Junot Protegendo a Cidade de Lisboa

by | 4 Out, 2018 | Douro Litoral, Lugares, Monumentos, Museus e Exposições, Províncias

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Um quadro que alude à cidade de Lisboa, pintado por um lisboeta, encontra-se, por ironia, no Museu Nacional de Soares dos Reis, no Porto.

Domingos Sequeira

O pintor Domingos Sequeira, alfacinha de origens humildes, estudou com bolsa real em Itália e por lá executou um dos seus trabalhos mais conhecidos: “O Milagre de Ourique”.

Foi, mais tarde, no início do século XIX, indicado pintor oficial da corte (a monarca em funções na altura era D. Maria I, e chegou mesmo a ser tutor de pintura das princesas), deslocando-se para a cidade do Porto em 1806, sucedendo a Vieira Portuense na Academia.

Foi, acima de tudo, um homem do seu tempo. Ou antes, dos seus vários tempos. Na arte, acompanhou a pintura clássica nos seus anos mais jovens, mas foi um dos pioneiros do romantismo quando este espevitou enquanto reacção ao Iluminismo racionalista. Na política, vivendo Portugal as invasões francesas, defendeu o exército inglês ao mesmo tempo que se deixou seduzir pelas ideias da Revolução (coisa que o colocou na posição de colaboracionista e, logo, traidor à pátria).

Há, todavia, quem negue as simpatias de Sequeira em relação ao ideal jacobino. No entanto, parece ter sido isso que levou Junot a encomendar a composição que mais tarde viria a ser conhecida por “Junot Protegendo a Cidade de Lisboa” que agora abordaremos. Segundo alguns historiadores, o que motivou o pedido desta obra por parte do líder militar francês foi a tentativa de impressionar Napoleão caso este, porventura, se dignasse a visitar Portugal. Tal nunca veio a acontecer.

A pintura

As indicações eram simples: Junot pretendia uma pintura que o colocasse em posição de destaque, seguro de si, como resguardo de uma nova capital, uma Lisboa moldada às recentes directrizes da Revolução.

Domingos Sequeira pôs mãos à obra num quadro fundamentalmente alegórico, onde Junot se encontra ao centro, segurando a mão de uma mulher que representa a cidade de Lisboa. Lisboa, a mulher, veste roupas alvas (numa possível alusão à sua brancura) e vermelhas (as cores da revolução, isto é, de uma Lisboa desperta para o ideário francês).

Em cima, a dominar os céus, a águia imperial, símbolo maior das tropas francesas, carregado em estandarte pelos exércitos de Napoleão Bonaparte.

Do lado direito vemos ainda a Deusa Ceres e a Deusa Minerva em pose de chegada, quase a tocar o chão, representando o estabelecimento de uma nova ordem no país – a abundância de Ceres aliada ao saber de Minerva. Do lado esquerdo, temos outro apontamento mitológico: Marte a dominar Neptuno (sendo Marte, Deus da Guerra, sinónimo da França invencível; e Neptuno, Deus do Mar, sinónimo da armada inglesa derrotada).

Os céus são dominados por cores que dão a entender estarmos numa hora de transição. Ao fundo, no campo de batalha, dominam as cores negras.

Paulo Pereira considera a tela uma obra neo-clássica mas com laivos daquilo que viria a inspirar Sequeira na fase final da sua carreira – o romantismo ou pré-romantismo.

Tudo na pintura estava relativamente alinhado de acordo com as instruções do novo império francês que agora controlava Portugal. Junot, contudo, insatisfeito com o que viu, recusou-a. Poderá tê-la interpretado de outra maneira?

Quadro completo - "Junot protegendo a cidade de Lisboa"

Propaganda ou arte? O quadro de Domingos Sequeira ainda causa incómodo.

Uma outra interpretação

Como foi dito em cima, a colaboração de Domingos Sequeira com o novo domínio francês é controversa. Há quem diga que ela existiu, há quem diga que o pintor português estava apenas a cumprir ordens, e há ainda quem diga que Domingos Sequeira aproveitou a encomenda do quadro para mostrar, subtilmente, como se opunha à ocupação de um novo império que crescia na Europa.

De facto, se atentarmos na mulher que encarna a cidade de Lisboa, ela aparece santada, como que resignada, e amparada por aquilo que parece um anjo mas que equivale ao Génio da Nação portuguesa. Lisboa está numa posição vencida, enfraquecida. Precisamente ao contrário das indicações dadas previamente pelos franceses.

Da mesma forma, a águia imperial de Napoleão que domina o céu revela-se de uma imponente ameaça, ensombrando as duas Deusas que poisam abaixo, dando a entender que a Abundância e a Sabedoria estão em risco nesta nova ordem europeia.

Acrescente-se, ainda, que o pano de fundo em baixo, onde discorrem tropas francesas, é pintado com a cor do luto: negro. Será isso um reflexo do que Sequeira pensa da presença francesa por cá?

Verdade é que Junot olhou para a obra e não a viu como uma via para passar a sua mensagem propagandista, afirmando que Lisboa se encontrava débil demais para seu gosto. Diria que tinha razão. E contudo, não se viu liberto de ter o seu nome associado à obra, que para sempre ficou conhecida por “Junot Protegendo a Cidade de Lisboa”.