Jogo do Pau

Pensando em artes marciais, o nosso inconsciente aterra sempre em zonas do extremo-oriente, sejam elas Japonesas, Chinesas, Coreanas, ou outras do sol nascente. No entanto, há uma arte marcial bem portuguesa, tradição dividida também com a Galiza  – em mais uma prova de como é ténue esta fronteira que temos a norte de nós -, e ainda nas mais distantes Canárias, aí com uma abordagem bem diferente. No entanto, o lado galego deixou-o cair em maior esquecimento do que o lado luso.

O Jogo do Pau, apesar da nascença humilde que teve, foi praticado pela nata do país. Passou de arma de rua a desporto de reis em poucos séculos. E agora transformou-se num fenómeno cultural, uma espécie de capoeira europeia, uma coreografia de guerra entre dois ou mais indivíduos. Poderá ser feito em um contra um, um contra dois, ou um contra uma boa dezena deles, dando ao praticante solitário oportunidade para mostrar a sua perícia no domínio da vara.

O uso de um varapau ou cajado, que pode chegar aos dois metros, vindo de castanheiro ou de freixo ou de marmeleiro ou de lodão, como instrumento de luta, tem aparentemente origem nortenha, nomeadamente dos arredores de Fafe (terá nascido aí o provérbio justiça à moda de Fafe?). Provavelmente também serrana, dado o uso primário desta vara ter sido feito por pastores ou por rapazes da província – um pau é sempre fácil de arranjar, mesmo nos sítios mais recônditos, com a vantagem de não ter custo, transformando-o numa espécie de espada do pobre. E chegou a ser tão parte do subconsciente das gentes que ficou moralmente assente que ninguém poderia atacar o outro com o que quer que seja se esse não tivesse um pau para se proteger. Seguiu-se a sua introdução em feiras e romarias, aí já numa perspectiva mais performativa e menos de rixa.

Tornou-se uma arte de luta, e hoje é mais falada enquanto isso do que como cajado virado arma defensiva do meio pastoril. Isto porque evoluiu para fora das serras. Foi incluída como arma bélica do exército português, com fortes hipóteses de ter sido usada em batalhas chave da história militar lusitana, como a Batalha de Aljubarrota ou nas investidas contra os pelotões napoleónicos. Mais tarde, podemos dizer que houve uma espécie de oficialização cultural do Jogo do Pau, passando de paisagens mais bucólicas para as praças dos vilarejos migrando mais tarde para alguns (poucos) ginásios urbanos, sendo a madeira, aí, substituída por fibra de vidro. Nestes, e tal como em outras artes de luta, a classe do lutador vê-se pela faixa, sendo a escala, em crescendo, a seguinte: amarela, verde, preta e lilás (destinada ao Mestre).

É justo dizer que hoje o jogo do pau é tanto do Minho e de Trás-os-Montes como do Ribatejo, neste último estando adaptado à coreografia máxima das ribas do Tejo: o fandango, dança de cortejo, feita de homem para homem, com o intuito de conquista da mulher.

Pode-se, enfim, dizer que o Jogo do Pau está para Portugal como a Capoeira para o Brasil, ou o Karaté e o Judo para o Japão, ou o Taekwondo para a Coreia. Infelizmente, com um milésimo da promoção de qualquer exemplo dado acima.

Se estão convencidos, ultrapassaram o medo, e a pergunta final é: onde o podemos praticar? Há sítios no Porto e em Lisboa e no Entroncamento, entre outros, onde o Jogo do Pau é ensinado com toda a segurança que uma arte destas merece.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.