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No século XVIII, as Casas da Roda (ou Casas dos Expostos, ou ainda Casas dos Enjeitados) distribuíram-se por todo o país em pouco mais de um ou dois anos. Vieram para resolver um problema, criando tantos outros. Algumas sobreviveram até ao presente momento, embora abdicando do seu principal exercício.

A história dos expostos portugueses e das casas que os recebiam

Um exposto, ou enjeitado, como antes se costumava dizer com frequência, era uma criança (habitualmente ainda bebé ou mesmo recém-nascida) abandonada pelos pais.

Por muito que custe pensar nisso hoje, o abandono era um gesto relativamente frequente na Europa medieval, tendo em conta que os laços criados entre pais e filhos estavam longe daquilo que são agora e a morte de alguém com poucos meses de vida era coisa trivial. Fosse por pobreza extrema, que seria a hipótese mais provável, fosse pela vergonha de um filho ilegítimo – fruto de adultério, de relação proibida ou descriminada, de mãe solteira -, razões não faltavam para fugir ao rebento, numa altura em que os contraceptivos eram inexistentes e as tentativas de aborto matavam filho e progenitora.

Ainda assim, muitas eram as crianças que nem a oportunidade do enjeito parental tinham, sendo antes vítimas de infanticídio, afogadas em rios ou sufocadas pelo pescoço. Um problema moral, demográfico, e económico, que tinha de ser resolvido quanto antes.

Terá sido no século XII que os países europeus, seguindo instruções papais, começaram a montar rodas em determinadas casas para que as crianças fossem lá depositadas de forma anónima, graças a um mecanismo (uma roda) que impedia os depositários de serem vistos – à partida, o fenómeno começou em Itália (Roma e Milão), expandindo-se depois pelos restantes países do Velho Continente. Desta forma, pretendia-se que, ao invés de assassinadas ou deixadas no chão (sujeitas a pestes, a ataques de animais, ao frio e à chuva e à exposição solar), os recém-nascidos fossem entregues a alguém habilitado para os criar.

Obviamente, Portugal, enquanto país cristão e seguidor das linhas directivas do Papa, adoptou o hábito. Difícil é dizer quando ele começou. Poderá ter surgido inicialmente nas maiores cidades, e de forma orgânica – Lisboa foi pioneira nacional, tudo indica. Mas o primeiro grande boom aconteceu na ponta final do século XV, quando as irmandades da Misericórdia apareceram e ajudaram na adopção, quase sempre apoiadas financeiramente pelo poder local.

Já no século XVI, D. Manuel ordenou que, caso não existissem Casas dos Expostos nos seus domínios, fossem as câmaras a sustentar estes rapazes e raparigas que ninguém queria. D. Filipe III (II de Portugal), no início do século XVII, ordenou o mesmo. A parceria, entretanto, formalizou-se: da parte das concelhias vinha o dinheiro, da Misericórdia vinha o know how. Todavia, e admitindo melhorias na taxa de mortalidade, esta continuava bastante alta – cerca de dois terços das crianças entregues às Casas da Roda finavam, o que obrigou a um reforço na quantidade e na dispersão destes postos de adopção.

A grande vaga de Casas da Roda chegaria assim no século XVIII e estendeu-se até quase ao final do século XIX, quando uma circular de 1783 no reinado de D. Maria I, aplicada por Pina Manique, impôs a sua construção em todo o território português, obrigando à presença de uma por cada concelhia. Como é de prever, as Casas da Roda dispararam. O objectivo era erradicar o infanticídio, que se mantinha alto, e evitar o comércio de recém-nascidos que existia, sobretudo daqui para Espanha, nas povoações fronteiriças.

Nesse período, entre a segunda metade do século XVIII e a primeira do século XIX, foram milhares os expostos entregues às Casas da Misericórdia. Tantos que as entupiram, resultando num excesso de bebés por berço, e consequentemente na morte de muitos deles. Os meios escasseavam, financeiros e logísticos.

A partir da década de 1830, com a chegada do liberalismo e depois de novas abordagens à política nacional se estabelecerem, as Casas dos Expostos começaram a ser abertamente criticadas. Em 1867, o primeiro sinal do fim das Casa da Roda aconteceu: os pais não poderiam mais fazer a entrega anonimamente, passando a fazê-lo nos ditos hospícios. Em 1870, depois de muita oposição popular, científica, intelectual, e política, as Casas dos Expostos terminaram, pelo menos em papel. Algumas continuaram em actividade, sendo progressivamente substituídas por instituições de perfil moderno, semelhantes aos actuais orfanatos, que obrigavam os pais a dar a cara aquando da entrega dos filhos e a justificar o porquê de o fazerem – no fundo, a exigir uma maior responsabilização da parentalidade -, ao mesmo tempo que garantiam maiores apoio e formação às mães.

Funcionamento das Casas da Roda

As Casas dos Enjeitados situavam-se, quase sempre, em áreas periféricas ou inóspitas das povoações, relativamente desertas de trânsito humano, para que a entrega pudesse ser feita de forma sigilosa, com a ajuda do manto da noite.

O bebé era deixado num dispositivo (a tal roda – ver foto em cima) implantado na parede, do lado de fora, que girava sobre um eixo e permitia a comunicação com o lado de dentro, onde se encontrava a mulher que o recebia, apelidada de rodeira. Após colocado o bebé no compartimento giratório, a mãe batia na parede ou na porta, ou tocava um sino lá instalado para o efeito, de forma a avisar alguém que se encontrasse no interior. Assim se garantia que quem estivesse no interior da casa nunca pudesse observar ou ter contacto com a pessoa que abandonava o seu filho.

