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Festa do Mastro

by | 3 Mai, 2018 | Douro Litoral, Festas, Julho, Províncias, Tradições

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Fonte Arcada, no concelho de Penafiel, tem festarola rija no dia 25 de Julho. Um mastro de madeira é alçado por vários homens para abençoar os campos – dizem os locais que o rito persiste porque, crêem, funciona. Marca o início das Festas de São Domingos mas este é o dia D, mais conhecido por dia da Festa do Mastro.

Um mastro é cortado, transportado, e levantado novamente. Tudo para que o homem – e o campo – volte à virilidade dos tempos jovens.

O Mastro de São Tiago e a Festa de São Domingos

Uma freguesia de Penafiel mantém um hábito invulgar.

Todos os anos, no dia 25 de Julho, vários homens de Fonte Arcada juntam-se na igreja – alguns deles levam bombos para animar a manhã, outros tractores para preparar a caminhada. O propósito é seguirem até a um eucalipto previamente escolhido nos dias anteriores.

Assim se faz. Arredam pé dali e põem-se a caminho da árvore abençoada, que normalmente fica nos arredores da freguesia, chegando a distar mais de cinco quilómetros, conforme o ano.

Chegados ao eucalipto, dá-se a vez ao serrador (normalmente sempre o mesmo, passando-se o testemunho apenas quando a idade já não permite tais andanças), que faz o favor de o cortar, não à serra mas sim à machadada.

Caída a árvore, que deverá medir aproximadamente trinta metros, ela é levantada e, com a ajuda de hastes de madeira e da força de cerca de sessenta ou setenta homens (dispostos de um lado e do outro do tronco), dirige-se para um outro destino: o Monte de São Domingos, ponto mais alto da freguesia.

Enquanto se faz a viagem, velhos não perdem tempo e afagam o tronco do eucalipto, um gesto que, por crença local, lhes tratá a virilidade que os anos começaram a tirar. São horas a dar à sola, com merecidos intervalos para refrescar – estamos no pico do Verão do interior, e o sol, aqui, não tem clemência. De pausa em pausa eis que chegará o bem vindo Monte de São Domingos, pontuado por um cruzeiro. É aí deitado e entram as mulheres em campo: todo o tronco é decorado com flores mas maioritariamente com o verde das hortênsias, e a cruz que encima o morro sofre o mesmo destino. Os homens que o carregaram aproveitam para descansar.

Ao final da tarde, estando o eucalipto coberto de ornamento, tornam os rapazes que se encarregaram do seu transporte a dar uso aos braços. Com o impulso do corpo e o auxílio de cordas, iça-se o eucalipto, e ali fica ele vertical e a apontar para o céu, na elevação mais alta das redondezas. Assim se mantém pelos próximos quinze dias, acompanhando as Festas de São Domingos.

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Mastro levantado na Fonte Arcada

Levantamento do Mastro

Significado da Festa do Mastro

A Festa do Mastro tem um simbolismo profundo, ligado à virilidade do homem e, também, à acupunctura dos campos.

O facto de apenas se admitirem homens no transporte do eucalipto não se deve apenas à anatomia do sexo masculino. Na verdade, e passando o óbvio facto da força de braços dos homens ser, em média, superior à das mulheres, vemos aqui ritos ancestrais, onde o homem tem uma prova pela frente, que deve encarar e vencer. Junte-se a isso o costume, ainda hoje visto, de termos muitos locais de idade mais avançada a quererem tocar no tronco, achando que este os vai acudir na sua performance sexual.

No fim, há um levantamento do mastro, mais uma vez uma clara alusão à virilidade e, neste caso específico, ao falo (ou até à erecção). Não é de estranhar, também, que o eucalipto se erga no ponto mais alto da freguesia – como sempre, o homem vê o sagrado nos sítios ímpares, e bastará para isso observar o número de capelas e igrejas que se encontram no cocuruto dos cerros.

Se já aqui demonstrámos vários rituais onde os portugueses prestam homenagem à terra mãe pelo lado feminino – como acontece, por exemplo, nas flores dedicadas às Maias, no primeiro dia do mês de Maio -, a Festa do Mastro faz o mesmo mas pela óptica masculina, porque o ciclo natural faz-se sempre de dualidades: o dia e a noite, o sol e a lua, o masculino e o feminino.

A nossa cultura megalítica é paradigmática na afirmação destes opostos – havendo o menir (símbolo fálico, que podemos comparar, grosso modo, com o mastro de Fonte Arcada actual) e a anta (símbolo feminino, muitas vezes comparado ao útero da terra).

Podemos então fazer uma analogia entre o içar de um menir com o içar de um mastro? Creio que sim. Com outras roupagens, claro está, porque um e outro distam milénios. Mas o simbolismo do gesto tem mais semelhanças do que divergências, mostrando ambos um elemento central comum: a importância de colocar agulhas no chão como metáfora para a fecundação da terra, ao mesmo tempo que se transforma o gesto numa espécie de rito de emancipação masculina.

 

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=41.14654 ; lon=-8.36414

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