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É o mais pequeno dos cervídeos europeus e expande-se por toda a Europa. Em Portugal, é no norte que, maioritariamente, se fixa.

Características da Corça

Dos três cervídeos portugueses (lembramos os outros dois: o gamo e o veado, muito embora o primeiro não seja nativo), a corça é o mais difícil de avistar. Em primeiro lugar por ser, tipicamente, um animal nocturno – é à noite que se alimenta, ou nas primeiras horas de sol -, e em segundo, por não ter um perfil que se possa definir como sociável.

O seu carácter esquivo, solitário e desconfiado, aliado a dois apurados sentidos (a visão e a audição) fazem da Corça casos esporádicos da observação humana. Mesmo pacientes caçadores socorrem-se de abrigos e de longas esperas para conseguirem tê-las ao alcance das carabinas. Uma pisa um pouco mais forte em folhagem morta é o suficiente para a corça se pôr em alerta, desaparecendo da paisagem num piscar de olhos.

Pequena, com pouco mais de um metro de altura (contando até à cabeça) e cerca de 30 quilos de peso, faz uso da sua leveza para aprimorar a perícia do movimento. As patas são magras mas resistentes, dotadas de enorme flexibilidade.

O macho e a fêmea podem ser distinguidos de duas formas: pelas hastes (apenas o macho as possui, de curto comprimento e com apenas três pontas na idade adulta, embora caiam no Outono para ressurgirem na Primavera), ou pela mancha branca que cobre a sua parte posterior (nas fêmeas em forma de coração, nos machos em forma de rim). Em termos comportamentais, as fêmeas mais facilmente se encontram em bando, e os machos gostam de defender o seu espaço roçando e desgastando arbustos e árvores, atirando-lhes um cheiro que define as fronteiras do seu terreno.

A alimentação faz-se à base de folhas, sobretudo as de plantas fabáceas, muitas delas ricas em água, razão pela qual raramente a vemos beber de lagos ou ribeiros. Outros arbustos entram-lhes nas dietas, nomeadamente giestas ou urzes. Mais raramente, há castanhas, bolotas, cerejas ou cogumelos que também vêm ao prato.

Falando do inverso, ou seja, de quem se alimenta dela, poucas espécies há, pelo menos em Portugal, que se considerem predadores. Temos, como é lógico, o homem – os caçadores têm o corço como um mamífero especialmente difícil de abater. E o lobo ibérico, que, como sabemos, está encostado a certas serras distantes a norte do rio Douro.

Distribuição da Corça

A alimentação da corça transforma-o num animal de vários poisos. Na Europa, tanto pode ser visto em zonas de maior densidade florestal como em terras amplas de pradarias ou pomares banhados pelo sol. Em Portugal, contudo, parece preferir a primeira hipótese. É por isso que se concentra nos bosques selvagens de carvalhos e castanheiros do Minho e de Trás-os-Montes, onde a água tem menos probabilidade de escassear – isto depois de chegar a estar extinta de todo o centímetro de terra do país.

Gerês, Montesinho, Alvão, Douro Internacional são os parques naturais preferidos. Outros, na zona norte, terão com certeza a sua boa dose de corças em corrida.

Mais recentemente, houve reintroduções a sul do Douro – Serra de Montemuro, Serra da Lousã, Serra da Freita, Serra da Arada -, e mesmo a sul do Tejo – em algumas herdades menos secas do Alto Alentejo.

Ultimamente têm surgido algumas notícias que dão conta do aumento do seu número de exemplares nos parques do norte português.

Curiosidades sobre a Corça

A maior particularidade da corça, e aqui falamos especificamente da fêmea, é a forma como vive a gestação. O que acontece é que os óvulos, embora sejam fecundados no momento da concepção (que se dá nos últimos meses do Estio), não se aninham no útero imediatamente. Em vez disso passam por um tempo morto, num embrião que não cresce, e que pode durar até cinco meses. A máquina reprodutiva volta ao trabalho por volta do início do ano, e o parto é uma realidade no pico da Primavera. Esta é a forma da natureza garantir que uma corça nasce na altura certa, quando os campos estão empilhados de folhas e frutos.

Outra peculiaridade, mas desta vez respeitante ao macho, diz respeito à sua teimosia com a defesa do território, um hábito que dura todo o ano e o distingue dos veados e gamos (que só se dão a estes filmes na época do acasalamento).

Quanto a alcunhas, há quem chame aos corços Duendes da Floresta, por rapidamente desaparecerem do nosso alcance. Nos meios cinegéticos são tratados por Traga Balas, numa alusão à dificuldade que um caçador tem em acertar-lhes com os seus projécteis.

Simbologia da Corça

A corça está intimamente ligada à feminilidade. Por alguma razão, conhece-se melhor a espécie pelo seu nome feminino – a corça, em detrimento do corço. Com efeito, são várias as lendas europeias onde ela chega como salvadora pelo leite que dá como alimento, até a humanos.

Assim é com Genoveva de Bravante, uma lenda de fundo germânico ou nórdico que discorre acerca de uma foragida, falsamente acusada de infidelidade, que se exila num ermo nas Ardenas com o seu filho, alimentado este pelo leite de uma corça que lá apareceu. Em Portugal, é também o leite de uma corça que salva um bebé adoptado por um homem em Vir-a-Corça, junto a Monsanto. Ambas as lendas aludem ao papel materno do mamífero, a fêmea que amamenta, a fonte da vida.

Há teorias que defendem a divinização da corça pelos lusitanos, assumindo até que Sertório, para cair nas boas graças lusas, inventou que estes animais falavam com ele. Seria o eremitismo tão conhecido nos corços que provocava um fascínio tal na mente humana ao ponto de os ter como um reflexo divino?

Não devemos esquecer, da mesma forma, a corça na mitologia grega, com os seus chifres de ouro e pés de bronze – é consagrada a Artémis (mais uma vez, uma mulher) e, segundo um episódio mítico, foi nela que Taigete se transformou para escapar a Zeus, sendo procurada depois por Héracles (ou Hércules, na versão romana) num dos seus doze trabalhos de penitência.

Houve igualmente, como com a maior parte dos animais antes venerados por cá, uma tentativa de diabolização, sobretudo com a chegada da mensagem cristã que pretendeu redireccionar os actos celestes para as Senhoras e os Santos. A lenda da Nossa Senhora da Nazaré, por exemplo, põe D. Fuas Roupinho atrás de uma corça (ou de um veado, depende da versão) com o seu cavalo, para mais tarde se aperceber que esta era afinal uma reencarnação do demónio.