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Foi com o meu caro Júlio César Cunha Ferreira que desci a escadaria octogonal da Bica Quente, na Lameira, o âmago de Vizela, para experimentar, com as mãos, a temperatura da água sulfurosa que de lá sai.

Confirmou-se: estava quente, e daí o nome, a Bica Quente. O Júlio, todavia, emendou-me: “Não é a Bica Quente, é a Bica de Água Quente”, porque o que está quente é a água, não a bica. E é verdade, o que está quente é a água, a cerca de 30 ou 35 graus, pelo que o meu termómetro interior me diz. Vem lá de baixo, de um subsolo profundo que acabou por moldar toda a história do povo vizelense.

As antigas termas

A Bica Quente encontra-se na Praça da República, o centro de gravidade da cidade de Vizela, e marca o lugar das antigas caldas romanas que, como se sabe, foram reaproveitadas mais tarde, e assim duraram até ao momento em que o núcleo termal foi definitivamente transferido para a beira rio, onde agora se encontra aberta a novos banhos. A esse respeito, como prova da mudança de morada dos balneários de Vizela, há um túnel que parte de um ponto ao outro, começando na Bica Quente e seguindo no substrato de Vizela, por baixo da praça, dos CTT, do Hotel Bienestar, como um metro fluvial, até parar junto às Termas de Vizela.

Sendo de fora, requer alguma imaginação tentar visualizar como seria todo este largo quando era vivido pelas elites de Roma para cá destacadas. Porém, há alguns sinais, ainda que discretos, que ajudam. Um deles é a calçada, que decalca de alguma forma os padrões encontrados nos mosaicos romanos aqui desterrados aquando das escavações arqueológicas. Mas o principal, para mim, é mesmo a Bica Quente – ou a Bica de Água Quente, para usar o termo que é descritivamente mais correcto. A maneira como está montada, em jeito de tanque terapêutico, a lembrar até os jacuzzis modernos, atira-nos para essas eras em que o Lácio administrava a Europa.

Como arremate, uma placa dedicada a Bormânico foi colocada na laje dianteira da fonte. Bormânico deverá ter sido um Deus céltico da medicina e da cura, mais tarde adaptado às caldas (porque as caldas curam) –  abordei o seu culto em Vizela (e não só) no texto dedicado às actuais termas. E no topo da escadaria, num banco que circunda a bica, uma estátua à escala natural homenageia o Dr. Abílio Torres – muito semelhante à de Camilo Castelo Branco, situada na mesma praça, a poucos metros de distância -, médico que foi Director Clínico das Termas de Vizela. Que bela concordância que a Bica Quente criou: um Deus da medicina em baixo, um profissional da medicina em cima.

A Lenda da Bica Quente

Se calhar por ser quente, e por associarmos o calor ao acolhimento, diz-se que quem molhar os dedos da mão na fonte vizelense fica prisioneiro da terra. Como contei no início, fiz o teste. Prisioneiro num sentido literal, não sei, até porque no mesmo dia consegui rumar ao Porto. Porém, fiquei com a certeza, nessa curta viagem, que a minha relação com Vizela tinha v de volta. Deve ser esta a prisão de que as gentes de cá falam – uma memória agrilhoada a esta terra que nos leva sempre a retornar.

O relato lembrou-me uma outra lenda muito semelhante contada em Vendas Novas acerca do seu Chafariz Real, que afirmava que quem bebesse daquela água jamais de lá sairia. A crença, de resto, vem sublinhar mais uma vez o carácter milagroso com que o povo vê certas águas que considera especiais, e em Vizela não há nada mais especial do que a água.

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=41.37697 ​; lon=-8.30827