Festa da Mãe Soberana

by | 25 Fev, 2019 | Abril, Algarve, Festas, Maio, Províncias, Tradições

Monumentos

Natureza

Povoações

Festas

Tradições

Lendas

Insólito

Quando falamos em religiosidade popular, a cabeça leva-nos para o norte do país, eventualmente para o centro. Quase nunca, no entanto, para o sul. Ficamos a perder a maior celebração litúrgica do Algarve, mais concretamente em Loulé: a Festa da Mãe Soberana.

Divide-se em dois eventos maiores – a Festa Pequena e a Festa Grande -, sendo que entre um e outro existe calendário santo a cumprir.

A Festa Pequena

Dá início à Festa da Mãe Soberana e acontece todos os Domingos de Páscoa, embora não seja este o dia por que todos os louletanos esperam.

O dia começa com a ida dos locais até ao cerro da Senhora da Piedade, onde se encontra o Santuário da Mãe Soberana (actualmente composto pela antiga ermida e a igreja-parábola, esta última modernista, erigida no final do passado século). Por lá se faz a missa pascal, seguindo os parâmetros habituais, mas depois vem o desvio à norma: da capela é retirada a Mãe Soberana, escultura em madeira da Pietá, para que seja levada colina abaixo até ao centro de Loulé, à Igreja de São Francisco. Quem a carrega são os magníficos homens do andor, oito no total, que acarretam 350 quilos de fé, ladeira abaixo, ajudados pelo compasso acelerado dado pela banda filarmónica.

Nesta altura, entre o primeiro Domingo de Páscoa e o terceiro Domingo de Páscoa, a Mãe Soberana irá viver pela urbe. Esta passagem provisória é celebrada em toda a cidade com manifestações religiosas e populares – afinal, só por duas semanas do ano é que os louletanos a têm a abençoá-los tão de perto.

A Festa Pequena é vista como um prelúdio para o que aí vem, quinze dias depois, quando a imagem da Mãe regressa ao sítio de onde foi retirada.

Os homens do andor

O folclore em torno dos homens do andor é como nenhum outro. Este fascínio dos louletanos com os oito homens que levam a sua Mãe em ombros pode ser comprovado em várias homenagens que lhes são prestadas: são patronos de ruas, contam com medalhas de mérito atribuídas pela autarquia, têm uma escultura férrea que lhes é dedicada.

Nem sempre foi assim. Antes, o baldaquino processional era bem menos pesado, sendo a nobreza de Loulé destacada para o levar, bastando para isso a força de quatro homens.

Com o terramoto de 1755, penoso para todo o Algarve, além da reconstrução da ermida, foi necessária a encomenda de novo andor. Este pretendia-se com outra robustez, o que, consequentemente, o tornou mais pesado: 360 quilos, mais especificamente, mantendo-se assim até hoje. Ora, para aguentar a Virgem e o andor, quatro homens já não bastavam. Duplicou-se assim esse número, passariam então a oito, e a escolha destes rapazes mudou de critério – seriam necessários membros de outra envergadura, não da nobreza louletana, mas sim das camadas mais baixas, habituadas ao árduo trabalho de campo.

E assim se popularizou este grupo de homens, que sentem um inigualável orgulho quando, no Tempo Pascal, levantam a sua Mãe Soberana para gáudio dos seus conterrâneos.

Em jeito de nota, realce-se que estes homens do andor desenvolveram um dicionário próprio, com palavras técnicas usadas por eles e mais ninguém.

Oito homens carregam, com esforço hercúleo, a Mãe Soberana

Os oito homens do andor, carregando a sua Pietá

A Festa Grande

A Festa Grande é o elementar dia da Festa da Mãe Soberana. Realiza-se no terceiro Domingo de Páscoa, ou seja, duas semanas após a Páscoa propriamente dita.

Nesta data, Loulé recebe visitas de toda a província algarvia, por vezes até de andaluzes, começando a haver pequenos sinais de peregrinações a pé, tal e qual como se faz, a uma outra escala, em Fátima – correndo o risco de ser polémico, considero a Mãe Soberana infinitamente mais interessante do que as romagens a Cova da Iria.

Tudo começa bem cedo, pela manhã. O andor é carregado da Igreja de São Francisco, até ao amplo monumento dedicado ao Engenheiro Duarte Pacheco. Por ali se fica até tornar a ser levantado e venerado ao longo das ruas de Loulé. Volta para a Igreja de São Francisco e dá-se o pré-climax do evento.

Preparam-se então o povo e a banda e os homens do andor para o grande acontecimento, a subida ao Santuário da Piedade, residência oficial da Mãe Soberana.

Numa ladeira a pique, uma densa massa de gente empurra moralmente o esforço hercúleo dos homens do andor. A banda toca a Marcha Triunfal à Mãe Soberana, composta especialmente para este momento, numa cadência que une tudo: suor, compasso, esperança, dedicação, alegria e, numa soma de todos os anteriores, fé.

