nesta altura do ano, a quem se pedia sorte para o porvir. As nossas Janeiras, entretanto cristianizadas com canções ao menino Jesus (mas não só), a nova luz, derivam dessas fartas Saturnais e Strenas romanas, onde o regresso ao ciclo solar da Terra era saudado.

Levou, com o tempo, revestimento novo, onde se encaixaram melodias que intercalam o maldizer e a religiosidade, suportadas por instrumentos típicos: a viola clássica, o reco-reco, os ferrinhos, a flauta e o bombo são presenças assíduas. Outros também, dependendo da região. E, por vezes, nem instrumentos são necessários – basta que a voz não gele.

As Janeiras chegaram mesmo a ser erradicadas da cidade de Lisboa e arredores por se tratarem de resquícios pagãos num país já definitivamente cristianizado. No campo, contudo, a tradição nunca desvaneceu, parecendo até ser impulsionada pela proibição de que foi vítima na capital.

Escultura a Janus

Janus, Deus das Transições, representado como velho e novo, passado e futuro

Onde se cantam as Janeiras?

Resposta fácil: em todo o centímetro deste país, incluindo Açores e Madeira. Na verdade, podemos até dizer que as Janeiras, com as inevitáveis adaptações culturais, são comuns em praticamente toda a Europa Ocidental. Mas concentremo-nos nas de cá…

No Algarve, sobretudo no Sotavento, há uma singular interpretação das Janeiras ao qual se deu o nome de Charolas (que já mereceram destaque neste espaço). Os cantares do oriente algarvio têm uma estrutura distinta e são habitualmente acompanhados por castanholas.

O Alto Alentejo, o Baixo Alentejo, o Ribatejo e a Estremadura gozaram de um recente regresso a esta tradição (mais ainda a Estremadura que, por influência de Lisboa, viram as Janeiras ser censuradas durante uma boa parte da sua história). As províncias alentejanas, por outro lado, parecem até ter rejuvenescido com a valorização do Cante Alentejano e do seu cruzamento com as Janeiras.

E depois temos toda a metade setentrional do país, começando nas Beiras e indo até ao Norte propriamente dito, onde as Janeiras adquirem o seu carácter mais popular. É nesse Portugal mais frio e chuvoso que, por ironia, as Janeiras se tornam boémias e extrovertidas, entoadas por vizinhanças que, conhecendo-se desde a nascença, não perdem a oportunidade de dar música à terra. Mas também há concertos – Braga, em particular, tem a sua afamada “Edição de Cantares de Reis e Janeiras”. E o Minho, sendo mais genérico, é capaz de esticar os seus festivais de janeiradas até perto do final do mês.