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Acabando por ser o parente masculino da vila de Monsaraz, Marvão é uma massa rochosa nortenha cravada num cole alentejano.

Miradouro de Espanha

Lá do cimo, olhando para nascente, espiamos metade de Espanha. Daquele castelo bruto, de uma tala que faz antítese à leve elegância da planura alentejana, acreditamos ser donos de tudo aquilo que lá há em baixo.

Àquela distância, e do topo dos seus mais de oitocentos metros de altitude, o que se vê é sempre em ponto pequeno. À volta olha-se um verde estranho à província. Não é o verde seco da oliveira ou do sobreiro. Aqui o verde é atlântico, frio e húmido, é quase verde celta, saído dos comados castanheiros que vão subindo a serra connosco, antes de darmos com o Convento de Nossa Senhora da Estrela, à esquerda de uma longa curva em U, de origem medieval. Só depois, no cocuruto, chocamos com a bruteza destas muralhas do tamanho de exércitos.

Marvão, grosso modo, pode ser três coisas. O monte, o castelo, ou a vila, sendo que mais facilmente, ao empregarmos a palavra, referimo-nos às três, como se fossem inseparáveis, e na verdade quase que o são.

Do monte podemos dizer que é uma espécie de ilhéu perdido que se emancipou das serras beirãs, a reboque da Serra de São Mamede, tanto que há documentos históricos que o confundem como parte dos montes hermínios, isto é, como parte da Estrela, e daí talvez haja uma eventual relação com o nome do convento que falámos acima, ao qual uma lenda de tesouros e visigodos está associada – matéria que o Portugal Num Mapa discorrerá noutras escrituras.

Da vila, intra-muralhas e medieval até ao osso, sublinhamos que é dos melhores exemplos de arquitectura vernacular em Portugal, de materiais contextualizados com a envolvente, enquadrada na paisagem áspera e austera, e sem atentados ao bom gosto, como começa a ser frequente ver-se, sobretudo pela mão de gente que acha que a sua vaidade está acima de tudo o que a rodeia. A vila de Marvão, felizmente, está livre de tais pecados. Casas baixas, brancas, amontoam-se serenas às vontades de um relevo traiçoeiro.

E do castelo, que são dois braços gigantes e musculados a proteger com a força do quartzo todo o casario interior, tornando-se mais bélico à medida que vai crescendo até ao seu ponto mais alto, onde está a torre de menagem e a magnífica cisterna. Transforma-se assim a complexa muralha da cúpula de Marvão como um último baluarte, um plano B, usado como refúgio caso a primeira cerca fosse conquistada. Tem origem mourisca, com desenvolvimento já cristão, e viu-se tonificado por alturas da Restauração da Independência, quando a raia partilhada com Castela era amiúde alvo de confronto entre os dois exércitos ibéricos.

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=39.393945 ; lon=-7.376536