Monumentos

Natureza

Povoações

Festas

Tradições

Lendas

Insólito

Chamavam-no rafeiro até decidirem que era afinal uma raça com todas as letras. E aí tornaram-no a chamar rafeiro. Mas já com a distinção: um vira-lata com província – um Rafeiro Alentejano.

Está para o Alentejo como o Serra da Estrela para a montanha que lhe deu nome. O antigo escudo das ovelhas é agora também escolhido para guardar montes alentejanos.

Pastor de quatro patas

A história do Rafeiro Alentejano é a de muitos cães pastores que se deslocaram das zonas mais acidentadas do oriente próximo até à Europa.

Estes penduleares resultaram em vários tipos de raças canídeas, a vasta maioria tida como pastora, mas que pode ter acumulado outras funções – de guarda, por exemplo, ou até de batalha.

Ora, se estes movimentos aconteciam de continente para continente, também é verdade que aconteciam entre nações e, ainda mais, dentro de regiões de um só país.

São famosas as transumâncias dos pastores da Estrela, do Gerês, do Douro interior, e não menos conhecidos os cães que guardam esses rebanhos: o Cão Serra da Estrela, o Cão de Castro Laboreiro, e o Cão de Gado Transmontano (com o qual partilha grandes semelhanças). Acompanhavam o gado até às altitudes serranas durante o Verão, e traziam-no de volta às planícies no Inverno. No sul, sobretudo no Alto Alentejo, acontecia o mesmo – e não raras vezes um pegureiro partia das doiradas campinas alentejanas até zonas bem mais a norte, como a Serra da Estrela ou mesmo as montanhas de Trás-os-Montes.

É bem possível que o Rafeiro Alentejano tenha começado por ser um arraçado desses outros cães vigilantes do gado. A transumância do Serra da Estrela pode ter gerado cruzamentos dos quais, em alguns casos, resultaram em cães similares aos actuais Rafeiros do Alentejo. Tendo em conta o similar porte de ambos e as semelhanças que se observam em algumas partes do corpo (como o focinho, por exemplo), parece uma hipótese a ser estudada seriamente – isto independentemente de sabermos da provável influência que outras raças tiveram nesta misturada (e, nesse aspecto, o Mastim Espanhol parece igualmente ter metido aqui a mão, possivelmente por influência da Extremadura do país vizinho).

E assim pode também ter sido originado o seu nome. O povo poderia ver como rafeiro este cão pastor que, apesar de cumprir escrupulosamente a sua função de defesa do rebanho face a predadores (nomeadamente o Lobo Ibérico, mas também de outros cães vadios), não era exactamente como os tais outros cães serranos, vulgarmente tidos como Serras da Estrela ou Mastins Espanhóis. Parece que estes rafeiros se tornaram tão comuns, e com uma fisionomia tão homogénea, que no século XIX levaram carimbo: passariam então a ser uma raça. Por graça, não lhe mudaram o nome, passando o seu pedigree a reportar um rafeiro, sim, mas um Rafeiro Alentejano.

Hoje, o Rafeiro do Alentejo goza de boa saúde, depois de um tempo onde esteve prestes a deixar de existir, na década de oitenta do passado século.

Características do Rafeiro Alentejano

Apesar de originalmente um cão pastor, são muitos os que lhe dão a tarefa de guarda territorial – isto porque o Rafeiro Alentejano, embora não se caracterize por ter comportamentos de ataque, é um aclamado cão de defesa de herdade. Tem também a particularidade de estar bem mais desperto para a função de vigilante de fronteiras durante o período da noite, sendo muito mais plácido nas horas de luz.

É comum esta deslocação de competência de cães de apoio à pastorícia para a defesa de propriedade. O mesmo aconteceu com o Serra da Estrela que, com a diminuição do número de pastores, foram adaptados a novas realidades.

O pelo do Rafeiro Alentejano, de resto, reflecte um certo darwinismo: no meio de um rebanho, passa meio despercebido com toda aquela pelugem entre o acinzentado e o amarelado (ver foto ao lado). Seria assim a melhor forma de passar despercebido entre as ovelhas e carneiros e de se camuflar face às ofensivas de lobos. Há alguns exemplares mais escuros, contudo, onde o preto pode dominar.

O seu porte e a sua história tornaram-no geneticamente avesso a espaços reduzidos, precisando de muito espaço para respirar à vontade. Diz quem sabe, ou seja, quem os tem, que é de difícil controlo, e que apenas tratadores experientes e com pose firme o conseguem domar. Talvez sim, mas não posso deixar de dizer que essa particularidade vai contra todos os meus fortuitos encontros com eles, onde se mostraram bastante dóceis.

Rafeiro olha para a máquina no meio de rebanho

Rafeiro do Alentejo num rebanho