Cangas

by | 25 Dez, 2018 | Culturais, Tradições

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Se antes tinham função de labuta, indispensável à eficiência do trabalho de campo, hoje é comum darmos com cangas pregadas em paredes, como se de quadros se tratassem. Algumas, são mesmo.

O que é uma canga?

Uma canga, ou um jugo, dependendo do sítio onde falamos dela, é um antigo instrumento de trabalho que consiste num aparelho, quase sempre feito de madeira, que, colocado ao pescoço de bois ou de burros, ajudava a puxar carroças para transportar mantimentos ou para lavrar a terra.

Era utilizado com maior frequência no Norte e Centro-Norte do país, correspondendo às províncias do Minho, Trás-os-Montes, Douro Litoral, Beira Litoral, Beira Alta e Beira Baixa.

A sua função inicial, ou seja, enquanto peça de trabalho, tornou-se esbatida com os anos – à medida que a agricultura em Portugal se foi modernizando mecanicamente, as cangas foram postas no estaleiro para de lá não saírem.

Contudo, no último quarto do século XX, foram alvo de nova procura enquanto activos identitários de determinadas regiões, sendo compradas (muitas delas, à altura, por tuta e meia) como artigos de colecção – algumas mostram um trabalho muito dedicado por parte do artesão, e chegam mesmo a oferecê-las a noivos no dia de casamento, ou a filhos de emigrantes para que estes não esqueçam o seu passado familiar.

Cangas ou jugos?

Parece haver uma distinção regional na aplicação de cada uma destas palavras.

Canga e jugo serão, assim, a mesma coisa, mas descritas de formas diferentes conforme o sítio onde estamos (em Bragança, por exemplo, diz-se jugo; numa boa parte do Alto Minho, pelo contrário, utiliza-se canga).

Mas a dúvida é tanto nossa como até dos agricultores, que não raras vezes, nas zonas onde ambos os termos fazem parte do léxico da lavoura, têm duas designações distintas para cada um deles, e de vez em quando misturam os seus significados.

Há, no entanto, quem saiba fazer a distinção: o jugo é de maior dimensão, aparenta ter a forma de um trapézio, com a parte central mais alta que as laterais, e é ornamentado; a canga é de estrutura menos maciça mas também mais flexível, e muitas vezes não goza de qualquer adorno. Se o primeiro servia para trilhos de fácil caminhada, a segunda era posta em circuitos de exigência maior. Daí termos Leite de Vasconcelos a defender que o jugo funcionava como transporte (de produtos ou de pessoas), e a canga trabalhava fundamentalmente como instrumento agrícola.

Jugo ornamentado nas Feiras Novas

Jugo de Bois nas Feiras Novas

Ornamentação

Alguns jugos são autênticas obras de arte. Se olharmos para certos exemplares, sobretudo os encomendados por proprietários com um nível de riqueza acima da média, observamos esculturas de baixo relevo de uma beleza inequívoca.

Abundam os motivos vegetais, mas não só. Por vezes há referências à região de onde vêm, ou a símbolos religiosos (a cruz aparece amiúde, e nos Açores recorre-se também ao cálice ou à pomba quando usados nas cerimónias do Espírito Santo), ou até a iconografia de cariz namoradeiro (encontra-se, com regularidade, o coração).

Vale a pena ir espreitar alguns modelos usados em certas festividades. Além das já mencionadas Festas dos Espírito Santo dos Açores, há também os coloridos jugos dos Bois da Páscoa, em Vilar de Perdizes, ou os das Feiras Novas, em Ponte de Lima (ver foto em cima).

Diferentes são as cangas do concelho de Murtosa, pintadas fundamentalmente a três cores, amarelo, verde e encarnado (ver foto em baixo).

Actualmente, é comum verem-se para venda cangas e jugos nos leilões online, não sendo invulgar acharmos por lá obras de colecção. Para os nerds do folclore, como eu e como provavelmente certos leitores, recomenda-se estar de olho nestas novas ofertas. Importa que as poucas cangas e jugos que sobram vão parar às mãos de quem os saiba estimar.

Uma canga com particular ornamentação

Canga de Murtosa