Santuário de Endovélico de Rocha da Mina

O Santuário de Endovélico de Rocha da Mina está situado no coração do Alandroal, por entre um bosque onde os carvalhos tentam a sua sobrevivência contra a propagação progressiva dos eucaliptos, e encontra-se rodeado pelas águas serpenteantes do Ribeiro de Lucefecit, um nome sugestivo que em muito se poderá relacionar com a natureza do deus indígena Lusitano conhecido como Endovélico.

Ir a este santuário é mais do que uma experiência visual, é uma experiência sensorial e poder-se-ia mesmo dizer, apesar do esoterismo implícito, que é uma experiência mística. À medida que percorremos o caminho em direcção ao santuário, por entre o bosque denso que mesmo em dias de sol parece ter uma escuridão própria, o ribeiro de Lucefecit parece-nos guiar pelo caminho, com a sua corrente aparentemente a acompanhar o ritmo dos caminhantes, e o som das águas a criar um chilrear em conjunção com os sons do bosque, acentuando ainda mais a forma serpenteante do curso do ribeiro. Ainda a alguma distância do santuário, por entre a folhagem dos altos eucaliptos, começa-se a visualizar um elevadíssimo afloramento natural de xisto, uma visão imponente e poderosa que de imediato nos provoca uma sensação de respeito e solenidade. Apesar de se tratar de um afloramento natural, ao caminhar em direcção ao mesmo consegue-se ter a percepção de se estar perante alguma forma de templo, tal a atmosfera criada pelo afloramento, que parece engolir o sol em grande parte do dia, ficando os seus raios a reluzir nos contornos do imponente templo natural, em concordância com o carácter tanto ctónico como luminoso do deus Endovélico.

Para os povos célticos ou celticizados, como os Lusitanos o devem ter sido, os templos e santuários divinos encontram-se na própria Natureza, e não em construções por mão humana. Ao contrário do santuário romano, de génese posterior, no outeiro de S. Miguel da Mota, já romanizado e como tal tendo sido um reduto de colunas de mármore e estátuas representativas de Endovélico, o santuário de Rocha da Mina deverá ter sido o santuário primitivo a Endovélico, o santuário original Lusitano. Apesar do santuário de S. Miguel da Mota ser muito importante devido ao número de estelas com dedicações a Endovélico em latim e estátuas representativas, o carácter primitivo de Rocha da Mina também mereceu a atenção por parte de eminentes arqueólogos como Leite de Vasconcelos, e mais recentemente por arqueólogos contemporâneos como Manuel Calado ou Maria João Correia Santos, além de estudos mais ao nível do carácter esotérico e iniciático do santuário por parte de Paulo Alexandre Loução ou Gilberto de Lascariz.

Tal como já se tinha verificado em estelas no outeiro de S. Miguel da Mota, a investigação arqueológica e interpretativa atribui ao santuário de Rocha da Mina também uma função de oráculo, em semelhança com o famoso oráculo de Delfos, na Grécia. Ao chegar ao sopé do santuário, encontramos uma ponte de madeira para atravessar o ribeiro e começar a subida, mas em tempos remotos, os devotos a Endovélico ter-se-ão molhado nas ribeiras do Lucefecit (“fez-se luz”), de forma a “lavarem-se” da sua vida e darem início a uma experiência iniciática na qual receberiam o oráculo de Endovélico. No topo do santuário, encontramos umas escadas talhadas na pedra que nos dirigem para um altar, numa configuração que nos remete para outros santuários rupestres no território português como o de Panóias, Pena Escrita ou o enigmático Castelo do Mau Vizinho. Mais característico de Rocha da Mina, no entanto, é um poço em forma pentagonal no chão do santuário, com cavidades talhadas na pedra em volta das paredes do poço, indicando que possivelmente já terá tido uma grelha de traves de madeira ou um alçapão. Este poço terá exercido ou uma função de pia sacrificial como as existentes nos referidos santuários rupestres, ou, dado a característica de oráculo e de iniciação de Endovélico, de câmara para a incubatio. Esta incubatio terá consistido no pernoitar no santuário, e na recepção de sonhos proféticos ou da aparição em sonhos do próprio Endovélico. De facto, certos testemunhos de dormida no santuário, como o dado por Gilberto de Lascariz numa das suas obras, descrevem estranhos sonhos, onde prevalece a aparição de uma figura negra, onde estranhos rituais são visualizados, e onde se sente a presença de javalis, animal este associado a Endovélico.

Em contraste com o santuário de S. Miguel da Mota, cuja génese romana levou a que no mesmo prevalecesse a face luminosa de Endovélico e a sua natureza como um deus curandeiro, em Rocha da Mina parece sobressair a natureza mais primordial do deus lusitano: um deus ctónico, um deus subterrâneo, que faz a ponte entre este mundo e o outro. De facto, a atmosfera do santuário de Rocha da Mina parece transmitir a ideia de um local sagrado onde a luz e a escuridão se fundem, e onde a presença oculta de Endovélico nos parece acolher.

 

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Coordenadas GPS:  lat=38.662650 ; lon=-7.475103

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Investigador da Universidade Nova de Lisboa nos âmbitos de literatura medieval, culturas e mitologias europeias.