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Altos espectros sobem e sobem até se confundirem com os céus de cimento nortenho. São Aventesmas, seres sobrenaturais dos caminhos.

Gigantes ginastas

Um Aventesma, em uso comum, será um fantasma ou uma aparição. Esta forma mais ou menos genérica de definir o termo ganha contornos um pouco mais específicos no interior norte (Trás-os-Montes e Beira Alta) e em pontuais localidades do litoral norte como é o caso da Póvoa de Varzim.

Nessas regiões, o Aventesma, ou Abentesma como por vezes é escrito vincando o sotaque do norte, os mais velhos lembram que não é propriamente um fantasma, ou pelo menos não se fica por aí. Trata-se de uma espécie de Gigante, com características ligeiramente diferentes, a começar pela sua possível benignidade em alguns casos.

O Aventesma aparece defronte de qualquer incauto que se passeie por trilhos campestres e inóspitos. É naturalmente mais alto do que o humano que o vê, mas vai crescendo se não se parar de olhar para ele. Cresce, cresce, cresce, até que as costas arqueiam e, qual contorcionista, faz uma ponte, tendo nas mãos um par de pilares e nos pés o outro. Diante de nós fica uma estranha estrutura corporal que não sabemos se nos está a bloquear ou a oferecer passagem.

A crença local diz-nos que é nessa altura que temos de atirar uma chinela ou um tamanco – ou eventualmente uma bota ou um sapato à falta das anteriores – e que esta deverá passar por baixo da ponte que o Aventesma desenhou com o seu corpo. E daqui surgem duas hipóteses: se a chinela passa sob o arco do Aventesma, a pessoa poderá seguir o seu caminho tal e qual como a chinela que atirou, ou seja, passando por baixo da criatura; se a chinela for devolvida, o homem terá de voltar para trás e procurar meios alternativos para chegar ao seu destino. Escusado será dizer que incumprir com a crença e fazer a travessia sem autorização do Aventesma traz má fortuna e desgraça à vida de quem ouse tal coisa.

Ilustração por @porto.sketch