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Portugal, no seu conjunto continental, acaba por ser todo uma finis terræ – uma geografia onde a terra acaba e o mar começa. No entanto, guardámos esse nome para os cabos que saem em direcção ao oceano, feitos pequenas penínsulas – e já aqui falámos do Cabo de Sagres e do Cabo de São Vicente. De todos eles, o Cabo da Roca, por marcar um recorde, é o mais famoso.

O Cabo da Roca, uma passagem de dimensão entre elementos: terra e água

Cabo da Roca: o último fim do mundo

Os fins do mundo são essas finisterras que falámos acima. Portugal está cheio delas porque a partir daqui, em determinada altura da história, acreditava-se de facto não haver nada mais que não mar, e que o mar terminaria também, algures. Eram os fins da terra habitável, do chão que nos dá sustento. Nesse aspecto, o Cabo da Roca não é apenas mais um. É o último. A última finisterra, por estar no ponto mais ocidental da europa continental, ou seja, da única europa que durante muitos anos se conheceu.

A juntar, além de gozar dessa posição extremo-ocidental europeia que a promove por si só, é um ponto de visita obrigatório pela beleza natural que o decora, num parque protegido e carregado de misticismo como é o de Sintra.

Essa energia sente-se mal dobramos a estrada nacional que passa a Este de Azóia e segue em direcção ao Atlântico. Passando a povoação, surgem logo os pequenos relevos verdejantes, à esquerda e à direita. É por aí que a magia da Roca começa a tomar conta de alguma coisa na pele, que não sabemos exactamente o que é.

A estrada vai descendo, serpenteante, entre plantas que gostam do sabor do mar. São cravos e cravinhos de todo o tipo: cravos-da-índia e cravos-romanos e cravinhas-bravas. As redondas e alvas raízes-divinas, na primavera, dão-lhe a cor perfeita. Depois estabilizamos o volante quando a serra se endireita. Por fim, a linha limite do Atlântico anúncia-o. E ele aparece, com o farol – um braço levantado a dizer que é por ali.

Se conseguirmos ir numa altura em que não haja muito mais que não nós próprios – e hoje em dia não é fácil, tantas que são as excursões -, dificilmente encontramos neste país um pedaço de terra que nos eleve tanto ao sagrado quanto este. E nem a cruz que lá se encontra nos remete para qualquer religião. Naquele ermo, somos todos pagãos, uma evidência da pequenez do homem numa imensidão de mar e terra e céu.

Um Cabo de Culto

Obviamente, um sítio destes, a ponta da lança da Serra de Sintra, não poderia ficar distante dos mistérios que caracterizam este cerro sacro.

Chamaram-lhe, além de Cabo da Roca, Cabo de Ofiússa (traduzido, Cabo da Serpente) e Promontório da Lua. A última designação explica-se facilmente, já que sabemos que o outro nome dado à Serra de Sintra é precisamente Serra da Lua. De qualquer forma, não dá para fugir à carga simbólica que qualquer um destes nomes tem, seja pela roca, pela lua, ou pela serpente.

A Serra de Sintra é célebre pelos mais variados cultos que lá se fazem, alguns de um esoterismo duvidoso, mas que ainda assim adensam o volume mistérico de um monte dedicado à lua. Este promontório de que aqui falamos, enquanto ponta derradeira de um monte de encantos, não pode fugir a essa aura. E se fosse preciso – que não é -, temos sempre todos os testemunhos que lá perto comprovam exercícios de adoração à Deusa-Mãe, à Lua, e até a Saturno.

Saturno, Deus do Tempo, equivalente romano do helénico Kronos, é uma romanização de outras Deidades que aqui se adoravam. A devoção ao tempo que aqui se presta encontra uma tradução nos ciclos da natureza, e mesmo nos lunares, não sendo difícil imaginar este cabo como uma sala privilegiada para a manta de estrelas no céu, e portanto para uma compreensão profunda de como os astros ajudavam a reconhecer as redundâncias cíclicas: as estações. Mesmo o nome pelo qual este termo da terra ficou conhecido aponta nesse sentido: a roca é também uma alusão ao tempo, já que a roca representa a tecedura do destino, sendo o fio que vai desenrolando a vida.

