Capela de São Pedro de Vir-a-Corça

A sudoeste de Monsanto, entre Carroqueiro e esta histórica aldeia, esconde-se uma pequena capela com um curioso nome: a de São Pedro de Vir-a-Corça. Encontramo-la antes de subirmos esse monte santificado e empilhado de granito que deu o nome à mais bela aldeia de Portugal.

O lugar é mágico pela combinação de elementos misteriosos que concentra em pouco mais que um punhado de metros quadrados. Neste largo circundado de sobreiros e amarelado de giestas vemos, pelo menos, quatro marcos dignos de nota. Há a ermida em si, românica e datada do século XII ou XIII, conterrânea e irmã de uma outra, a de São Miguel, que se situa já dentro de muralhas, no Castelo de Monsanto. Há um campanário em cima de um penedo (mas sem sino), meio isolado, que emoldura esse monte parideiro de fragas que lá paira em cima. Há duas covas rectangulares numa pedra (entre muitas outras), onde o povo cultuou a lenda de que já iremos falar e que alguns investigadores atribuem a cultos solares, de carácter sacrificial, ligados a Mitra. E há uma antiga gruta que neste momento parece uma casa que Tolkien imaginou para os seus adorados hobbits, pequena e encaixada num penedo. Todos eles se relacionam numa história que o povo construiu.

Escolhendo uma das versões mais populares, dizem que na gruta vivia um eremita chamado Amador, profundamente religioso, que ajudou uma mulher de posses no nascimento do seu filho. Durante o parto, a mulher morria de dores e num acto de desespero pediu que os demónios levassem o seu filho com eles. Assim aconteceu. E o eremita, como bom católico, invocou o seu São Pedro para que o recém-nascido que pôs no mundo lhe fosse devolvido. Uns dias depois, encontrou-o à sua porta. Mas agora o eremita tinha outro problema pela frente: sendo pobre, não tinha como sustentar a criança, e chamou novamente pela sua fé, para que o ajudasse. Apareceu assim uma corça junto à gruta onde ambos viviam que se ofereceu para dar do seu leite à criança até que esta tivesse idade suficiente para poder comer, e aqui passou então a vir, duas vezes por dia. Conta-se hoje que os dois sarcófagos que ali se encontram, quase que escavados à régua na pedra, pertencem ao ermitão e a este filho que adoptou.

A lenda pode ter um significado que recua bem longe no tempo. Não sabemos. Nunca saberemos, na verdade. Mas é possível que esta corça milagrosa seja um resquício da adoração divina que este animal tinha desde tempos lusitanos (conta-se que Sertório, o romano, caiu nas graças dos lusitanos ao dizer que uma corça lhe falava ao ouvido). O que é invulgar, neste caso, é ter um elemento pagão a sobrepor-se ao cristão – na invocação de São Pedro, este enviou um corça, o que não deixa de ser estranho tendo em conta que a força da história põe os santos a substituir os animais enquanto divindades ou meios para divindades maiores, e não o contrário.

Seja como for, acreditando-se em São Pedro, na corça, em Mitra, ou em nada, é bom que se fique a saber que os encantos de Monsanto só ficam completos quando juntamos Vir-a-Corça à bagagem.

Coordenadas de GPS: lat=40.035132 ; lon=-7.119504

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.