Com as crianças, ia muitas vezes um enxoval e, para os pais que sabiam escrever, o nome do bebé, o que seria raro. Muitas levavam consigo determinados objectos como fitas, tecidos, cartas, medalhas, pedaços de papel, qualquer coisa que as identificasse mais tarde, caso a mãe os quisesse resgatar. Eram os chamados sinais que, anos depois, mediante a apresentação de um contrassinal (muitas vezes uma segunda parte do mesmo tecido, da mesma medalha, do mesmo papel…), garantia o reencontro entre ambas as partes. Seriam, ainda assim, casos muito excepcionais, aqueles em que a criança retornava para os braços maternos. A este respeito, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa dispõe hoje do maior acervo de sinais do mundo, segundo se diz.

À rodeira pedia-se que tratasse da criança nos primeiros dias de vida, dando os cuidados necessários de amamentação e higiene. A ela, ou à Misericórdia que a empregava, era também dada a responsabilidade de baptizar o recém-nascido, levando quase sempre com um apelido católico, associado a um santo ou a uma figura bíblica – alguns dos apelidos frequentes de hoje em dia, como Santos ou Deus, têm aí origem. Assim que o bebé se encontrava apto a sair da Casa da Roda, era enviado para uma ama, quase sempre residente nas zonas rurais do país, numa viagem perigosa, normalmente de burro ou, com sorte, numa carroça.

As amas acompanhavam o crescimento do miúdo. Eram pagas e controladas para isso. Mas durava até que ele chegasse aos sete anos de idade. A partir daí, o processo de adopção cuja responsabilidade principal era da câmara, terminava. O miúdo podia continuar com a sua ama, mas esta já não receberia qualquer rendimento por isso. O normal, caso fosse homem, era enviá-lo para uma qualquer actividade menor, tornado-se um moço de serviços ou, havendo jeito, para aprender um qualquer ofício procurado, como carpintaria. Outros, menos habilidosos, seriam leiloados. Em casos extremos, deixavam-nos à sua sorte, tal e qual como lhes acontecera quando nasceram. Caso fosse mulher, com alta probabilidade levava o nome de Maria e o habitual seria integrá-la numa convencional tarefa doméstica. A partir dos doze anos, os miúdos estariam em idade livre, podendo, por si só, integrar o mercado de trabalho como bem entendessem.

Ainda hoje há gente em Portugal, curiosa com o seu passado, que esbarra num vazio de referências à sua ascendência quando chega a três ou mais gerações acima. Alguns deles, quando escavam, com persistência, a sua linhagem, percebem que são descendentes directos de crianças abandonadas que encontraram fora da sua família o caminho para a sobrevivência – são, para todos os efeitos, descendentes directos da Roda.

Casas da Roda em Portugal

Muitas foram destruídas. E muitas não sabemos sequer onde se situavam. Mesmo assim, há Casas da Roda que se aguentaram até hoje, abandonadas ou adaptadas a uma nova realidade.

Casa dos Expostos de Almeida

Encontra-se na rua da Muralha, na linha limítrofe da vila, comprovando a afinidade destes espaços com as zonas mais desertas das povoações. Tem a inscrição “Roda dos Eispostos” em cima da porta de entrada. Junto à inscrição vemos a data 1843, que deverá ser o ano da sua conclusão ou da altura em que foi nomeada para acolher os enjeitados.

Casa da Roda de Caria

No concelho de Belmonte, a Casa da Roda é um singelo edifício granítico, com data de 1784. Recuperada há pouco tempo, a roda ainda lá está, em madeira, com duas cavidades – a maior para a colocação do bebé, a menor para os objectos que o deviam acompanhar.

Casa da Roda de Torre de Moncorvo

Casa tipicamente transmontana, com piso de cima com acesso pelo exterior, que já foi posto de turismo e está agora transformado em museu. Encontra-se perto da Igreja da Misericórdia, no bairro histórico de Torre de Moncorvo. Tem data de 1785 e exibe, no seu interior, objectos e lides da rodeira. Terá sido substituída pela Roda Hospício, em Bragança, no momento em que se decidiu proibir as actividades ligadas às Casas de Enjeitados.

Casa da Roda de Celorico de Basto

Bonita casa de feição tradicional, em pedra, situada no Largo Dr. António Marinho Dias, bem no centro de Celorico de Basto.

Casa da Roda da Praia da Vitória

Também nos Açores temos exemplos de casas que albergavam enjeitados. Na Ilha Terceira, a Casa da Roda encontra-se agora devoluta, depois de passar por muitas mãos, incluindo a da Comissão de Protecção de Menores.

Casa da Roda de São Vicente da Beira

Não se sabe exactamente onde poderá ter funcionado mas os locais acreditam que há um suspeito principal: uma casa típica, com molduras pintadas a branco na portada e nas janelas, no topo da rua da Cruz, também no limite da povoação.

Casa da Roda de Moura

No Baixo Alentejo, mais concretamente na cidade de Moura, a Casa da Roda não foi construída de raiz mas sim seleccionada de entre várias que se encontravam na rua dos Açougues (actual rua 1º de Dezembro). Só depois, por decisão da câmara, mudou para a rua de Santa Catarina, aproveitando uma antiga hospedagem de clérigos ou peregrinos do Convento da Tomina.

Casa das Paivas

Na cidade de Braga, uma bela residência quinhentista conhecida como Casa dos Paivas transformou-se, mais tarde, na Casa da Roda bracarense. É provavelmente a mais bonita antiga Casa da Roda em território nacional, e serve hoje a Junta de Freguesia de São João do Souto.