Esteva

Não, isto não é um texto promocional ao vinho com este nome. Aqui, quando falamos de Esteva, falamos dela mesmo, a original, cientificamente conhecida por cistus ladanifer, planta que inspirou a marca do Douro que hoje tanto português traga à hora das refeições.

Quando o Inverno dá lugar à Primavera, a vegetação do sul do país começa a soltar as flores de Esteva, arredondados pentagramas que uma lenda ligou às cinco chagas de Cristo

A Esteva enquanto perfume do sul

É no Baixo Alentejo e Algarve que melhor podemos cheirar os campos de Esteva. As serras que separam estas duas províncias têm-nos como, provavelmente, mais nenhuma outra zona do país.

São os solos em que o pH fica de feição para o seu crescimento – solos ácidos, secos, e maioritariamente mediterrâneos com aquela cor desidratada da ferrugem. Solos devastados dos incêndios de Agosto, logo ocupados por esteveiras que, à falta de melhor, vão evitando ainda maior deterioração, protegendo-os o possível dos ventos e das chuvas. Solos menos férteis que resistem à agricultura mas que não têm esterilidade suficiente para impedir a gentil invasão deste arbusto.

Na orla costeira das províncias sulistas, acontece ainda o aparecimento de uma subespécie, a sulcatus, mais adaptada aos ares salgados do Atlântico. No Portugal setentrional, com menor frequência, poderão aparecer nas regiões onde as águas dos céus chegam com menor regularidade, isto é, no interior, e à beira de pinheirais serranos.

Os caules são robustos e a razão pela qual cresce a Esteva na vertical, não cedendo à força da gravidade sobre si. E as folhas têm uma pelugem própria no reverso da sua folha. A sua pele é textura que cola, peganhenta, sem que com isto queira dizer alguma coisa de mal – aliás, é talvez a característica mais icónica se descontarmos a sua corola.

Se não estivermos na altura em que a sua flor brota, pelo início da Primavera, dificilmente a nossa visão a descodifica. É arbusto igual a tantos outros, tufos verdes com ramagem desorganizada, a apontar para qualquer direcção que lhe convenha.

Já a partir de Março ou Abril o caso muda de figura. Do verde seco das pontiagudas folhagens surgem, aqui e ali, pálidos pentagramas arredondados pela forma das pétalas. Aí temos tudo para dar com elas. Pelos olhos, claro, mas também pelo nariz, num cheiro distinto mas que se confunde com o do mato.

As chagas de Cristo que, segundo a lenda, mancharam as cinco pétalas da flor de Esteva

A flor de Esteva

A flor que constrói é o cartão de visita e não só. Para muitos, é a única forma de distinguir estes arbustos de outros similares.

Forma-se rapidamente, e rapidamente morre. A parte boa é que no curto período do ano em que floresce, por volta de Abril, está em constante reprodução. Num dia, aparecem na parte baixa dos arbustos para morrerem no dia seguinte. Mas no dia seguinte, aparecem na parte de cima dos arbustos, com o seu fatal destino traçado à nascença também.

Nesse curto espaço temporal de vida, a flor divide-se em cinco. Uma mão de pétalas cheias de branco que podem ou não ter mancha de tons arroxeados junto ao receptáculo, formando algo muito semelhante a uma estrela. Eu preferirei sempre essas, sem querer tirar o encanto das outras, que se reduzem a duas cores: alvas na parte exterior, amarelas no seu centro, como se de um ovo estrelado perfeito se tratasse.

A respeito dela, conta-se uma lenda religiosa que a liga à história primordial do cristianismo. Segundo esse enredo, quando Cristo carregava a sua cruz sobre si, subindo o Calvário, muitas estevas andavam por perto, floridas nos matagais. O sangue que Jesus ia deitando, causado pela pressão da coroa de espinhos que foi forçado a usar, ia sendo derramado pelas estevas que lá se encontravam, representando as cinco manchas da flor de Esteva as cinco chagas de Cristo. E para as Estevas de seis pétalas – que também as há -, justificaram com o choro de Nossa Senhora, que seguia atrás, e deitava lágrimas de sangue dos olhos, pintando assim a sexta folha da corola que faltava.

Uma lenda dramática que é conivente com uma particularidade trágica sua: a flor de Esteva morre mal é colhida – as pétalas evadem-se mal se dão conta que lhes cortaram o canal que as liga ao solo.

Usos da Esteva

Convém dizer, dando palavra a quem vive da agricultura, que nem sempre a Esteva é amada. O ordenamento da terra pelo homem é, diversas vezes, estragado pelos impulsos desta planta que gosta de invadir zonas destinadas ao cultivo. Mas excluindo isso, são bem mais as vantagens que se tiram dela.

A maior, responsável por uma certa parte da industria da perfumaria francesa, prende-se com a extracção do lábdano, uma resina que, entre outras maravilhas de carácter medicinal, é utilizada para fixar determinados cheiros nos perfumes, aromatizar sabões, ou produzir óleo ligado às massagens.

Por outro lado, as pétalas da flor que de lá brota são de curtíssima duração, mas no prazo de um dia podem ser comidas e combinam bem, até pela estética, em saladas. E na gastronomia, o mel que é feito do seu pólen é gabadíssimo pelos apicultores do mundo mediterrâneo.

Por fim, há sempre quem as queira apenas como motivo decorativo, a ornamentar jardins e terraços por este país fora, o que, por si só, já diz muito do seu encanto.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.