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Um edifício com uma feérica vista para o Parque das Termas e a zona ribeirinha conquistou vários lugares no dicionário de Vizela: Castelo da Ponte, Castelo de Vizela, Castelo do Mourisco. Para facilitar, o povo acabou por o baptizar com o substantivo comum a todas as designações, e assim se tornou mais conhecido, o Castelo.

Ocupa quase cem metros de berma da estrada nacional que liga Vizela a Penafiel, numa longa e melancólica parede granítica, a meio fortalecida por uma torre ameada, que, num primeiro instante, identificamos como uma réplica de um castelo. Já conseguiu assumir variadas funções até ao seu progressivo abandono que se iniciou no último quartel do século XX. A gravitar acima da sua funcionalidade esteve sempre, desde a sua primeira pedra, o seu simbolismo: um monumento à força autonómica de Vizela que, depois de séculos de insistência, viu o seu piso reconhecido como terra municipal.

A muralha da independência

Os ímpetos independentistas de Vizela face ao concelho de Guimarães vêm de longe. Para alguns, de tempos medievais, para mim, mais de trás. Vizela, apesar de não estar rodeada de água, tem um retrato insular, pela singularidade das termas e pela orografia, onde surge embalada por um fértil vale cujas colinas contíguas a separam dos termos vimaranenses, a norte, felgueirenses, a leste, e lousadenses, a sul. Podemos, por isso, dizer que muito antes dos cidadãos de Vizela quererem a sua autonomia, já a natureza a desejava, e se subirmos até ao Monte de São Bento podemos tirar a teima só com recurso aos nossos olhos.

Como tal, a semente da auto-administração nunca largou a genética da geografia vizelense. Por vezes germinou, como nas últimas décadas da monarquia e primeiras anos da república, por vezes hibernou, como no longo período entre os séculos XV e XVIII. Mas sempre que um novo impulso económico acalentava o seu povo, logo se seguia, a reboque, a ambição de decidir sobre o seu próprio destino.

Assim se compreende que, desde o século XIX até ao final do século XX, quando Vizela gozava de uma abastada clientela termal ou, posteriormente, de um vasto tecido industrial, uma série de pedidos tenham sido formalizados aos órgãos de decisão centrais para que o burgo se promovesse a sede de concelhia. Um desses pedidos – o terceiro – implicava, segundo Júlio Damas escreveu no seu livro “Ad Perpetuam…“, a existência de uma “futura sede do novel concelho”, que fora tornada obrigatória pelo poder político. E foi perante este requisito que o médico vizelense Dr. Armindo de Freitas Ribeiro de Faria ousou construir, com dinheiro do seu bolso, um magnífico castelo neo-medievo (ou neo-gótico) que impressionasse qualquer visitante e que retirasse as dúvidas a quem tivesse na mão a autoridade para decretar ou chumbar a emancipação de Vizela.

Recentemente, houve quem pusesse em causa, por falta de documentação, se foi realmente Armindo de Freitas Ribeiro de Faria que investiu no Castelo da Ponte ou se este serviu de facto para ajudar à implantação do concelho. Para lá do livro supramencionado, não há, de facto, muitos testemunhos escritos acerca do assunto. Menciona-se também o tempo impossível em que o castelo foi construído – o pedido de autonomia aconteceu em 1905 e a conclusão da obra deu-se apenas um ano depois, um tempo recorde tendo em conta a magnitude do monumento. Na realidade, o edifício pode ter começado a ser levantado antes, até no final do século XIX, para outras funções, e depois de conhecida a exigência relativamente à sede de concelho, ter sido a meio da empreitada readaptado para novos fins.

Mas aparte a sobredita dúvida levantada nestes novos tempos quanto ao quem e ao porquê do Castelo da Ponte – que na realidade não tem muitos adeptos entre quem estuda o concelho com afinco há décadas -, a verdade é que o seu fim não foi satisfeito. A resposta ao terceiro pedido de independência foi negativa (reacção que se repetiu nos três pedidos subsequentes). A sua imponência, contudo, colocou-o como parte do folclore vizelense enquanto prova pétrea de uma vontade secular das suas gentes: a soberania.

Falhada a meta, o Castelo adequou-se à lógica dos tempos. Foi um clube – o Mourisco Club – onde se passeou a nata da região Norte, sobretudo a do Entre-Douro-e-Minho, com o Porto em evidência, num período em que Vizela era classificada como a Rainha das Termas de Portugal, comparada às mais reputadas termas europeias, e palco de festas e bailes e arraiais no seu faustoso Jardim das Termas. Depois, já numa fase em que a vila assistia ao declínio da sua actividade termal e a substituía com um manto de indústrias têxteis, converteu-se ao ensino, primeiro como colégio, depois como externato, presente na memória colectiva de uma certa geração de vizelenses ainda hoje vivos e de boa saúde. No último quartel do século XX foi abandonado, como um velhote num lar de terceira idade.

Os volumes do Castelo de Vizela

A fachada antes da requalificação de 2024

Quando toda a pressão política, popular, empresarial, finalmente teve efeito e Vizela foi elevada a concelho, em 1998, o Castelo da Ponte, infelizmente, estava praticamente ao abandono. O ícone do autonomismo vizelense, o cavalo de batalha do terceiro pedido de independência… moribundo no dia da vitória. Talvez tenha sido essa triste ironia a motivar alguns decisores municipais e privados a tentar pegar nele. Durante vinte anos, pensou-se em dar-lhe um novo papel: surgiram propostas para biblioteca, para hotel, para auditório. Enfim, a Câmara Municipal, depois de um incêndio que podia vir a ditar o seu esquecimento, arregaçou mangas e garantiu-lhe um novo projecto. Um justíssimo museu à história da alforria de Vizela, o Museu da Autonomia Vizelense, com uma exposição de motos num futuro armazém nas suas traseiras, complementado por um café-concerto e um largo na dianteira.

Foram estas palavras escritas apenas três dias depois de se ter iniciado a nova obra. Terei muitíssimo gosto em voltar a estas linhas, daqui a um ou dois anos, para as actualizar com tudo o que o Castelo da Ponte tiver de novidade.

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=41.37121 ​; lon=-8.3073