Cantos Populares Madeirenses (II)

by | 12 Mar, 2020 | Culturais, Madeira, Províncias, Tradições

Monumentos

Natureza

Povoações

Festas

Tradições

Lendas

Insólito

Parece-nos de interesse mais uma vez revisitar os cantares populares madeirenses que com êxito no passado brindaram a folha desta plataforma online. A recolha destes cânticos é feita junto dos mais velhos, lá para as zonas periféricas da ilha, nomeadamente, na zona sudoeste, fértil em memória e imaginação.

Nesta edição, preparámos dois cantares infantis divulgados junto dos mais novos, seguidos de um outro cantar destinado à rapariga casadoira. Note-se que alguns destes cantares são simultaneamente jogos de lazer, utilizados para entreter as crianças, duma avó que segura a mão do neto, sendo que a mão da avó realiza o gesto e a sua voz o cantar. A criança, expectante, aguarda o resultado do jogo.

Apurámos o ouvido, aparámos a lapiseira, dispusemo-nos a registar.

O primeiro dos cantares é, com efeito, acompanhado de gestos de mão: mão direita sobre mão esquerda a contar dedos no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, do polegar ao mindinho. Segue o cantar:

‹‹Este foi à serra/
Este achou um perinho/
Este descascou/
Este comeu/
E este disse que era bonzinho.›› 

O segundo cantar envolve também uma mão por sobre outra, uma mão direita sobre a superfície duma mão esquerda, varrendo a pele no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio (assumimos tanto esta disposição de mãos quanto a anterior pelo sentido de orientação destro). Ao esfregar a superfície da mão num ritmo constante, a voz entoa:

‹‹Varre, varre vassoirinha [sic]/
Pela porta da vizinha/
Galinhinha da papada/
Quantos ovos ponha/
Nada/
Ponha um, ponha dois, ponha três, ponha quatro, ponha cinco, ponha seis, ponha sete, ponha oito, tira fora o teu biscoito/
Varre, varre vassoirinha/
Pela porta da vizinha/
Galinhinha da papada/
Quantos ovos ponha/
Nada/ 

Ponha um, ponha dois, ponha três, ponha quatro, ponha cinco, ponha seis, ponha sete, ponha oito, tira fora o teu biscoito››

E repete os versos por quatro vezes até restar um único dedo da mão esquerda da criança, o dedo que de entre todos triunfa por sobrar à vassoura imaginária.

O terceiro e último exemplo tem como destinatária a rapariga em idade de casar. É-nos particularmente delicioso e tem assim o condão de encerrar esta edição de cantares. Depois de formada uma roda de participantes, todas meninas, de mão dada, as vozes entoam:

‹‹A feniana que está no meio/
Está na idade, está na idade de se casar/
Está na idade, está na idade de se casar/
A ti não quero, de ti não gosto/
É só a ti, é só a ti que eu ei-de amar/
É só a ti, é só a ti que eu ei-de amar/
E anda à roda, desanda à roda/
Escolhe o par, escolhe o par que te agradar/
Escolhe o par, escolhe o par que te agradar/
Anda paspalhão pró meio/
Para a roda desandar/
Bem feito que não há de achar/
Que não há de achar com quem casar.››