Caminhos de São Bento

by | 26 Mai, 2021 | Lugares, Minho, Natureza, Províncias, Rotas e Caminhos

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Perpendicular ao Caminho de Santiago que passa pelo litoral norte, os caminhos de São Bento da Porta Aberta são particularmente venerados pelos esposedenses – mas não só. Trata-se de uma jornada religiosa mas serve perfeitamente outros interesses menos piedosos.

A rota

Os Caminhos de São Bento são comuns a toda a província do Minho. A história que se conta sobre eles é já antiga, remontando, pelo menos, ao século XII: a ida ao São Bentinho recolhia muitos adeptos na costa noroeste portuguesa, com destaque para a zona de Esposende, de onde os peregrinos partiam com sal nas mãos para oferecer ao santo – uma curiosa tradição que tem reflexo no São Bento das Pedras, em Vizela, onde além de sal são ofertados outros objectos desde que de cor branca. A rota era feita, habitualmente, a meio do mês de Agosto, e misturava fé católica com profanidade popular. Sendo em Agosto, para se evitar ter o sol como acompanhante, a jornada era feita pela noite, e em muitos casos por gente descalça.

Assim se manteve a tradição até ao século XVIII, altura em que os fiéis se multiplicaram e os Caminhos de São Bento assistiram a uma afluência nunca antes vista. O calendário das peregrinações estendeu-se a todo o ano, em vez de se concentrar apenas em Agosto ou nos meses de Verão. A capela que funcionava como destino final e que contava invariavelmente com a sua porta aberta, valendo-lhe daí o nome que se mantém até à presente data, teve de ser substituída por um templo mais adaptável à nova procura – o actual Santuário de São Bento da Porta Aberta, recentemente elevado a basílica. E é em todo este contexto que percebemos no que a viagem até ao São Bentinho se transformou hoje: uma reestruturada e muito bem servida rota, mapeada e pensada por uma parceria de vários concelhos cercanos do rio Cávado.

De facto, a defesa da continuidade de uma jornada histórica e cultural aproximou seis municípios e impeliu-os a uma colaboração exemplar. Do ponto de partida até ao ponte de chegada, os seis concelhos percorridos são Esposende, Barcelos, Braga, Amares, Vila Verde e Terras de Bouro. Todos eles acederam à ideia de uniformizar a sinalização, bem como de complementar o roteiro com placas informativas relativas a monumentos de referência. O resultado está à vista: uma viagem-tributo a um santo que, sejamos ou não crentes, se tornou numa influência tão óbvia que uma ordem – a Beneditina – lhe foi dedicada.

Etapas

Pondo de lado os caminhos secundários e focando apenas aquele que se pode descrever como itinerário principal, o guia oficial segue um plano de sete etapas. A primeira de Fão a Vila Cova. A segunda de Vila Cova a Barcelos. A terceira de Barcelos a Padim da Graça. A quarta de Padim da Graça a Adaúfe. A quinta de Adaúfe a Figueiredo. A sexta de Figueiredo a Abadia. E, por fim, a sétima de Abadia até à igreja de São Bento da Porta Aberta.

Nada contra, mas pessoalmente acho que as etapas são facilmente acumuláveis, sobretudo tendo em conta que a primeira e a segunda etapas acima descritas não chegam aos oito quilómetros cada uma. Assim, e assumindo que para cada etapa se atribui um dia de caminhada, deixo esta alternativa.

Etapa 1 – Fão a Barcelos (aproximadamente 18 kms)

É virar costas ao mar, sem olhar para trás, e seguir pelo interior adentro, até que o sal da maresia nos deixe o nariz. Uma jornada fácil, apenas exigindo um esforço pequeno no final, antes da chegada a Barcelos. A dormida pode ser feita na Barcelos Way Guest House (conhecida por albergar peregrinos de Santiago) ou no Art’Otel Barcelos.

Etapa 2 – Barcelos a Padim da Graça (aproximadamente 13 kms)

Vamos caminhando paralelamente ao Cávado. A paragem é feita na povoação de Padim da Graça, no quadrante noroeste de Braga. Havendo tempo, podemos até ir ao coração da cidade de autocarro e jantar por lá – escolha não falta. Recomenda-se a Quinta do Senhor para dormidas.

Etapa 3 – Padim da Graça a Amares (aproximadamente 21 kms)

Começando pelo belo Mosteiro de Tibães, seguimos viagem até passarmos finalmente para a margem direita do rio Cávado, pela Ponte do Porto. Para pernoitar, há duas boas escolhas: a Midway to Gerês and Braga, em Amares, e a Casa d’Amares, mais próxima de Figueiredo.

Etapa 4 – Amares ao Santuário de São Bento da Porta Aberta (aproximadamente 18 kms)

A única etapa que podemos classificar como difícil, sobretudo pela amplitude de alturas que o percurso tem – ainda assim, nada que assuste quem está habituado a estas lides. Depois de alguns altos e baixos, contornando a Barragem da Caniçada em direcção a norte, chegamos ao cerro do santuário. Podemos, enfim, cantar vitória. E, já agora, aproveitar o Gerês. O merecido descanso deve ser feito no Hotel de São Bento da Porta Aberta.