Germil

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O ditado popular bem podia ser Germil, águas mil, porque para todo o sítio onde se olhe, lá vem um ribeiro, um fluxo, um fio de água apressado que de Germil desce a caminho do vale. Dando de barato que a minha incursão pela aldeia aconteceu no Inverno, debaixo de um descarga generosa de São Pedro, parece-me que nem nos meses soalheiros haverá aqui gente ou alimária a passar sede.
Na cauda da Serra Amarela
A Serra Amarela atinge o seu máximo no pico da Louriça, na fronteira oriental que separa o concelho de Ponte da Barca do concelho de Terras de Bouro. Por aí, vê-se a Galiza bem de perto. À medida que a cordilheira se distancia da raia galega e vai penetrando em território nacional, no sentido nordeste-sudoeste, a crista montanhosa vai baixando, e baixando, e baixando, até chegar ao pico da Carvalhinha, que se fixa, aproximadamente, nos 1100 metros de altitude. É na encosta desta colina que se alapou a aldeia de Germil, possivelmente durante a transição da Alta para a Baixa Idade Média. Encontra-se dividida em dois pólos residenciais – a que apropriadamente se deu o nome de Germil de Cima e Germil de Baixo – com distância tão curta entre ambos que não valerá a pena versá-los em separado.
A gente que a povoou, não sei se por alguma genética castreja que os séculos não apagaram, entendeu que mudar-se para cá, uma terra a mais de 600 metros de altitude, era boa ideia. Não os censuro. Porque não viver num lugar tão belo quanto este? Lá se montaram os poisos, recorrendo-se aos materiais disponíveis, entenda-se, ao granito e à madeira. E casa a casa, espigueiro a espigueiro, armazém a armazém, Germil tornou-se um encanto de pedra e água – hoje, infelizmente, o carácter monocromático das residências foi maculado por alguns blocos de edificação recente, provavelmente de emigrados que retornaram ou que cá compraram habitação para férias.
A falta de ajuda próxima – o povoado mais perto de Germil é Vergaço, a sul, já de si também bastante isolado, e fica a uma hora a pé – obrigou os seus habitantes a uma engenharia social muito praticada no norte montanhoso: a vida em comunidade, em que cada um, mais do que para si, trabalha para o todo, numa vivência muito parecida com a que se encontrou na aldeia de Vilarinho das Furnas, já aqui ao lado, embora agora submergida na albufeira do rio Homem. Foi a maneira que se encontrou para contrabalançar a distância a que se encontra de qualquer núcleo urbano, ou o corte das estradas por causa da neve, ou mesmo o esquecimento político a que historicamente foi votado.

Espigueiro e cruzeiro à entrada da aldeia

Espigueiro nas altitudes de Germil

Os caminhos de gado são também os nossos
Essa resignação do povo de Germil, de quem sabe que está sozinho com os seus pares, e que a optimização económica depende da cooperação de cada um com os seus conterrâneos, vê-se em certos aparelhos de trabalho situados dentro e fora do burgo. Falarei de alguns…
Começando pelo Fojo dos Lobos… Localizado numa vertente a norte da aldeia e perfeitamente visível para quem cá entra vindo de Entre Ambos-os-Rios, exibe uma armadilha de caça ao grande predador de gado das serras setentrionais: o lobo. Um fojo constrói-se em forma de V, ou seja, com dois altos muros inicialmente distantes que vão convergindo até se encontrarem um com o outro, criando um funil cuja ponta esconde um profundo buraco. A prática consistia em atrair lobos (ou, por vezes, raposas) até à abertura e deixá-los seguir em direcção ao fundo do corredor, cada vez mais apertado, até caírem na cova final. Sem saída possível, os lobos esperavam no fundo do poço a sua morte, que chegava quando pastores, caçadores e agricultores acordavam hora para os ir abater. No entanto, em Germil, o fojo tem uma peculiaridade – em vez de terminar num buraco, termina no rio.

Germil, sempre debaixo de videira

Garrano em exercício matinal

A armadilha para o grande predador: Fojo do Lobo
Largando o fojo e seguindo aldeia adentro, vemos imediatamente como por cá se obra o vinho. Em Germil, se olharmos para cima enquanto galgamos as desafiantes oscilações do solo, vemos um bonito tecto de videira que, no Verão, se transforma num longo corredor de uva. É tão desmesurado e tão desordenado que me ficou a pergunta se aquele néctar se inclui nas contas comunitárias ou se é propriedade só de alguns.
Chegando ao fundo da artéria principal, quando o fim de Germil se anuncia num trio de casas fora do perímetro principal, notamos num outro apetrecho. Um tanque improvisado com pedra mal talhada usado para a hidratação dos solos nos meses quentes. Obedece a um horário – é descarregado pela manhã, para dar assistência ao trabalho dos campos, depois de ter estado a engordar ao longo da noite anterior.
E nas encostas mais a sul, de difícil aproximação, damos com os cortiços, castiças casotas com telhado de colmo cercadas por muros graníticos que protegem o mel de eventuais investiduras, semelhantes aos muros apiários que se vêem por outros pontos do país. Em tempos, o suspeito do costume no que toca ao roubo de mel era o urso-pardo. Talvez, neste momento, sobre o texugo.

Percursos da Serra Amarela sinalizados na aldeia de Germil

As ruelas de vinha

Tempos que já lá vão

Ribeira antecipa a chegada a Germil

Germil e as suas quedas de água – uma paisagem repetida por toda a Serra Amarela
Promoções para dormidas em Ponte da Barca
Mapa
Coordenadas de GPS: lat=41.78374 ; lon=-8.26513