Quando a Senhora volta a casa soltam-se vivas de gratidão. A Festa Grande termina com o regresso dos louletanos à cidade, sabendo que só daí por um ano terão a felicidade de ver a sua Mãe em Loulé novamente.

Significado da Mãe Soberana

Que alvoroço é este que se faz aos oito homens do andor, quase divinizados pelos louletanos? Por que razão, nas celebrações da Ressurreição de Cristo, se presta culto a uma Pietá, ou seja, a uma Maria com Cristo morto nos seus braços? Que dança é esta que se faz com o palanquim à medida que a procissão (chamemos-lhe isso) é feita? Que massa de gente é aquela que, numa íngreme ladeira, prende os braços, solta vivas, empurra a sua Senhora monte acima, num frenesim popular nunca visto no país?

O lado profano da Mãe Soberana encontra poucos paralelismos. Se alguns houver, mais facilmente os encontramos na Andaluzia do que em Portugal. Vem daí, possivelmente, a forma como a Senhora é passeada, numa toada alegre, nada conivente com o cânone católico (e foram já vários os padres que se levantaram contra a peculiar correria a que a Senhora é entregue na subida final).

A escritora algarvia Lídia Jorge afirma que este é um culto híbrido, cristão e pagão, e que há qualquer coisa na Festa da Mãe Soberana que lembra outras festividades primaveris, nomeadamente a das Maias… não posso deixar de concordar. As suas palavras destinadas à Pietá são igualmente reveladoras: “a Virgem irradia uma atracção enorme sobre as pessoas, é a ideia da ternura feminina, da beleza que ultrapassa o tempo” – ou seja, podemos transformar o arquétipo da Senhora da Piedade numa imagem à Natureza, e do nome Mãe Soberana facilmente se reconhece um outro, Mãe Natureza. Continua Lídia Jorge: “é uma festa das flores, dos frutos que virão daqui a uns meses, é uma festa da exuberância”. De facto, a forma como o andor da Senhora é adornado, forrado de flores, indica isso mesmo.

Na verdade, a descida e posterior subida da Senhora permite-nos fazer uma analogia com Cristo, que também desceu à Terra e retornou aos céus segundo a crença cristã (o facto de estarmos em pleno período Pascal só reforça a ideia de que nada disto é coincidência).

Há um pormenor, até aqui propositadamente omitido, que vale a pena trazer para cima da mesa. A coroa da Mãe Soberana, quando carregada do Santuário para Loulé, por ocasião da Festa Pequena, é de prata. Já a coroa que a Senhora leva na Festa Grande, quando retorna ao seu espaço Sacro, é de ouro. É muito interessante que isto aconteça. A prata é, simbolicamente, associada à lua e à noite, ou ao frio, genericamente. O ouro, por oposição, representa o sol e o dia, ou o calor num sentido mais lato. A mudança de coroa parece evidenciar um sentido de transformação – um renascimento, do frio para o quente, do Inverno para o Verão.

A subida da ladeira na Festa Grande

As lendas da Mãe Soberana

Há três lendas que se contam acerca do Santuário da Mãe Soberana. Todas elas pretendem justificar o sítio onde a ermida foi construída e, por conseguinte, o porquê da santificação do local.

Contudo, deixaremos isso para um outro texto, um que versará acerca do santuário propriamente dito, que foi sofrendo várias alterações ao longo dos séculos, e cuja arquitectura sagrada merece uma página só para ele.

Loulé – o que fazer, onde comer, onde dormir

​Loulé afasta-se do paradigma da cidade algarvia.

Tal e qual como Silves, fica separada do mar, embora boa parte do seu concelho apanhe a costa e nela se encontrarem parte das praias mais famosas (e mais burguesas) de todo o Algarve. Dormir pela linha de costa é quase sempre um gozar de vistas sobre o mar, embora caro, sendo mais comum o aluguer de casas (em Vale do Garrão, Vale do Lobo, Quinta do Lago...) ao invés da estadia em hotel. Ainda assim, há boas ofertas a considerar: o The Lake Resort, em Vilamoura, ou o Ancão Gardens para quem tem capacidade financeira para isso.

Se a intenção é fugir à corrida balnear, não há como não lembrar as massivas Festas da Mãe Soberana, mesmo em Loulé, no primeiro Domingo de Páscoa e no terceiro Domingo de Páscoa. Paute-se isso com uma visita ao Café Calcinha, espaço de tertúlias históricas. Nesse caso, recomenda-se o Allons-y Guesthouse (com um espaçoso terraço com vista para o castelo e quartos com varanda para a cidade), o recente Loulé Charming, ou o mais conhecido Loulé Jardim Hotel.

Escolha, adiante-se, não falta. Estamos numa das zonas com maior densidade turística do país.

Veja em baixo mais ofertas para dormidas perto de Loulé:

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=37.14033; lon=-8.03604