Esta religiosidade veio a ser prolongada, primeiro via islão, segundo via cristianismo – lembremos que se espreitarmos para oriente, num cume de onde se vê quase toda a linha costeira sintrense, temos a Capela de São Saturnino, bem junto ao mais recente Santuário da Peninha).

Farol no pôr do sol do Cabo da Roca

O Cabo da Roca ao final do dia

Uma falésia sobre o Atlântico

Extremo Ocidente

Lenda do Cabo da Roca

Há uma ressalva a fazer a esta lenda que se conta de seguida. Não é absolutamente consensual que o local descrito se refira ao Cabo da Roca – isto porque ele nunca é citado. Alguns autores assumiram que sim. Outros, não. De qualquer forma, aventuramos que, não fosse o Cabo da Roca o invocado, seria com toda a certeza uma finisterra, e uma bem próxima daqui.

O que nos contam é que uma mãe deu pelo desaparecimento do seu filho e que não o conseguia encontrar em lado algum. Um dia, pastores ouviram um choro de rapaz, e foram dar com ele no sopé de uma falésia. A notícia chegou à vila que se apressou em o socorrer. Assim que voltou aos braços da sua mãe, todos repararam no aspecto saudável que o miúdo tinha. Perguntaram-lhe então como se tinha aguentado tão bem num lugar tão ríspido e despido de vida. O miúdo contou tudo: que umas mulheres que voavam o tinham vindo buscar e pelo ar atiraram-no desfiladeiro abaixo – bruxas, pensou o povo. Felizmente que, todos os dias que lá esteve, uma senhora vinha entregar-lhe uma sopa de cravos da serra, e que assim se foi aguentando. A vila apressou-se então em fazer uma missa de agradecimento a esta boa fortuna. Ao entrar na igreja, o rapaz avistou a imagem da Virgem, e assim disse: Mãe, aquela foi a Senhora que me vinha dar sopa de cravos todos os dias.

Convém dizer que a recolha desta lenda foi feita por um padre nas alturas imediatamente posteriores à do grande terramoto. Poderá ter havido um ligeiro acerto daquilo que foi contado a uma certa linguagem eclesiástica, como a introdução das bruxas, por exemplo.

O Cabo da Roca destaca-se no mapa europeu – o extremo oeste de um continente que procurou nos mares à sua frente um mundo novo

Sintra – o que fazer, onde comer, onde dormir

O concelho de Sintra é dos poucos em Portugal onde temos uma colectânea de quase todas as paisagens possíveis do país - há campo (como em Colares e as suas particulares vinhas), há vilas históricas (como a própria vila de Sintra), há praias (e tantas são elas, como a Praia Grande, a da Ursa, a das Maçãs, a da Adraga, a do Magoito, a de São Julião ou a das Azenhas do Mar, entre muitas outras), há promontórios (como esquecer o mítico Cabo da Roca?), há serra (com todos os seus altos, da Peninha ao cume sintrense do Castelo dos Mouros), e há urbe (já entrando nos pólos suburbanos de Lisboa, como Mem Martins).

As dormidas que se recomendam dependem, por isso, de qual o objectivo da visita. Sendo também evidente que por se escolher um sítio perto da costa não significa de todo que não se possa ter um passeio cultural ou uma caminhada serrana - está tudo ali à mão.

Ainda assim, e por partes: para estarmos perto do centro histórico da vila, recomenda-se a Casa da Estefânea Boutique Bed and Breakfast e o Sintra Bliss Hotel (colada à Estação de Comboios de Sintra); para um registo mais bucólico, temos a Eugaria Country House by Lost Lisbon e a aristocrática Quinta de São Tadeu; para destino balnear, salientam-se algumas casas que podem ser alugadas, como a Sintra Maçãs Beach House (com dois quartos e junto à praia homónima) e o belo chalet O Amorzinho Sintra Praia.

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Mapa

Coordenadas de GPS: lat=38.780431 ; lon=-9.498994